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Debate a partir do discurso de Lula | Que as centrais sindicais passem das palavras à ação contra Bolsonaro

sábado 9 de novembro| Edição do dia

O discurso de Lula no Sindicato dos Metalúrgicos do ABC foi mais ofensivo contra Bolsonaro do que o de ontem. Inclui delimitações até mesmo com a mídia. Porém, como argumentaremos, apesar das novas cores, o discurso não chegou a apresentar nenhuma mudança no norte estratégico do líder petista que visa todos os esforços voltados às eleições de 2022 e não a derrotar integralmente o projeto golpista e neoliberal.

Para se enfrentar e derrotar o golpismo, não meramente como um governo mas como um projeto político, é preciso minar suas bases econômicas, que não são oriundas apenas de contingências políticas, mas respondem a anseios de classe da burguesia. Ela quis o golpe para realizar ataques muito mais profundos do que aqueles que o PT já realizava. Lula mencionou no discurso que caberia aos deputados “atuar como leões” para impedir novos ataques, deixando nas entrelinhas uma separação entre o que pretende organizar nas caravanas, a atuação parlamentar e o norte estratégico de 2022 que pode se desenvolver em meio à terra arrasada de direitos dos trabalhadores. Essa já foi a localização estratégica de Lula e do PT nos 90 diante de FHC.

Ao término do discurso chamou as pessoas a lutarem, “não ir um dia e depois passar 3 meses e voltar. Luta é todo dia”. Ou seja, num primeiro momento logo após a soltura, o ex-presidente busca ocupar todo o terreno à sua esquerda, abraçando efusivamente Freixo, Boulos e figuras do PCdoB, para se moralizar, tentar neutralizar qualquer alternativa à sua esquerda, para depois acumular forças e negociar em melhores termos as alianças com forças políticas de centro e de direita. O discurso no Sindicato não é o mesmo que se usa para costurar alianças no Nordeste, por exemplo. É preciso fazer as palavras de luta não se limitarem ao discurso e construir um plano de lutas efetivo, que coloque em marcha essa juventude que já vem se levantando contra os ataques de Bolsonaro, junto ao conjunto da classe trabalhadora e dos setores oprimidos a fim de derrotar Bolsonaro e os golpistas em sua integralidade.

Derrotar integralmente o golpismo exige encarar todos os limites do que é projeto petista de poder. Como foi a conciliação de classes, a conciliação com o judiciário, com o agronegócio, com as bancadas da bíblia e da bala, que fortaleceu todo o golpismo, e por outro, mesmo em uma hipotética chegada ao poder, as condições econômicas e políticas mudaram radicalmente, já não é possível se apoiar na passividade política nem muito menos num crescimento econômico mundial para oferecer algumas concessões aos trabalhadores.

Dessa forma Lula vai se construindo até biograficamente como antagonista de Bolsonaro, preparando o terreno para 2022, o que inclui menções a eleições de 2020 e escolhas de pessoas que mencionou, como candidatos petistas mas também aliados como Freixo do PSOL foram lembrados em mais de uma ocasião.

De modo geral, o discurso mudou o tom, mas não a cor. Em outras palavras, a radicalização expressa no discurso de Lula tem prazo de validade e não altera a sua estratégia eleitoral em buscar derrotar o bolsonarismo nas urnas em 2022. O problema é que até lá os ataques seguem forte e é preciso fazer da luta, presente em discurso, uma realidade nas ruas e lições de programa e estratégia para que possamos aproveitar a debilidade dos golpistas para minar suas raízes.

As centrais sindicais dirigidas pelo PT e pelo PCdoB e demais entidades nacionais, inclusive as organizações que dirigem os movimentos de jovens e de estudantes, como UNE e UBES, também dirigidas pelo PT e PCdoB devem erguer imediatamente um verdadeiro plano de luta, organizado desde as bases em todos os locais de trabalho e todos os locais de estudo enormes assembleias e debates para erguer um massivo movimento que seja capaz de derrotar de fato Bolsonaro e os golpistas. Os chilenos mostram o caminho.

A ideia de que voltaremos aos tempos de “bonança” do período lulista é uma utopia, na medida em que as condições econômicas da crise capitalista internacional aprofundam a austeridade. Caso não façamos com que os capitalistas paguem pela crise, não vamos conseguir avançar nos problemas estruturais do país e ser obrigados a se contentar com um ciclo de governos de direita que nos atacam, uma resposta de esquerda ou centro-esquerda que nem sequer reverte os ataques prévios. E, no caso de Lula, se enfrentar com os capitalistas nunca foi uma opção.




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