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30 trabalhadores foram encontrados em situação análoga à de escravidão no interior do Pará

Em recente operação de fiscalização realizada pelo Ministério do Trabalho através de um grupo móvel, que contou também com a participação do Ministério Publico do Trabalho e da Defensoria Pública da União, trinta trabalhadores foram resgatados após serem mantidos em situação de trabalho análoga a de escravo no interior do Pará.

segunda-feira 18 de junho| Edição do dia

Os trabalhadores faziam o transporte de gado de corte a pé pelas margens da Rodovia Transamazônica (BR-230) e tinham como destino a cidade de Xinguara onde entregariam as cerca de 3,5 mil cabeças de gado na Fazenda Porangaí. Os trabalhadores começaram seu percurso na cidade de Uruará a cerca de 930 quilômetros de seu destino, a expectativa era que o percurso fosse realizado em cerca de 120 dias.

Organizados em três comitivas os trabalhadores faziam o percurso a pé com as condições mais precárias possíveis. Apesar de contarem com montaria de apoio na maior parte do percurso estavam a pé pois o gado andava muito lentamente parando para se alimentar ou beber água. Para dormir os trabalhadores eram obrigados a encontrar abrigos pelo caminho, armavam barracas de lona, montavam redes ou dormiam sobre o chão batido em espumas que eram também usadas nas montarias.

Os trabalhadores eram obrigados a consumir água de propriedades por onde passavam ou de cursos naturais que achavam pelo caminho, diga se de passagem a mesma água que era utilizada para o gado. Sem acesso a banheiros recorriam aos mesmos cursos de água para tomar banho e à mata para fazer suas necessidades fisiológicas. Quanto a alimentação portavam utensílios para preparar as refeições como panelas e fogareiros mas não havia nenhuma forma de armazenamento para conservação de alimentos.

A jornada de trabalho geralmente começava as 7h e seguia até 11h30 quando paravam para almoçar. As 13h30 retomavam e seguiam até as 18h, quando encontravam algum lugar para o gado descansar. Passavam a noite inteira se revezando em vigília para cuidar do gado e não tinham descanso semanal.

Além disso, para o gado contavam com apoio de um veterinário caso o gado precisasse, mas para os trabalhadores não havia o mesmo tratamento, eram tratados na prática pior que os bois.

Imagem: divulgação MTb

O pagamento seria efetuado aos trabalhadores apenas quando terminassem o percurso e os valores variavam de R$ 45 a R$ 60 por dia dependendo da função de cada um nas comitivas. Mas o valor final ainda teria descontos, como dos equipamentos de proteção individual e das passagens dos trabalhadores que necessitaram de ônibus para chegar a cidade de Uruará de onde partiram. Nenhum dos trabalhadores possuíam Carteira de Trabalho assinada.

Apesar de chocante a prática do transporte de gado a pé não é proibida no Brasil, e muitos fazendeiros utilizam essa prática pois é muito mais barato que pagar o transporte do gado por caminhão. O mesmo percurso efetuado por caminhão custaria em torno de R$ 1,5 milhão além dos gastos com pastagem, segundo cálculo informado pelo próprio auditor fiscal do trabalho coordenador da operação.

O Ministério Público do Trabalho ajuizou uma ação civil publica pedindo indenizações que chegam perto da quantia de R$ 7 milhões após o proprietário do gado ter se recusado a pagar os direitos dos trabalhadores.

Esta situação apenas evidencia a realidade vivida por milhares de trabalhadores do campo no país e como o lucro dos grandes pecuaristas do Brasil é extraído da carne dos trabalhadores submetidos às condições de trabalho mais precárias e degradantes, sem condições básicas de higiene, alimentação, descanso, água potável ou sequer socorro médico, que no entanto para o gado foi garantido...




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