Gênero e sexualidade

Questão da Mulher

A Questão da mulher nas fábricas - trabalhadores industriais debatem o machismo e a força das mulheres

Nesse domingo (03/09/17), os núcleos de varias cidades e estados do trabalho industrial do MRT realizaram um curso com a presença de Diana Assunção e Maira Machado, sobre a questão da mulher voltado para trabalhadores e trabalhadoras de fábrica. Veja um pouco dos importantes debates que surgiram sobre esse tema:

terça-feira 5 de setembro| Edição do dia

Não é de hoje que temos visto como as questões democráticas, em especial a questão das mulheres, tem tido uma expressão muito mais forte nas lutas dos movimentos sociais e da esquerda mundialmente. A própria mídia burguesa tem tido que abrir espaço para casos de abuso, machismo e homofobia para não ficar por fora do avanço de consciência de massas que houve nesse tema e inclusive tem disputado essa pauta dando respostas a seu modo, incluindo seus valores de classe e cooptando os movimentos.

Nas fábricas a questão da mulher tem aparecido com mais força também. No entanto pelo caráter de controle muito mais potente da mão de obra, o peso do machismo, homofobia e inclusive racismo ainda é muito grande. Há uma verdadeira ditadura fabril montada pela patronal dentro e fora da fábrica que além tentar impedir atuação sindical dos trabalhadores impacta em vários aspectos da vida. As patronais contam com o auxílio da maioria das igrejas evangélicas que bombardeiam os trabalhadores com a justificação do patriarcado, a opressão e inúmeros preconceitos. Mas também contam com o importante papel do Estado em não garantir acesso à educação de qualidade que eleve o nível cultural dos trabalhadores. Isso afeta a consciência deles de forma profunda mantendo uma barreira que tenta evitar que até essa nova efervescência dos temas democráticos chegue nas suas vidas.

Pensando em como avançar para encarar de frente esse desafio planejamos um curso que pudesse dar base para que os trabalhadoras e trabalhadores fabris possam ter ferramentas tanto teóricas quanto táticas para enfrentar essa barreira e avançar a consciência de seus companheiros de trabalho tanto para superarem o machismo que reproduzem, quanto para entender os mecanismos que o capitalismo desenvolveu para usar a opressão de gênero para dividir e enfraquecer a classe operária.

Na abertura Diana foi destacando primeiro conceitos fundamentais da discussão como a diferença entre a exploração, que é fruto de uma relação entre classes, e a opressão como relação de submissão de um grupo social sobre outro por razões culturais, raciais e sexuais. E a partir disso como o capitalismo utiliza da opressão às mulheres para, por exemplo, rebaixar os salários e tornar a mulher dependente financeiramente em relação aos homens. Entrou na caracterização das mulheres como um grupo policlassista, o que leva a que a opressão perpasse as mulheres de todas as classes econômicas como podemos verificar no triste direito ao aborto que é negado a todas as mulheres no Brasil, mas que ao mesmo tempo existem mulheres que estão em outra trincheira no aspecto de classe e por serem burguesas também exploram e oprimem milhares de trabalhadoras. Ou seja, se o gênero nos une a classe nos divide. Diana entrou também na questão da dupla jornada de trabalho que isenta os patrões e o estado de se responsabilizarem pelas tarefas domésticas que são tratadas como se fossem deveres naturais das mulheres e são parte de um trabalho socialmente necessário fundamental para a reprodução social da força de trabalho. Portanto, para além de cada trabalhador homem entender que precisa dividir as tarefas domésticas com suas companheiras é necessário que o capitalismo deixe de colocar esse trabalho nas costas das mulheres e arque com o custo desse trabalho o transferindo para a esfera social garantindo por exemplo lavanderias e restaurantes públicas.

Depois, desenvolveu também a questão do machismo no movimento operário e os desafios que estão colocados para os revolucionários atuarem nesse terreno, pois nossa estratégia não é de lutar contra os homens. Entendemos que a única maneira de acabar com o machismo é pondo fim no capitalismo e isso só pode se dar com a classe operária tomando os meios de produção da classe dominante. Por isso a importância de ir avançando com cada companheira e companheiro pacientemente nos locais de trabalho.

Muitos companheiros e companheiras interviram passando por exemplos de como se expressa o machismo em seus locais de trabalho. Em um nível está a reprodução do machismo entre os próprios trabalhadores, através de piadas, ou na própria relação com suas companheiras. Mas também discutiu-se como as patronais impõem que através da organização da produção as mulheres acabem recebendo salários mais baixos e ocupem postos onde o trabalho é mais manual, repetitivo, alienante e muitas vezes inclusive mais intensos do que os homens. Enquanto a maioria de operadores de máquinas são homens a maioria das mulheres estão nas "saídas de máquina" ou diretamente ficam concentradas em setores separados como empacotamento e embalagem. Dessa forma vemos que além de diferenças salariais existe também uma divisão entre trabalhos que possuem maior grau intelectual, para os homens e trabalhos mais manuais e de "menor relevância no processo produtivo" para as mulheres.

Ao mesmo tempo houveram intervenções colocando como nas fábricas também é bastante evidente que as mulheres tendem a se colocar mais na linha de frente de pequenos conflitos cotidianos, são mais críticas a patronal e aos anúncios de ataques. Isso mostra a importância que essas companheiras podem ter no desenvolvimento de um processo de luta fabril assim como muitos processos da luta de classes já nos mostraram. O processo da Revolução Russa, que está completando 100 anos, começou com o levantamento de operárias têxteis em fevereiro, o histórico do dia 8 de março começa com uma greve de operárias têxteis nos Estados Unidos e recentemente as Leoas da PEPSICO deram lições impressionantes de como atuar dentro de uma fábrica, combatendo o machismo patronal mas também fazendo avançar a consciência de seus companheiros, o que possibilitou lutarem lado a lado, conquistando inclusive a equiparação salarial entre homens e mulheres e resistindo bravamente ao fechamento da planta na Argentina.




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