Gênero e sexualidade

RELATO

2 de setembro de 2017, ruptura com cerca de 18 anos de silenciamento

Silenciamento. Não silêncio. Quando o não dizer lhe é imposto. Mesmo que essa imposição seja mais ou menos evidente.

quinta-feira 14 de setembro| Edição do dia

Sempre falei da minha infância de uma forma muito feliz. Lembrava como a vida era boa no interior, as amizades, andar e brincar na rua com muita autonomia, o clube, nadar nas piscinas, jogar vôlei, ficar dando voltinhas passando pela quadra de tênis... Sempre amei a escola, era uma das melhores da turma, queridinha dos professores. Gostava de TODAS as disciplinas. Era amiga das inspetoras. Me orgulhava de, no colegial, ser uma ótima aluna e baladeira, ao mesmo tempo!! As lembranças da minha infância sempre foram muito doces... Como eu gostava do sítio! Das árvores, da amoreira que eu subia sem parar, de encontrar os primos e toda a família... daqueles churrascos, das férias, todo mundo reunido. Mesmo depois de afastamentos familiares, os Natais e Anos Novos em que quase todo mundo se encontrava nem que fosse por uma noite... Não sei muito bem o que meus parentes sabem disso tudo, costumava (e ainda costumo) ser muito fechada, não falar muito das coisas com as pessoas da família, ouso dizer que não falo quase nada... Mas gostaria que essas pessoas, dos irmãos aos primos mais próximos, dos primos não tão próximos aos familiares mais distantes, que todos soubessem que apesar de falar muito pouco ou quase nada, pra mim, os laços ainda são muito fortes, sempre me orgulho da minha família e o meu gostar é mesmo muito grande.

Nas minhas falas sobre a infância sempre me vangloriei da minha relação com meus pais. Costumava dizer, pra quem quisesse ouvir, que minha mãe era uma das minhas melhores amigas, eu contava tudo pra ela, nunca escondi namorado, aliás, eu contava tudo até antes de saber o significado das coisas... Me gabei muito por meu pai me acompanhar em barzinhos na adolescência. Muitos amigos escondiam que bebiam dos pais, já eu ia com meu pai pra balada. Com minha mãe também. Meus piores porres foram com meus pais por perto (não que eles tenham gostado disso, lembro de terem ficado desapontados, ou pelo menos, muito tristes...).

Mudei pra São Paulo em 2007, quando entrei na faculdade. Chorava muito porque não tomava mais café da tarde com minha mãe - coisa que fiz todos os dias até os dezoito anos de idade. Lembro quando viajei pra Recife por cerca de dez dias, em 2009, aos meus 20 anos de idade: senti tanta saudade da minha mãe que fiquei doente (pode ter sido uma infecção alimentar, rs, mas tudo que eu pensava é que queria colinho da mamãe até poder ficar em pé novamente).

Nunca antes tinha morado com meu pai (que eu pudesse me lembrar, pois meus pais se separaram quando eu tinha uns 2 anos) e já o achava o melhor pai do mundo. As férias em São Paulo e em Picinguaba eram grandes lembranças, assim como os fins de semana em Araçatuba (cidade vizinha de onde morava quando era pequena) com idas ao Mc Donald’s, ao shopping e ao boliche (com exceção do último, posso dizer que os dois primeiros passeios nunca fizeram meu tipo da adolescência até hoje em dia, mas com certeza, foram sucesso na infância).

Nos últimos anos alguma coisa aconteceu que tudo ficou mais difícil. Com um e, depois, dois filhos pra criar a vida se tornou deveras complexa para caber mesmo as relações familiares mais próximas. Encontrar pai e mãe era coisa quase impossível. Mas eu moro em São Paulo e, aqui, a vida caótica justifica de tudo um pouco...

Acontece que a razão de algumas coisas terem acontecido (ou deixarem de acontecer) não reside no caos de viver numa metrópole ou de ser mãe de duas crianças. Foi o encontro de muitas e muitas coisas. Uma delas trato nesse escrito hoje: anos de silenciamento.

Certo dia, numa sessão de terapia, aos meus dezessete anos, lembrei de algo que até então parecia que eu não sabia: uma cena de um abuso sexual que sofri na infância. Não contei pra ninguém dessa lembrança, nem pra terapeuta. Continuei meu processo terapêutico, minha principal questão na época tinha relação com não conseguir falar as coisas, expor sentimentos, sobretudo os ruins. Havia começado a terapia por ter tido um episódio de crise de pânico, minha garganta parecia se fechar e eu sentia que não conseguia respirar. Esse episódio aconteceu algumas vezes ainda naquele ano.

Daquele processo terapêutico levei minha questão com o falar e fui cuidando dos sintomas que evidenciavam em meu corpo o que hoje percebo ter sido um silenciamento profundo.

Quando me tornei mãe pela primeira vez, com o nascimento do primeiro filho, me lembrei do abuso pela segunda vez. Sabemos como o processo da maternidade, da gestação, sobretudo, do parto e do puerpério se configuram como um poço de potencialidades, intensidades... E a ferida, que em algum momento pareceu nunca ter existido, se abriu mais uma vez. Nesse segundo momento eu já sabia que tinha sofrido o abuso, mas eu havia esquecido novamente e, em meio ao processo do puerpério, me lembrei novamente. Ainda não havia contado e naquele momento também não contei pra ninguém. Mas também nunca mais me esqueci...

Grávida de minha segunda filha, comecei um outro processo terapêutico. Consegui contar do abuso para minha psicóloga em algum momento entre a gravidez e o primeiro ano de vida dela, não sei exatamente em qual momento. ASSIM, PELA PRIMEIRA VEZ EM 15 ANOS, AOS CERCA DE 25 ANOS, ROMPI COM PARTE DESSE PROFUNDO SILENCIAMENTO.

Desde que me lembrei pela segunda vez do abuso sexual que sofri na infância (e que nunca mais esqueci) algumas relações foram se tornando mais difíceis de lidar. Percebi afastamentos, ora maiores ora menores, com minha mãe e com meu pai. Tentei revertê-los, ora com mais ora com menos êxito. Em algum momento, que não sei precisar, percebi que meu afastamento tinha relação com aquela história do abuso: eu era apenas uma criança, eu precisava de cuidados, porque os adultos ao redor não cuidaram de mim? Como minha mãe não havia percebido o que tinha acontecido? Porque meu pai não estava perto o suficiente pra poder perceber também? Porque não tinha ninguém ali pra perceber? Porque não teve ninguém ali pra me ajudar a lidar com aquilo? Pra descobrir o que tinha acontecido? Pra me apoiar, validar meus sentimentos, me dar suporte para seguir em frente e superar tudo aquilo?

Num primeiro momento não passava pela minha cabeça contar pra qualquer pessoa sobre o abuso. Só havia contado pra minha psicóloga porque algo não estava me deixando respirar e eu precisava respirar e aquilo, entalado na minha garganta, me sufocava.

Mas como eu podia contar pra mais alguém? Eu sentia muita vergonha do que tinha acontecido. O que as pessoas da família iam pensar? Será que iam me perguntar alguma coisa? Será que eu viraria fofoca nos assuntos familiares? Era vergonhoso demais...

Eu bem que poderia contar pra minha mãe e pedir pra ela não contar pra ninguém. Mas mesmo que ela não contasse pra ninguém, como eu podia contar aquilo pra ela? Eu sabia que ela ia se sentir responsável, e não era culpa dela, e eu não queria magoá-la.

O tempo foi passando e percebi que eu também sentia raiva. Sentia raiva de ter sofrido um abuso. Sentia raiva dos meus pais por não terem sido bons o suficiente pra me proteger. Raiva por não terem percebido. Raiva por não terem me ajudado com tudo que veio depois. Raiva por não terem arrancado de mim a verdade... me relegando ao silenciamento.

É verdade que não era culpa deles. Era culpa do abusador. E também é verdade que, mesmo sofrendo e mesmo silenciada, na época do abuso, quando criança, eu soube me proteger da situação e "não me colocar novamente na situação de risco". O fato de ter conseguido evitar o risco, no entanto, tem menos a ver com meus méritos de fuga do que com o contexto que fez com que o abusador tivesse menos possibilidade de continuar abusando DE MIM (embora, hoje, me pareça evidente que outras crianças não tiveram a mesma sorte que eu).

Um processo duro, intenso, com altos e muitos e muitos baixos com os quais, ainda hoje, estou tentando lidar.

Casos de violência, assédio, estupro, só de ouvir falar, reverberam de forma peculiar em meu próprio corpo. Quando se tornam assunto recorrente, na vida real ou no Facebook, me desestabilizam... A cada desestabilizada, muito sofrimento; a cada sofrimento profundo, um caminhar em minha história e em meu próprio processo...

Hoje, cerca de 18 anos após ter sofrido um abuso sexual na infância, aquela mesma infância alegre e mágica que eu sempre me lembrei, aquela mesma infância na qual minha mãe e meu pai eram quase tudo pra mim, eu rompi com parte importante desse silenciamento.

Minha relação com minha mãe não vinha sendo fácil. Muitos desentendimentos. Queria estar perto, mas não conseguia. Sentia raiva mas não queria sentir. Sentia falta, mas não conseguia suprir... Em certo momento entendi que não, pra mim não era mais suficiente tentar resolver essa questão internamente - eu comigo mesma. Eu precisava dizer. Dizer praquela que eu sempre amei, praquela que eu confiava, praquela que por muitos e muitos anos havia sido minha melhor amiga, mas com quem estava quase insuportável se relacionar...

Hoje, 18 anos depois, eu CONSEGUI contar do abuso sexual que sofri na infância pra minha mãe.

Contei pela primeira vez para meu ex, na época marido, há dois anos. E recentemente para o atual companheiro. Pessoas que fizeram parte desse processo de ruptura e que estiveram do meu lado me ajudado a me sustentar em momentos muito dolorosos. Mas ainda me sentia sufocada, silenciada, com um segredo que precisava ser escondido do resto do mundo...

FORAM 18 ANOS DE SILENCIAMENTO.

Consegui contar pra minha mãe e talvez esteja pronta pra contar para o mundo. Porque agora nada mais pode me deter, agora eu tenho voz e posso ser ouvida e mais ninguém irá me calar.

Não sei se todas as mulheres precisam contar suas histórias. Não acho que tenhamos que falar abertamente, denunciar ou garantir uma aparente justiça. Acho que cada uma de nós precisa encontrar, em seus tempos, aquilo que as faz romper com seu silenciamento. O silenciamento que impera em nossos corpos e parece nos paralisar ou nos sufocar.

Não sei ao certo a razão desse escrito. Ainda não sei o que farei com ele. Mas sei que talvez minha história, por mais que possa trazer a tona dores e sofrimentos (como as outras histórias ainda fazem comigo) ajude uma outra mulher a romper seu próprio silenciamento, a caminhar em seu processo de luta (e não de luto), porque enquanto estivermos vivas, por pior que seja a violência que tenhamos sofrido, temos umas às outras e seguimos resistindo!

35% das mulheres, em todo o mundo, já sofreram algum tipo de violência física e/ou sexual (dados OMS)

50% das mulheres vítimas de homicídio (feminicídio), no mundo, foram mortas pelo parceiro ou por algum familiar (dados ONU)

O Brasil é o 5° país do mundo com o maior número de assassinato de mulheres. A estimativa era de 13 feminicídios por dia no ano de 2013 (dados Mapa da Violência)

BRASIL

O homicídio de mulheres negras aumentou 54% em 10 anos (de 2003 a 2013). No mesmo período o homicídio de mulheres brancas caiu 10%.

89% das vítimas de violência sexual são mulheres.
70% das vítimas de violência sexual são crianças e adolescentes.
70% dos casos de estupro são realizados por parentes, namorados, amigos ou conhecidos da vítima.
(Dados IPEA)

Ocorrem 5 espancamentos contra as mulheres a cada 2 minutos (dados Perseu Abramo)
Ocorre 1 estupro contra as mulheres a cada 11 minutos (Anuário da Segurança Pública)
Ocorre 1 feminicídio a cada 90 minutos (dados IPEA)

#hoje eu não me calo mais
# chega de violência contra a mulher
# mulheres, cada uma de vocês é muito forte, juntas, somos ainda mais!




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