Política

OPINIÃO

Derrotada por sua própria política, Dilma defende plebiscito por novas eleições em carta a Senadores

Dilma fez pronunciamento à nação defendendo a realização de um plebiscito por novas eleições. Um apelo protocolar em meio à derrota construída pelo próprio PT.

Leandro Lanfredi

Rio de Janeiro | @leandrolanfrdi

terça-feira 16 de agosto| Edição do dia

Depois de longas idas e vindas sobre o que revelaria em sua carta de apelo – protocolar – aos Senadores, Dilma finalmente trouxe a público seu compromisso com a convocação de um plebiscito para convocação de novas eleições e pela realização de uma “ampla reforma política”. Nessa epístola da derrota voltou a utilizar o termo golpe. Durante toda a semana muito se especulou, com diferentes alas do petismo argumentando tons distintos na carta, se ela seria uma furiosa carta de denúncia do golpe institucional para constar como documento histórico ou seria, pelo oposto, um profundo mea culpa que sequer falaria em golpe em súplica pelo retorno.

Não foi nenhuma coisa nem outra. Foi o meio termo, a mediocridade em forma de discurso. O golpe apareceu no condicional “se confirmado o afastamento sem crime de responsabilidade será um golpe...”, e reconheceu que seu governo tinha se afastado do povo, como o chamado petismo crítico lhe criticara. Frase seguinte, Dilma disse o oposto, do que deixou como marca de governo foram os direitos, e que segue como premissa “‘nenhum direito a menos’”.

Quem não se lembra do “nem que a vaca tussa das eleições”? Eis que não foi assim. Com retirada de direitos no seguro desemprego, e planejamento do que Temer agora começa a implementar: reforma da Previdência, privatização de setores da Petrobras, Eletrobras e portos.

O desgaste do segundo mandato não se deve exclusivamente às chicanas de Cunha, Temer, Renan, Padilha, Serra, Moro, da mídia e do STF. Mas também ao profundo descrédito do PT, iniciado nas jornadas de junho de 2013 que expuseram que suas fórmulas de conciliação de classe já não continham os batalhões da juventude e de um novo proletariado. Esse descrédito foi escancarado nas eleições de 2014 com derrotas eleitorais em importantes e históricos bastiões operários como Contagem e São Bernardo. Mas do alto da soberba de mais uma vitória eleitoral e da certeza que os milhões de reais das empreiteiras amigas (do PSDB, PMDB e PP também) nunca faltariam para as campanhas futuras, implementou um programa que foi o tiro de misericórdia junto da sangria diária e televisiva da Lava Jato e a vasta amplitude dos esquemas capitalistas de governo assimilados pelo PT.

A proposta de plebiscito para novas eleições é uma quimera. O presidente nacional do PT, Rui Falcão criticou a proposta. Inexeqüível disse ele. Para aprovar tal proposta Dilma precisaria de gigantescos dois terços do Congresso em uma Emenda Constitucional sendo que não alcança míseros um terço de apoio ou absenteísmo (não precisam votar não, só não irem). Uma proposta para ver se algum senador ligado à Rede de Marina ou outros setores que defendem novas eleições mudam seus votos.

Um discurso que não é nem uma denúncia contundente, nem uma oferta para atrair algum senador “quase no muro”. A comprovação em discurso do que não só o Esquerda Diário afirma há meses, o PT aceitou o golpe. O discurso protocolar de Dilma é parte da divisão de tarefas. Ela fala em golpe, no condicional; Lula, guarda-se, esperando estar vivo politicamente para 2018 nem que seja para ajudar Ciro Gomes. Enquanto isso Temer vai testando a correlação e implementando os ataques pelos quais lhe ergueram ao poder mediante o golpe institucional.

A peça derradeira da derrota construída pelo PT está na inação das centrais sindicais. Dias protocolares, com a verve do discurso de Dilma que não assustam a burguesia e os golpistas em nada. Tal como foram os atos deste dia 16 de agosto.

Os heróis e heroínas gregos costumavam morrer de hamartia – de erros trágicos, no alto de suas conquistas, no seu ponto álgido comovidos por soberba se re-encontravam com seu destino mortal. Dilma, com soberba, deixa uma de suas últimas marcas não como um Áquiles, ou uma Atalanta, mas na mediocridade de um governo de conciliação de classes com as elites que já não queriam isso. Resta tirar lições para erguer uma esquerda que combata a conciliação de classes, e coloque suas forças para desenvolver a classe trabalhadora como sujeito independente de todas as alas da burguesia, sejam elas os tucanos, ou os verde-oliva à la Bolsonaro ou os verde-dólar Marina Silva.




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