Economia

CRISE NO BRASIL

A agenda patronal: Mais ajustes e menos impeachment

Flávia Ferreira

Campinas @FFerreiraFlavia

domingo 22 de março de 2015| Edição do dia

O editorial do jornal econômico Valor (o diário dos empresários e banqueiros) desta sexta-feira deu o tom da principal preocupação da burguesia frente ao atual momento político do país, principalmente após os atos do dia 15 de março (veja maisaqui) e da pesquisa Datafolha que aponta grande rejeição da população ao PT e demais partidos igualmente mergulhados em escândalos de corrupção e medidas impopulares como os cortes nos serviços públicos. Esta preocupação é “necessidade urgente” da aprovação dos ajustes de Levy no Congresso. Para os capitalistas o ajuste é a principal bandeira a ser agitada no momento e não o impeachment de Dilma ou algo parecido. Igualmente, mídias internacionais como o jornal The Economist, também levantam a necessidade da aprovação rápida dos ajustes com o risco de que o Brasil perca investimentos dos capitalistas internacionais.

Crise é “oportunidade”, para quem?

A Coca-Cola Brasil anunciou esta semana um investimento de R$ 2,7 bilhões de reais para sua produção no país para atender ao consumo nacional. A empresa é uma das maiores engarrafadoras do mundo e não só produz refrigerantes, mas também sucos, chás e água engarrafada. A alegação dos empresários é de que a Coca-Cola vê a crise no Brasil como uma “grande oportunidade”, já que outras empresas vão deixar de investir com o baixo crescimento e as incertezas políticas.

Também para a PPG Brasil (grande monopólio mundial de produção de resinas industriais) que inaugurou ontem, com a presença de Alckmin, em Sumaré (Região metropolitana de Campinas) sua nova planta, a mais moderna do mundo na fabricação de resinas.

O que isto significa para os trabalhadores? Esta é uma estratégia clássica dos grandes monopólios nos momentos de crise, estes aproveitam as falências e crises em empresas menores para poderem crescer ainda mais. Como também aproveitam o aumento do desemprego (e o aumento na “oferta de trabalhadores”) para aumentarem a rotatividade dos trabalhadores e reduzirem salários. Ou seja, a crise é a “oportunidade” dos grandes empresários para lucrarem mais e ganharem mais mercados consumidores. Além disso, a crise é o momento dos empresários chantagearem mais ainda aos governos (estudais, federal e municipal) para barganharem mais incentivos fiscais (muitas grandes plantas de fábricas não pagam impostos).

Porém os trabalhadores não podem se enganar com o otimismo dos grandes capitalistas, estes investimentos custam para os trabalhadores. A burguesia não é “boazinha” em “confiar” no Brasil (como disse o chefe da PPG) num momento como o que vivemos hoje, de desaceleração. O que os empresários buscam é o lucro e a garantia de uma maior exploração da mão-de-obra.

Para isto, os capitalistas “confiam” mesmo é nos governos como o de Dilma (PT) e de Alckmin (PSDB) e, é claro, na atuação das burocracias sindicais (pró-patronais e pelegas) – como a Força Sindical, a UGT e NCST, além da CUT (cuja prática tem sido defender o governo Dilma buscando a conciliação entre “capital e trabalho” ao lado da CNI de Skaf) para conter e trair as lutas dos trabalhadores – de que no Brasil serão garantidas suas condições de lucros e a venda de seus produtos. Isto tudo com redução nos salários e encargos trabalhistas, aumento na terceirização e a chamada “flexibilização” dos direitos dos trabalhadores, o resultado: aumento na precarização do trabalho e da vida dos trabalhadores e nos acidentes de trabalho.

Junto a isso, os empresários confiam que a partir deste momento de “fim de ciclo” de crescimento na economia do País, será garantido “como nunca antes neste país”, o livre comércio com grandes consumidores como os EUA e Alemanha e que seus lucros possam sair do Brasil a qualquer momento e sem qualquer taxação. E os governos, cujos políticos são todos financiados por empresários e latifundiários, não tem qualquer pudor em aplicar estas reformas em nome do “crescimento” econômico.

Diante desta estratégia dos empresários, a estratégia dos trabalhadores só pode ser uma luta independente dos governos e dos patrões, em enfrentamento com as burocracias sindicais. Para que não sejam os trabalhadores que paguemos pela crise que os empresários geraram em nome de sua sede de lucros.

Demissões: o ajuste na indústria

Enquanto alguns grandes monopólios apostam na crise mundial e no Brasil como uma “oportunidade” inédita desde 2009, outros monopólios estão “sentindo mais o baque” da crise e já falam em demissões. Mas, nem sempre este “baque” significa redução dos lucros absoluta, o que ocorre muitas vezes é uma redução dos ganhos e lucros relativa a custos (como as taxas de juros) que estão crescendo no Brasil ou com relação às vendas cuja queda constante gera prejuízos com o acúmulo de estoques.

Desde o último ano, com quedas nas vendas, grandes multinacionais como GM, Volkswagen e Mercedes Benz anunciaram lay-offs e PDVs (demissões disfarçadas) e diretamente demissões de centenas de trabalhadores, como no começo deste ano. Porém, tanto na GM quanto na Volks, os trabalhadores em sua luta com greves e atos de rua, impediram as demissões, isto porque, ainda os capitalistas apostam que ainda tem margem para barganhar mais benefícios e ataques aos direitos trabalhistas com o governo Dilma-Levy.

Mas saindo do eixo de SP, a Vallourec & Mannesmann Tubes (V & M Tubes), empresa formada pela joint venture entre a francesa Vallourec e a alemã Mannesmann e que produz tubos de aço já anunciou, diante das perdas de ganhos com a redução nos preços do petróleo e nas vendas para a Petrobrás (com os planos de “desinvestimento” – ou privatização disfarçada – que saíram em reposta a crise da estatal a partir do escândalo da Lava-Jato). O anúncio da empresa é a redução nas horas de trabalho em 15% e a redução de 7% na força de trabalho mundial da empresa, esta é a principal forma de ajuste para aumentar a competitividade (produzir com custos mais baratos) da empresa e buscar aumentar as vendas. Sabemos que se este tipo de ajuste não der resultado, o próximo passo pode ser o fechamento de plantas e a transferência para outros países com salários mais baratos.

A indústria tem apresentado, desde o ano passado, uma combinação crítica de redução na produção junto à redução no emprego. Esta realidade já é sentida pelos trabalhadores no chão de fábrica que sabem como este ano será mais difícil. Isto é a indicação, junto a queda no emprego da construção civil, mais estrutural da desaceleração que vive a economia brasileira, neste “fim de ciclo” de crescimento, dos governos do PT, gerado pela alta nos preços dos produtos agrícolas e minerais (commodities).

Os números de queda no emprego industrial estão generalizados para 17 dos 18 setores industrias presentes no país, segundo IBGE. A queda em relação a janeiro de 2014 é de 4,1%, isto se reflete na dificuldade de se encontrar emprego na indústria em geral, e não somente aquelas ligadas ao setor automotivo. Janeiro de 2015 em relação ao mesmo período de 2014 foi ruim para o emprego principalmente para as indústrias de: celulares (–11,3%), meios de transporte (–7,7%), produtos de metal (–7,7%), máquinas e equipamentos (–4,5%), calçados e couro (–6,8%), alimentos e bebidas (–1,3%), vestuário (–3,9%), metalurgia básica (–6,3%) e papel e gráfica (–3,3%).

Preparar nas bases um plano de lutas contra os ajustes!

Para enfrentar os ajustes da patronal junto aos governos, é fundamental que os trabalhadores construam em suas bases, em cada local de trabalho, um plano de lutas contra os ajustes neoliberais, com assembleias, greves, atos e paralisações, em defesa do direito ao emprego e à valorização dos salários contra o aumento no custo de vida (com os tarifaços e o aumento na cesta básica). É preciso que os trabalhadores estejam organizados e munidos de um programa político antigovernista e antiburocrático para lutarem de forma coordenada contra os ataques dos patrões e dos governos que tendem a se agravar. Para isto, é preciso levantar uma alternativa política dos trabalhadores e do povo pobre que esteja apoiada em retomar os instrumentos de luta da classe trabalhadora – os sindicatos – para que estejam a serviço da defesa dos direitos dos trabalhadores e do conjunto da população: esta é a maior ameaça aos ajustes que os empresários podem ter.




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