Mundo Operário

ACIDENTES DE TRABALHO

"Conseguir o protetor é um parto"

quinta-feira 28 de abril de 2016| Edição do dia

Quando o assunto é segurança do trabalho, lembramos daquele mural de dias sem acidentes que a fábrica tem orgulho de mostrar, mas que todos sabem que não condiz com tudo que acontece. Lembramos das inúmeras situações perigosas já vividas, impostas pelo ritmo acelerado do trabalho e a pressão da chefia para "dar produção". Pensamos também naqueles casos "graves"; um amigo que carrega alguma cicatriz, algum conhecido que perdeu parte do dedo ou mesmo alguém que perdeu algum membro. Qualquer trabalhador da industrial tem inúmeras histórias pra contar, da pra dizer que é raro achar alguém que não tenha ao menos uma em que foi "livrado por deus". E infelizmente também não são poucos os que não falam de livramento... que começam a contar as histórias mesmo em silêncio, pela cicatriz.

Mas o que gostaria de relatar aqui é algo que vejo que muitos, principalmente a chefia, a segurança do trabalho e as leis trabalhistas, não dão a mesma importância. No local onde trabalho existem muitas máquinas de grande e médio porte, a maioria muito antigas, com grandes cilindros em rotação, sirenes, motores pesados acelerando e desacelerando a todo momento. Existem muitos casos de acidentes como os que citei no início, mas o inimigo constante que enfrentamos durante toda jornada de trabalho é o barulho ensurdecedor das máquinas.

Vi em notícias que no Brasil não existe muita estatística dos casos de perda auditiva por ruído, mas conversando com o pessoal mais antigo da fábrica sempre descobrimos várias coisas: Na nossa fábrica medição dos ruídos é feita sem os cuidados certos, usam os aparelhos de medição em momentos que as máquinas estão mais lentas, não ficam medindo pelo tempo necessário para pegar os picos do som e muito menos deixam os aparelhos disponíveis para podermos. A chefia diz que chega a 90db mas muitos funcionários dizem que já viram passar de 120db. Mais de 40% dos funcionários já tem perda auditiva grave.

A fabrica fornece a todos protetores auriculares de espuma ou de plug e para os casos "mais graves" fornecem o que protege mais, mas que também é mais caro para a empresa, o de concha.(ou seja, é um parto conseguir. Eu que trabalho em máquina já fui duas vezes no médico da empresa e não conseguir autorização para retirar um).

As empresas sempre lidam da mesma forma quando o assunto é a segurança do trabalhar, só remediam a situação de risco para acobertar sua responsabilidade, evitar processos, indenizações e não investem em melhorias na estrutura. Todos nós que trabalhamos lá sabemos que os protetores nas resolvem totalmente, precisam fazer muito mais do que isso, precisariam trocar as máquinas antigas, o que também evitaria as lesões, os cortes, reformar a estrutura dos galpões para não concentrar tanto o som, trocar material de telhas e etc...

Muitos que conheço já começaram a brigar por essas coisas lá dentro, mas a empresa ainda ignora. Eu só posso dizer uma coisa, vamos ter que continuar!




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