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Entrevista com Pietro Basso: “Na Europa, os imigrantes podem ser o motor de um despertar geral”

Juan Andrés Gallardo

Milhares de pessoas se manifestaram em Paris no dia 20 de junho em solidariedade com os trabalhadores imigrantes sem papéis.

Entrevista com Pietro Basso: “Na Europa, os imigrantes podem ser o motor de um despertar geral”

Juan Andrés Gallardo

Entrevistamos Pietro Basso, sociólogo italiano da Universidade de Veneza e pesquisador do fenômeno das migrações internacionais. Falamos sobre a situação dos imigrantes durante a pandemia, a política dos governos e dos sindicatos, e sobre o impacto das atuais mobilizações contra o racismo que se estenderam dos Estados Unidos a todo o mundo.

Juan Andrés Gallardo: Qual é a situação dos migrantes durante a atual pandemia do coronavírus?

Pietro Basso: Minha resposta não pode se basear em estudos sistemáticos, considerando que não temos nenhum estudo sobre a Itália nem da União Europeia nem da França, por exemplo, nem tampouco da Alemanha onde os estudos são mais precisos, não temos os estudos sistemáticos que possam nos dar uma resposta precisa com números precisos.

Eu pensei em subdividir minha resposta refletindo sobre três figuras da imigração. Primeira figura: os imigrantes e as imigrantes empregadas nos setores essenciais, isto é, saúde, agricultura, indústrias alimentícias, logística, transportes, trabalho doméstico, trabalho de cuidados, limpeza, serviços de limpeza, dos edifícios, etc. Na Itália, na Europa, e creio que também nos Estados Unidos e em outros países, estes setores não nunca pararam.

Se formos ver, em todos estes setores a presença dos e das imigrantes é particularmente forte; por exemplo: no Reino Unido 33% dos médicos são imigrantes, 21% das enfermeiras são imigrantes. Nos Estados Unidos, 30% dos médicos são imigrantes com uma permissão de residência provisória. Na Alemanha, 20% são imigrantes, muitos deles da Síria, 6% das enfermeiras são imigrantes. Se vamos para a Suíça, 47% dos médicos são imigrantes. Na Itália são muitas as enfermeiras imigrantes, dezenas de milhares de enfermeiros e enfermeiras do Peru, das Filipinas, da Polônia, da Ucrânia.

O que é que quero dizer? Os imigrantes, as imigrantes, trabalhadores, trabalhadoras, estão fortemente presentes naquela parte da força de trabalho que não pôde suspender o trabalho. Se temos em conta que na Europa contamos que há 10 ou 12% de imigrantes sobre a população total, nos setores essenciais se chega a quase 40%, entende? Os trabalhadores e as trabalhadoras imigrantes estão particularmente expostos ao risco de Covid, porque estão particularmente presentes nos setores essenciais.

Além disso, porque estão particularmente presentes nas áreas metropolitanas mais ligadas à economia global. Por exemplo, na Itália, o máximo de contágios da Covid é na Lombardia, a região italiana que cobre quase 35% das exportações da Itália, a região italiana mais ligada à China, mais ligada à Alemanha, mais ligada aos Estados Unidos. A região italiana mais internacionalizada é a que tem o maior número de imigrantes.

Por estas duas razões nós podemos dizer que os imigrantes estão particularmente expostos ao risco Covid.

Estão também porque em todos os países europeus existe o que os estudiosos chamam de desigualdade da saúde, ou seja, o acesso à estrutura sanitária não é igualitário entre os italianos e os imigrantes, entre os franceses e os imigrantes. Quem não tem a residência recebe atenção a duras penas, terrível, ou não tem nenhum direito para aceder a certos cuidados, têm medo de ser descobertos, então há uma desigualdade de saúde que golpeia sobretudo os imigrantes sem autorização de residência.

Este setor da imigração não tem um verdadeiro acesso à estrutura sanitária, mas aqueles que sim têm um acesso garantido à estrutura sanitária, em geral vivem em piores condições tanto de moradia como de risco no trabalho. O que “ajuda” neste caso é a idade média dos imigrantes, que se sabe é ao menos 10 anos menor, por exemplo, na Itália, é 11,5 anos a menos que a idade média da população italiana, em um sentido, isto ajuda porque lhes protege um pouco mais do impacto desta pandemia.

A segunda figura são os emigrantes. Vejamos como se comportou esta crise sanitária mundial, esta pandemia, sobre os emigrantes, aqueles que estão se movendo do país de nascimento ao país de destino. Não existe um bloqueio total da emigração, mas há sim uma drástica redução. Por quê? 170 países, quase a totalidade dos países do mundo, fecharam em as fronteiras por toda parte. Mas como os motivos que impulsionam a emigração não diminuíram, então qualquer um que tenha decidido sair do seu país, foi ao encontro de maiores riscos, de maiores custos e um certo número, por exemplo, de emigrantes para a Itália, para a Europa, ficaram presos na Líbia, na Tunísia, na Grécia, na Turquia, na Sérvia. Assim enfrentaram a migração, se encontraram frente a dificuldades maiores que as habituais, estes que estavam a caminho da Europa.

Mas é preciso considerar outro tema. Certo número de imigrantes buscaram voltar a seus países de origem, seja porque perderam o trabalho, seja porque na Itália ficaram impressionados pela devastação desta epidemia, e pensaram: “me salvo, salvo minha saúde”.

Há um artigo do El País que indagou e demonstrou que existe um tráfico ilegal “do regresso” do emigrante que está na Espanha e creio que também na Itália, ainda que por agora não há nenhuma investigação da Justiça, são ações de grupos criminosos que gerem a volta dos emigrantes a seus países de nascimento, porque eles decidem voltar a se reunir com suas famílias.

Naturalmente, na Europa não há uma tragédia como aconteceu na Índia. Vocês viram, na Índia faz pouco tempo, milhões de imigrantes internos tiveram somente 8 horas para pegar suas coisas e irem embora de algumas das principais cidades. E percorreram milhares de quilômetros para retornar a seus povos já que foram expulsos das cidades (...).

A terceira figura são os solicitantes de asilo. Estão reclusos, como se sabe, nos Centros, nos Campos de imigrantes. Estes Centros ou Campos de imigrantes são alguns dos lugares mais superlotados e mais densamente povoados do mundo. Têm condições precárias tanto de higiene como de habitação. Não é possível fazer um isolamento nestes lugares. Há altíssimo risco para a saúde. Perto daqui de minha casa, 20 km no interior de Veneza, houve uma revolta em um destes Centros, uma velha tenda fechada, onde os solicitantes de asilo pediam para ter um verdadeiro controle médico imediato das autoridades. Na Itália, não sabemos o número de mortos nestes Centros porque as autoridades cobriram estes dados de silêncio, porque é perigoso divulgá-los.

A última figura que queria apresentar é a dos menores não acompanhados. Na Itália são muitos. Devo dizer que para estes menores, nestes meses, o Estado não fez absolutamente nada. Não tomou nenhuma medida, e por isso estão abandonados sem assistência. Por outro lado, tanto na Itália como na França, existe um discreto número de menores que vivem na rua, que dormem na rua, que estão na rua. Estas são as consequências desfavoráveis da atual pandemia sobre os imigrantes, emigrantes e os solicitantes de asilo.

Quais são as perspectivas para os migrantes tendo passado o primeiro pico da pandemia na Itália?

O que preocupa é o que vai vir depois. Está previsto para o outono um forte crescimento do desemprego, muitos imigrantes ficarão sem a Autorização de Residência por terem perdido o trabalho, então serão obrigados a fazer uma competição com os outros trabalhadores, imigrantes e italianos, isto pode criar tensão.

Nestes meses as forças de direita perderam peso. Por quê? Porque se concentraram em um discurso contra os imigrantes enquanto a população advertia que o principal perigo era a pandemia. Isto os deixou em desvantagem, perderam popularidade também porque a região que geriu de modo mais desastroso esta pandemia foi a Lombardia, que é uma região governada há 40 anos ou 50 anos pela Direita, pela [extrema] Direita Legista (A Liga) e pela Direita Berlusconiana unidas. O teste pelo que o governo passou foi literalmente desastroso, porque atenderam as imposições dos empresários industriais, mantiveram tudo aberto e desta maneira favoreceram uma grande propagação do vírus. Isto danificou muito a reputação destes dois partidos, da Liga sobretudo, que perderam peso nestes meses, mas creio que buscarão recuperá-lo com uma agressiva propaganda contra os imigrantes quando nos encontremos em presença de um forte desemprego.

Que relação se estabelece entre os trabalhadores migrantes e nativos e que papel os sindicatos cumprem?

O que fizeram os sindicatos? Vou a responder assim: zero. Os sindicatos são fantasmas nisto, falo dos grandes sindicatos, ou seja, sindicatos que eu chamo sindicatos institucionalizados. O que fizeram? Assinaram dois protocolos com o governo para proteger a saúde dos trabalhadores. Quando assinaram? Assinaram quando os operários do Grupo FIAT e os operários de outras fábricas se declararam espontaneamente em greve e quando em um setor importante da economia italiana, a logística, foi o sindicalismo de base (SiCOBAS) quem deu aos próprios trabalhadores a indicação de ficarem em casa, de não ir ao trabalho [...] e manter a atividade somente na produção essencial. Foi o único sindicato que deu esta batalha, difícil também entre os trabalhadores porque os trabalhadores migrantes se arriscavam a perder o posto de trabalho. Então, a CGIL, CISL e a UIL [os grandes sindicatos] somente se moveram quando viram o descontamento contra eles, especialmente na Lombardia e em Emília-Romanha, que foram o epicentro desta propagação do vírus na Itália. Nas fábricas destas duas regiões havia um grande descontamento, então assinaram um primeiro acordo que era tão concessivo para os industriais que tiveram que sim ou sim assinar um segundo acordo que de todas maneiras era mais simbólico que real. Isto também se aplica à anistia [para imigrantes] que o governo decidiu fazer na metade da pandemia. Era uma anistia falsa. Por quê? Porque se aplicava somente a três setores: o trabalho agrícola, o trabalho doméstico e o trabalho de cuidado de pessoas. Então se um imigrante trabalhava em um destes três setores podia fazer o pedido [de anistia], mas depois colocaram tantas condições e restrições que só um número muito limitado de pessoas poderá ter esse direito. E grande parte dos imigrantes sem autorização de residência ficarão sem esta autorização.

Então, eu creio que tudo vai depender da iniciativa dos trabalhadores, como o que estamos vendo nos Estados Unidos, uma coisa que eu creio que é excepcional e que poderia ter um grande impacto também na Europa e em parte já está tendo. Ou seja, um movimento afro-americano que arrasta com ele muitos brancos, muitos latinos, mexicanos e também imigrantes da Ásia. E sobretudo entre as novas gerações, nós vimos as praças europeias cheias. As praças de Paris, Londres, Berlim, também em menor medida na Itália. Vimos praças cheias ou abarrotadas de filhos de imigrantes que arrastaram com eles jovens nativos autônomos e precários. O mundo da precariedade, na Itália e na Europa, está se tornando enorme e no interior destes setores, que são sobretudo juvenis. As gerações de imigrantes, como nos Estados Unidos a força o movimento dos negros, pode ser o motor de um novo despertar geral. Eu espero isto, eu de verdade alento por isto, sou um fã desta saída.

Você crê que as recentes marchas antirracistas nos Estados Unidos e na Europa podem ser uma contratendência às expressões xenófobas e de extrema direita que vimos nos últimos anos?

Penso exatamente isso. É uma contratendência em ato, só que nos Estados Unidos esta contratendência já está forte, visível, enérgica e organizada mais do que se pode imaginar. Eu vejo que os Estados Unidos nestas semanas tem a emergência de um novo movimento proletário internacional feito de todas as raças, todas as cores, é verdade. Jovens proletários internacionais com um sentimento internacionalista. Na Europa ainda não estamos nisto, mas se nos lembramos de antes nos anos 60, em outro contexto, o 1968 mundial foi anunciado pelos Estados Unidos da América, não pela França, nem pela Itália, e foi anunciado por Berkeley, pelo movimento negro, foi anunciado pela resistência contra a guerra contra o Vietnã. Então esses foram sinais de um vento que estava mudando.

Creio que de novo nós temos que nos Estados Unidos, que três anos atrás mostrava o signo da máxima agressividade da reação imperialista, que é Trump, em pouco tempo, o vento está mudando e está voltando à rua um movimento real que põe em discussão em profundidade o presente estado de coisas. Dizer que queremos cidades sem polícia, ao meu ver, tem uma importância política excepcional. Fazer como em Seattle, que seja provisoriamente, mas fazer como Seattle declarando zonas livres da polícia. Dizer: nós nos organizamos sem o aparato repressivo do Estado, nos auto-organizamos e nos protegemos, protegemos nossa vida, nossa segurança, é uma ação que independentemente da consciência subjetiva que se pode ter, tem uma dimensão enorme. Não é a reforma da polícia, é de fundo, ou seja, é tirar o dinheiro da polícia, tira a polícia de dentro das escolas, das ruas, das cidades. É desmilitarizar o que há de mais militarista do Estado, o mais militarizado da sociedade.

É de verdade uma mensagem enorme, a favor da satisfação das necessidades sociais que não vêm sendo satisfeitas. Eu penso que é uma mensagem de uma força espetacular e, de fato, as cidades com mais vida política da Europa, ou seja, Paris, Londres e Berlim, são as primeiras em perceber isto. Mas te surpreenderá saber que também Varsóvia se manifestou, eu fiquei muito surpreendido, se manifestaram com os negros e pelos negros e contra este governo fascistoide. É algo muito importante.

Traduzido por Francisco Marques.

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