Mundo Operário

LUTA DE CLASSES MUNDIAL

Crise do Coronavírus: 5 lutas de trabalhadores no mundo que você precisa conhecer

França, Itália, Estados Unidos, Brasil, Mianmar. Contra as demissões, por salários dignos, escolas seguras, em defesa da vida dos trabalhadores. O que está acontecendo com a classe que move o mundo?

segunda-feira 8 de fevereiro| Edição do dia

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Um petroleiro da Total, petroleira francesa onde está tendo um processo de greve, diz com orgulho a seus colegas: “Não estamos sozinhos. Normandia, Flandres, La Mède, Donges também estão em greve hoje.” Uma operária imigrante na Itália levanta uma faixa: "basta soldi ai richi " (chega de salvar os ricos). Uma delegada dos mais de 25 mil professores de Chicago levanta a mão a favor da greve: “pela reabertura segura das escolas”. Uma enfermeira do Hospital Universitário de São Paulo se junta ao piquete: “Fui vacinada, mas os terceirizados não.” No hospital de Yangon (Mianmar) uma enfermeira não se cala de forma alguma e faz greve contra o golpe militar.

Um mundo cada vez mais em crise

2021 começou como um ano complicado. O FMI tenta disfarçar seu pessimismo com previsões de uma "retomada" da economia que não chega a reverter nem metade da queda de 2020. Além disso, as novas ondas de contágio sacodem o tabuleiro e desencadeiam uma guerra pelas vacinas no melhor estilo "salve-se quem puder" .

Mas vamos falar do momento atual da classe trabalhadora. O “Monitoramento da Organização Internacional do Trabalho: COVID-19 e o mundo do trabalho” apresentado há poucos dias é direto: “Em 2020, perderam-se 8,8% das horas de trabalho no mundo. Isso é equivalente a 255 milhões de empregos de jornada integral. Quatro vezes mais do que durante a crise financeira de 2009”.

O golpe, entretanto, não é igual para todos. A perda de empregos na faixa etária de 15 a 24 anos foi mais que o dobro da de adultos. “Corremos o risco de ter uma geração perdida”, dizem.

Em um interessante artigo publicado no semanário Ideas de Izquierda [semanário semanal do La Izquierda Diario argentino] deste domingo, Michel Husson alerta que as organizações internacionais esperam que o desemprego continue a aumentar, apesar da atividade econômica estar "se recuperando". Em outras palavras, os capitalistas tentarão "sair da crise" aumentando a exploração dos trabalhadores. Husson diz que a classe empresarial começa a ensaiar "diferentes formas de ajustes trabalhistas: destruição total, falências, planos sociais, aposentadorias antecipadas, licenças especiais, extensão e flexibilização da jornada de trabalho, ampliação de trabalho por aplicativo e trabalho no domingo, tudo isso será implementado”.

Esse plano já começou. A luta de classes ainda não está à altura dos primeiros ataques, é verdade. Mas não estamos começando do zero.

Em 2019 assistimos a um “retorno da luta de classes”, com verdadeiras rebeliões populares, já que a crise começou muito antes da pandemia. Os "Coletes Amarelos", as revoltas na Argélia e no Sudão, os protestos em massa contra a fome no Iraque e no Líbano. A ruidosa negação do "modelo de Hong Kong". As revoltas em Porto Rico e no Haiti. A rebelião no Equador contra os planos do FMI e no Chile contra os 20 anos de patrimônio econômico e político de Pinochet. Em 2020, apesar do vírus e das quarentenas, vimos as greves na Colômbia, as impressionantes mobilizações contra a polícia racista nos Estados Unidos se que espalharam para outros países, a rebelião social e a crise do regime no Peru, e “a maior greve geral da história”, com 250 milhões de trabalhadores na Índia.

A pandemia, de certo forma, suspendeu alguns desses processos, mas a crise econômica, as penúrias das massas e os planos capitalistas anunciam novos choques entre classes. As medidas de contenção estatais e o papel dos dirigentes sindicais garantem que a luta de classes não exploda por enquanto. Mas o descontentamento cresce.

Na Argentina, vimos as ocupações de terras em meados de 2020 e as lutas por salários que fecharam o ano. Neste início de ano, no La Izquierda Diario temos mostrado novas respostas à tentativa de descarregar a crise sanitária nos corpos e no bolso dos trabalhadores. O setor de saúde luta por salários e condições de trabalho, os jovens da Hey Latam se colocam contra o fechamento, a greve da Subte [metrô de BuenosAires, NdT] luta para que respeitem as licenças para maiores de 60 anos. Há conflitos aeronáuticos na Latam e no GPS, numa lista que inclui camponeses do noroeste, viticultores, trabalhadores da indústria da televisão, da indústria pneumática e também motoristas. Também há conflitos com os professores, que estão alertas para as condições de retorno às salas de aula. Isso tudo para citar apenas alguns exemplos.

E fevereiro está apenas começando.

Mas temos que olhar para além de nossos locais de trabalho, e ir além de nossas fronteiras. A pandemia mostrou como o mundo está interconectado, e o quão internacionais são os lucros dos Estados e das grandes empresas. Por isso, acompanhar atentamente as primeiras lutas que nossos irmãos de classe estão liderando, aqui e ali, é a chave para ter uma visão global dos tempos que estão por vir.

Vamos fazer um tour rápido primeiro. Nos Estados Unidos: 6.000 trabalhadores da Amazon no Alabama estão travando a maior luta de sindicalização da história da empresa; em Hunts Point, um dos maiores mercados de Nova York, trabalhadores brancos, negros, latinos e imigrantes triunfaram após dias de greve; a isso se soma a luta dos professores de Chicago. No México, após greves nas maquiladoras de Matamoros, houveram conflitos na Interjet, hospitais e universidades. No Brasil, o fechamento da Ford não será tão pacífico ao que parece, e há lutas no setor de saúde, trabalhadores municipais e bancários. No Estado Espanhol houve nesta sexta-feira uma greve no Metrô e nos trens da Renfe, além de uma onda de lutas no País Basco. Na Inglaterra, quase 5.000 trabalhadores no aeroporto de Londres (Heathrow) iniciaram uma série de greves na sexta-feira. Na França os trabalhadores da Total Grandpuits estão há um mês em greve e há lutas em laboratórios (Sanofi), ferrovias (Infrapôle), logística (Tarn), elétrica (Schneider), bem como entre professores e enfermeiras de vários bairros. A Itália sai de uma greve geral de um setor dos sindicatos, com conflitos também na FedEx, Zara e principalmente na saúde.

Nos últimos dias também ocorreram dois eventos importantes. No Haiti assistimos a uma forte greve geral liderada por motoristas, professores e trabalhadores têxteis, com dois temperos especiais: a exigência de que o Presidente Moïse renuncie à sua posição e o repúdio à "violência nas ruas" que muitos ligam ao partido no poder. Na Índia, uma rebelião camponesa contra a lei de reforma agrícola está abalando o país. No final de 2020 a rebelião havia se fundido com uma greve geral de 250 milhões de trabalhadores, mas as centrais operárias e camponesas hoje evitam essa unidade.

De nossa rede internacional de jornais temos refletido esses conflitos e intervindo em muitos deles com os agrupamentos de classe dos grupos que fazem parte da Fração Trotskista.

Como já dissemos, se os compararmos com os ataques, a resistência ainda é incipiente, em muitos casos isolados. Mas deve-se prestar muita atenção a eles. Conheça-os, divulgue-os, mostre solidariedade. Tire conclusões. Desde o início da pandemia, são as primeiras respostas da classe que maneja todas as alavancas da economia. A classe que tudo cura, ensina, transporta e produz. O fim ainda não está dado.

Agora, vamos às cinco lutas desta semana que valem a pena conhecer.

1. Chicago: um exemplo de luta pelo retorno seguro às escolas

"Queremos escolas seguras." A jovem professora Hallie Trauger tem esse pôster na capa de seu computador. Enquanto lecionava, ele protestava contra o plano de volta às aulas das Escolas Públicas de Chicago (CPS). A medida foi votada por uma assembleia de 600 delegados.

A luta acontece poucos dias após a ascensão de Biden, no calor de outros processos como a luta dos trabalhadores da Amazon e Hunts Point. Milhões de trabalhadores esperam que as coisas mudem sem Trump. Mais cedo ou mais tarde, o Partido Democrata vai esclarecer que as coisas não vão mudar tanto.

A onda do coronavírus já deixou mais de 450 mil mortes naquele país, principalmente em comunidades latinas e negras. Como um ativista disse à Left Voice : “A luta por um plano de reabertura seguro é a mesma luta que todos os trabalhadores enfrentam. Não queremos marginalizar ainda mais as famílias trabalhadoras ou submeter seus filhos a condições inseguras”.

O mais interessante é uma proposta de "protocolo para um retorno seguro" que foi votada. Exigem exames e vacinas, equipamentos e outras providências para famílias carentes, que a comunidade participe da mesa de negociação, bem como o controle das condições de trabalho por meio do ensino auto-organizado. Eles propõem "eleger comitês de segurança e higiene em cada escola, com membros eleitos que incluem delegados e especialistas independentes, com as atribuições de interromper o trabalho se as condições não forem seguras".

As negociações continuaram neste fim de semana e os professores continuaram em greve.

2. Itália: três crises, uma greve geral

A situação na Itália é complicada. Soma-se à crise econômica e de saúde uma política: o primeiro-ministro Giuseppe Conte teve que renunciar.

Mas nos últimos dias as notícias também vinham das ruas. Uma greve convocada pelos sindicatos militantes (SI Cobas e Slai Cobas) desencadeou mobilizações em Milão, Torino, Piacenza, Bolonha, Roma e Nápoles, para onde convergiram trabalhadores e estudantes.

A greve foi concentrada no setor de logística, onde trabalham muitos imigrantes, mas também em alguns ramos industriais. Trabalhadores em luta, como rodoviários, e trabalhadores dos correios (SDA e Fedex), também fizeram parte da mobilização.

Uma das coisas mais interessantes são as demandas que a jornada de luta levantou:

  • Imposto sobre os ricos para investir na saúde.
  • Protocolos eficazes, com comitês de trabalhadores para monitorar o cumprimento.
  • Reorganização do serviço público único, universal e gratuito de saúde, com estatização de todas as clínicas privadas.
  • Renovação automática dos contratos de trabalho, com aumentos salariais adequados.

O impacto da greve e a simpatia dos trabalhadores que não puderam aderir devido à atitude traiçoeira dos grandes sindicatos (CGIL-CISL-UIL), mostra que existe um grande potencial de mobilização de trabalhadores e jovens que ainda não se manifestou.

“Facciamo pagare la crisis ai padroni”: vamos fazer os patrões pagarem pela crise, disse a bandeira de alguns piquetes. Em qualquer idioma isso tem que ser um grito de guerra.

3. França: um mês de greve na Total, um exemplo de como lutar

Grandpuits é uma das refinarias da petrolífera francesa Total, nos arredores de Paris. Há um mês seus trabalhadores lutam contra um plano que deixaria 700 famílias nas ruas.

A empresa defende um plano de "transição verde" que não é apoiado pelo Greenpeace, que apoia os grevistas. A empresa diz que as demissões são causadas pela crise, mas essa mesma empresa distribuiu sete bilhões de euros em dividendos em 2020.

Esse plano de demissões é um avanço do plano da burguesia de descarregar a crise nas costas dos trabalhadores, mas é necessário observar com atenção todo o caso, principalmente pelo que ele desencadeou.

No dia 4 de janeiro, começou uma greve por tempo indeterminado. Fizeram piquetes, elegeram um comitê de greve, lançaram um fundo de greve, formaram uma comissão de mulheres e foram visitar outras empresas. Assim, os trabalhadores conseguiram uma greve de solidariedade de 48 horas nas fábricas da Total na Normandia e outras cidades. "Reacender o fogo da solidariedade" foi o grito de guerra. Nós também o tornamos nosso.

Esta semana eles foram os protagonistas do “dia interprofissional” convocado por algumas centrais e sindicatos (CGT, FSU, Solidaires, UNEF, UNL), que lideraram a marcha em Paris.

Vale a pena se deter no "método Grandpuits" para fazer uma boa análise e pensar em como lutar:

  • Combatividade: Grandpuits é uma greve dura. "Selvagem" diria a mídia. Greve com adesão de 90%, piquetes nos portões e bloqueios de estradas para garantir a greve. Além disso, mobilizaram-se conjuntamente com outros setores, apesar da política repressiva de Macron, ameaças de sanções da empresa e ameaças policiais.
  • Auto-organização: Há uma frase marcada pelo fogo nestas semanas: “a greve é ​​dos grevistas”. O que isso significa? Que as assembleias são permanentes e soberanas. Que as organizações reúnem funcionários efetivos e terceirizados, bem como membros de diferentes sindicatos. Elegeram um comitê de greve com delegados revogáveis ​​de cada setor da empresa. Foram criadas diferentes comissões, como a das mulheres. Como Amelie disse à Revolution Permanent: “Queremos participar do que está acontecendo, do que está em jogo, da organização. Estamos aqui para que vocês não desistam! ”.
  • Coordenação: A frase “a greve pertence aos grevistas” não deve ser mal interpretada. Eles sabem que para vencer não podem lutar sozinhos. Como disse Adrien Cornet, delegado de base da CGT na Total, membro do CCR (grupo irmão do PTS e do MRT), em ato perante ativistas de outras empresas: “temos os mesmos problemas, os mesmos uniformes, e é exatamente por estarmos unidos que somos fortes.” O piquete tornou-se ponto de encontro de setores em luta, sindicatos e organizações políticas. Mas eles não esperam sentados. Eles passam pelas fábricas da Total e de outras empresas, para reagrupar aqueles que estão na "linha de frente" da resistência.
  • A "frente única dos trabalhadores". Essa coordenação está a serviço de alcançar o resto da classe trabalhadora. Nas assembleias e marchas, os diferentes sindicatos (CGT, FO, CFDT) são chamados a apelar a medidas unitárias de luta, onde cada conflito ou corrente pode erguer a sua própria bandeira. Como diz Cornet, “desde 4 de janeiro temos dado tudo, colocando todas nossas forças nessa luta. Por isso falamos: centrais sindicais, escutem! Precisamos de uma estratégia: uma estratégia para coordenar as diferentes lutas, os diferentes ramos e convocar uma grande greve!”.
  • Aliança popular e operária: Eles sabem que a grande aliança da Total, de Macron e da grande mídia deve ser combatida por outra aliança ainda mais forte. Contra o verso "ecológico" da empresa, eles adicionaram o Greenpeace e Les Amis de la Terre à luta. Como disse um deles, “a ecologia da Total é a dos poderosos. Queremos construir uma ecologia popular junto com trabalhadores que conheçam seus meios de produção”. Os estudantes os apoiaram e pintaram a fachada do prédio corporativo de verde. Os comerciantes dão-lhes comida em suas passeatas.

Terça-feira, dia 9, é um dia chave para negociações. Enquanto isso, eles continuam sendo um exemplo. Como disse Anasse Kazib, ferroviário e também líder do CCR, “quando você levanta a cabeça, dá força a todos os trabalhadores que estão esperando que uma faísca exploda”.

4. Brasil: vacinas para todos

“Sou funcionária há 23 anos, mas eles não me vacinaram, não entrei na lista de prioridades”. Quem fala é uma funcionária do Hospital Universitário de São Paulo, Brasil. Eles receberam 200 vacinas para 2 mil funcionários.

Não são poucos. O critério de vacinação foi discriminatório. Para os terceirizados não houve vacinas. “Nossa vida vale menos”, disse uma faxineira ao Esquerda Diário. A maioria das trabalhadoras terceirizadas é precária, composta por mulheres negras.

Por outro lado, a luta não fez distinção entre trabalhadores. Dentre eles havia brancos, efetivos e vacinados, que aderiram a greve em apoio a seus colegas. Com uma primeira investida, conseguiram 500 doses. Eles continuaram ativos e conseguiram mais 800, enquanto defendem a bandeira que diz: "vacinas para todos". E continuam a lutar.

O Brasil é um dos países mais afetados pela covid-19. O outro vírus é o ajuste econômico. Já são 14 milhões de desempregados e as grandes empresas como Ford, Petrobras, Banco do Brasil, Correios e aplicativos de entrega aproveitam para levar adiante diversos ataques. Por isso, a luta no Hospital da USP é um grande exemplo.

5. Mianmar: da linha de frente contra a pandemia à linha de frente contra o golpe militar

A enfermeira levanta seus três dedos. Imita Katniss, a protagonista de Jogos Vorazes. Na saga, o gesto de despedida acaba se tornando um símbolo de rebelião contra os ricos que vivem protegidos por um exército.

Yangon se tornou o epicentro dos protestos contra o golpe. Na segunda-feira passada, o exército alegou "fraude" nas eleições que foram vencidas com esmagadora maioria pela Liga Nacional para a Democracia. Em nota no Esquerda Diário explicamos quem é quem na crise.

Na quarta-feira, 1.000 profissionais de saúde entraram em greve em 70 hospitais de todo o país. Eles convocaram uma conferência. “Não podemos aceitar a ditadura” , disse o doutor Htet Paing, rodeado de seus companheiros, com uma cara séria e dedos levantados. "Exigimos que todos os detidos sejam libertados."

São eles que enfrentam a batalha contra o COVID-19 em condições difíceis.

Com essa autoridade, apelaram à desobediência civil que está se espalhando pelo país. Os professores paralisaram nesta sexta-feira, assim como alunos, grupos de jovens e trabalhadores do setor público e privado. Nos bairros há panelaços e buzinaços. “Não vamos mais trabalhar com eles no poder. Queremos pôr fim ao golpe militar”, dizem.

***

Como dissemos antes: essas lutas devem ser acompanhadas de perto e apoiadas. O vírus não tem fronteiras. Nem o plano dos capitalistas. Por que a classe trabalhadora deve ter?




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