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Em meio à rebelião chilena: lutas e conquistas da classe trabalhadora

Durante esses 40 dias de rebelião no Chile, os trabalhadores não apenas participaram de várias formas das manifestações, mas também protagonizaram suas próprias lutas, que eram tingidos com o clima de turbulência social no país.

segunda-feira 2 de dezembro| Edição do dia

Os trabalhadores do Chile intervieram nessas seis semanas de rebelião de várias maneiras. Em alguns casos, eles participaram diretamente das mobilizações ou nos dias de paralisção, em outros, acompanharam os milhares que marchavam com seu apoio, ou se organizaram em seu local de trabalho ou em comitês, como o Comitê de Emergência e Resguardo que foi formado em Antofagasta.

Como disse o líder revolucionário Vladimir Lenin: "Há décadas em que nada acontece e semanas em que décadas se passam". Foi exatamente o que foi visto nesses 40 dias no Chile. Juntamente com a rebelião que questionou os "30 anos" da herança neoliberal de Pinochet, os trabalhadores tiveram coragem de questionar muitas das coisas que foram naturalizadas durante anos no país. Nestes poucos dias, houve uma série de conflitos, dos quais a maioria terminou em triunfo, que questionam o nó da prepotência empresarial chilena: o enorme trabalho precário, subcontratação, ritmos e extensão da jornada de trabalho, entre outros. Quais são as conquistas dos trabalhadores que já vimos cristalizadas nessa revolta popular no Chile?

  • "Na Usach (Universidade do Chile), decidiram contratar diretamente todas as pessoas que trabalhavam mediantes empresas externas (tercerizadas)", comentou Amelia Quilaqueo Vásquez em seu portal do Linkedin, chefe de Vinculação com a mídia e diretora de relações da Faculdade de Administração de Economia da Universidade de Santiago do Chile, referindo-se a essa importante conquista após anos de luta dos subcontratados da USACH.
  • Por outro lado, o Sindicato dos Trabalhadores do Instituto Nacional de Estatística (SINE), relata que, após uma paralisação motivada pela demissão injustificada de colegas e membros honorários (monotributo), eles foram reintegrados.
  • Em Puente Alto, com grande esforço durante as mobilizações, foi levantado o Sindicato Honorária da comuna, denunciando em público na última sexta-feira, 29 de novembro, o emprego precário e a flexibilidade do trabalho.
  • “Na mesma linha, há algumas semanas, os coletores de lixo começaram um dia histórico de paraliação depois de denunciarem as condições miseráveis ​​em que seus empregadores os mantinham. A dignidade outra vez, a precariedade da vida e as horas exaustivas de trabalho foram os eixos que articulam grande parte de suas demandas.
  •  No metrô de Santiago, houve um levantamento contra os ajustes para o reparo das estações danificadas, que eles queriam descarregar sobre os trabalhadores.
  •  Os funcionários do Mall Florida Center e do Wallmart protestaram contra o retorno ao horário de trabalho que tinham antes.
  •  Em Concepción, subcontratados da Companhia Nacional de Petróleo (ENAP) marcharam pedindo para equiparar as condições de trabalho com os da planta.
  •  Em Antofagasta, os motoristas de Chuquicamata se levantaram contra suas condições de trabalho nas quais as horas de descanso não são respeitadas; já os Trabalhadores da Transantofagasta por contrato precário conseguiram o contrato em duas linhas com poucas horas de paralisação (há um ano, eles já haviam se organizado contra a precariedade do trabalho e tinham perdido)
  • Na empresa Happyland, ocorreu contra as demissões de dois jovens que participam da linha de frente dos protestos e foram identificados. Foi organizada uma marcha no shopping da maioria dos trabalhadores, que têm um nível muito alto de rotatividade. Há também a luta contra demissões em Adelco; contra demissões no Colégio Providencia; ou o caso de trabalhadores em Orica que estão se organizando para enfrentar sua chefatura por abuso.

O que essas experiências têm em comum? Que tentativa incógnita de desenvolver as lutas específicas que esses setores se plasmam em seus diferentes postos de trabalhados e que se juntam ao clamor de dignidade, solidariedade e direitos que vemos em cada dia de mobilização?

Em primeiro lugar, é voltar a acreditar no movimento, ao tomar a mobilização novamente como uma ferramenta de massa, que pode golpear as decisões arbitrárias de chefes e patrões. Onde o sonho se torna possível, onde algo se torna concreto, através do movimento organizado dos trabalhadores, é que aparece um novo espaço para pensar em uma nova ordem das coisas que redefinam os limites dos fatos que anteriormente os paralisavam.

O segundo é a coesão, é a construção em rede, a convergência em seus órgãos de base. É processar coletivamente. Vimos como, nessas semanas, várias iniciativas de comunicação surgiram paralelamente à mídia do monopólio informativo que se abre para o conhecimento anteriormente oculto.

Se, de fato, a intensidade diminui com o passar do tempo, fato evidenciado que uma segunda grande marcha nacional como a de um milhão e meio de trabalhadores daquele dia 25 de outubro não foi alcançada, a intensidade que resta, por outro lado, multiplica a agitação permanente em várias outras demandas que nascem dia após dia, semana após semana.

A luta e as conquistas dos trabalhadores agora são evidentes, como uma possibilidade concreta que busca outros caminhos a percorrer, mas que ao longo das semanas vem convergindo para uma necessidade prática de desenvolver essa força e esse desejo de querer mudar tudo. E vemos nas ruas, nos trabalhos, que a conquista não é isolada e, antes, responde a esse desejo de querer transformar todo esse regime.

Essa confiança na mobilização, nos métodos de greve e paralisação como formas-chave de luta, para alcançar nossas demandas, representa a enorme força que a classe trabalhadora tem para alcançar mudanças estruturais e avançar para uma verdadeira Assembleia Constituinte Livre e Soberana. Ainda que hoje setores da oposição estejam negociando essa pauta no parlamento, convertendo-a em uma uma instância enquadrada dentro dos limites da democracia representativa herdada da ditadura, que é a mesma democracia de descontentamento de estudantes, mulheres e trabalhadores que agora saem para a rua e que em 30 anos de pacto neoliberal não viu suas necessidades serem atendidas.

Assim, esses processos podem deixar duas conclusões em cima da mesa: que a conquista dos trabalhadores deve estar necessariamente vinculada à conquista de seus órgãos de base, com amplitude democrática e exigência estrita de que as orientações sejam subordinadas às decisões das assembleias ou coordenadoras de bases. E dois, que apesar de baixa intensidade (que ainda mantém sua vanguarda ativa, como tem sido, por exemplo, a primeira linha nas ruas), sonhos e desejos, convertidos em demandas sociais e na necessidade de um novo horizonte e frente de conquista, não se detém, pelo contrário, se expande constantemente para novos grupos e sindicatos que paralisam e entram no que tem sido a maior revolta social das últimas décadas no Chile.




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