Política

BOLSONARO NA ONU

Bolsonaro diz que cubanos eram "escravos" no Brasil, mas quer o fim dos direitos trabalhistas

Em seu discurso na ONU, Bolsonaro atacou os cubanos que atuaram no SUS através do programa Mais Médicos. Para isso, lançou mão de artifícios como falsificação de dados, mentiras sobre fatos e afirmando que estavam em um regime de "trabalho escravo". Tudo isso enquanto seu próprio governo precariza o trabalho, facilita a exploração do trabalho escravo e se alia com ruralistas.

terça-feira 24 de setembro| Edição do dia

Logo no início de seu discurso às Nações Unidas, Bolsonaro expôs seus delírios sobre como o Brasil, segundo ele, esteve "à beira do socialismo". Narrando as alucinações febris vividas por ele e seus aliados que habitam principalmente nas correntes de WhatsApp impulsionadas por bots durante as eleições, Bolsonaro falou de supostos "agente cubanos" enviados para o Brasil "para colaborar com a implementação de ditaduras" através do programa Mais Médicos.

Em adição à narrativa catatônica - usada por ele para justificar como, com a vinda de seu governo e suas frequentes ameaças e difamações contra os profissionais de saúde que vieram para o país através do programa, a parceria com Cuba teve um fim, deixando dezenas de milhares de brasileiros sem atendimento médico- o presidente ainda colocou em questão a qualificação profissional dos médicos, e mesmo, de maneira totalmente desconexa, acusou os médicos de viverem situação de trabalho escravo.

Depois de expulsar os cubanos do Brasil e deixar centenas de famílias desassistidas, Bolsonaro tentou se justificar afirmando que estava "fazendo o bem" aos cubanos que viviam no Brasil sob regime escravo. Entretanto, um vídeo que circulou na internet antes de sua eleição, Bolsonaro já afirmava que iria acabar com o programa e mandar "cubanos e petistas", para Guantânamo, uma brutal prisão de presos políticos. Confira o vídeo aqui.

Bolsonaro acusou os médicos de não terem "nenhuma qualificação profissional". Além disso, segundo ele, eles "cônjuges e filhos" e "tiveram 75% de seus salários confiscados". Isso tudo, obviamente, é mentira.

Os médicos tinham treinamento comprovado e apesar de Bolsonaro ter ativamente tentado impedir familiares de médicos vindos através do programa Mais Médicos do direito de obterem emprego no Brasil, nenhuma lei ou regulamento proibia os médicos de trazerem suas famílias. Suas afirmações sobre uma suposta retenção dos salários também é mentira. Somado isso a completa inverdade de uma suposta privação de "direitos fundamentais, como o de ir e vir", fica bem claro que Bolsonaro não fez senão mentir abertamente sobre fatos óbvios e bem conhecidos.

A demagogia que o ultradireitista faz, fingindo-se compadecer com suposto trabalho escravo dos profissionais de saúde, contrasta, entretanto, com a atitude leniente do seu governo com relação ao problema muito real de trabalho escravo vivido no Brasil.

No Brasil, a escravidão é um problema profundo e estrutural. Entre 1995 e 2018, foram realizados mais de 50 mil resgates de trabalhadores escravos. Bolsonaro, mesmo frente a dados explícitos, publicados por seu próprio ministério da economia, nega que haja trabalho escravo no país.

Para além disso, o mesmo presidente que se diz favorável à exploração de trabalho infantile também recentemente atacou uma ementa constituicional que punia o uso de trabalho escravo, posicionando-se firmemente em defesa dos grandes empresários e latifundiários que apoiam seu governo. Segundo o Ministério Público do Trabalho, dos trabalhadores resgatados de situações de escravidão, 51% atuava em atividades agropecuárias, a segunda maior porcentagem é na construção civil.

Além da carta branca do governo à exploração mais escancarada de pessoas em situação de cativeiro, Bolsonaro, seguindo a trilha de Temer, avança a passos largos para destruir os direitos dos trabalhadores, e facilitar sua submissão a condições muito similares às quais ele acusa os cubanos de viverem.

No Brasil de Bolsonaro, a MP da liberdade econômica vem para aprofundar a reforma trabalhista de Temer, extendendo ainda mais a exploração e a perda de direitos. Pela lei, do mesmo governo que extinguiu o ministério do Trabalho, o empregado fica autorizado, por exemplo, a forçar seu funcionário a trabalhar domingos e feriados. A reforma da previdência avança a passos largos pelo congresso para forçar os mais pobres a trabalhar até morrer - inclusive fixando a idade mínima de aposentadoria acima do que é a expectativa de vida em certas partes do Brasil - e forçará mesmo aqueles que conseguem se aposentar a amargar uma aposentadoria de miséria.

Para além disso tudo, o presidente que finge tamanha preocupação com os “escravos cubanos” que habitam a terra de fantasia de sua mente é o mesmo que afirmou que "os trabalhadores terão que escolher entre direitos ou empregos", quando anunciava seu plano de uma carteira de trabalho verde e amarela, que vem junto com os contratos de gaveta e as jornada intermitentes e pagas abaixo do salário mínimo legalizadas pela reforma trabalhista de Temer para precarizar completamente o emprego e a vida dos trabalhadores brasileiros, especialmente os jovens.

Não se pode esquecer, frente à fala de Bolsonaro sobre “trabalho escravo” do caso de Tiago Dias, o trabalhador de apenas 33 anos que trabalhava “turnos” de até 12 horas diárias fazendo entregas no aplicativo Rappi, e morreu de um AVC durante o trabalho por escesso de
esforço
. A empresa se recusou a prestar socorro. Seu caso se soma à crescente estatística de trabalhadores ultra precarizados que são hiper explorados por empresas de serviços, principalmente via aplicativo, até perderem suas vidas no trabalho.

Leia mais: Quem são os jovens que têm suas vidas arrancadas pelos lucros da Rappi, Glovo, IFood e Uber?

Essa é a realidade do trabalho super explorado, das condições degradantes, das mortes prematuras e preveníveis que Bolsonaro, servo obediente dos grandes empresários que lucram com as vidas humanas perdidas e tratadas como descartáveis, que Bolsonaro ignora quando, diante de todo o mundo, regurgita fake news de WhatsApp em uma suposta luta contra o “socialismo”.




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