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Aflições “kautskyanas”

Diana Assunção

André Barbieri

Aflições “kautskyanas”

Diana Assunção

André Barbieri

A propósito do texto “Aflições revolucionárias” de Valério Arcary publicado em 18 de fevereiro deste ano no blog Esquerda Online e em sites de outros países. Fazemos algumas considerações sobre as palavras deste autor que, vez ou outra, se baseando em Lenin e Trótski nos apresenta apenas um piorado Kautsky o que nos permite um paralelo também com a política conciliadora de Bhaskar Sunkara, a ala direita do DSA norte-americano.

Uma "teoria" para justificar a participação na campanha Lula-Alckmin

2016 no Brasil foi um divisor de águas para a esquerda. A Operação Lava-Jato impulsionada por setores do imperialismo norte-americano e alentada por distintas instituições como o Supremo Tribunal Federal e forças políticas como o agronegócio, as forças armadas, o judiciário e a bancada evangélica deu lugar ao impeachment de Dilma Rousseff se constituindo claramente como um golpe institucional, que, anos depois pavimentou o caminho para a extrema-direita brasileira na figura odiosa de Jair Bolsonaro. Um setor da esquerda se alinhou de forma mais ou menos aberta com as forças golpistas em curso caracterizando que se tratava de uma ruptura de massas com o governo do PT enquanto outros setores se entregaram à impotente política do PT de não resistir ao golpe institucional. Valério Arcary e parte dos militantes que hoje constroem o grupo Resistência neste momento estavam dentro do PSTU, que ficou conhecido pela bandeira “Fora todos” se misturando com a bandeira da direita por “Fora Dilma”. Valério e centenas de militantes romperam com o PSTU para ao longo dos anos seguintes se abrigar na política petista rumo a “Lula 2022”.

Suas elaborações políticas e teóricas para bom entendedor tem apenas um objetivo: cobrir pela esquerda a participação na campanha de Lula. Isto se repete em nota recente, com vários argumentos a fim de defender uma frente do PSOL com o PT e integrá-lo numa campanha Lula-Alckmin. Isso no marco da aprovação da Federação partidária com o PSOL pelo partido burguês e golpista da Rede, de Marina Silva. Trata-se de uma lógica política que considera necessário adotar uma linha de conciliação de classes a fim de “derrotar a extrema direita”, algo que unifica uma larga camada do anti-bolsonarismo no Brasil com o anti-trumpismo nos EUA.

Os anos de bolsonarismo onde vimos um forte avanço do plano de ajustes contra os trabalhadores e a população pobre (contra-reformas da previdência e trabalhista, lei do teto de gastos, lei da terceirização irrestrita, privatizações, entre outros) tornou mais claro essa propensão de Arcary em se separar da política equivocada do PSTU naquele momento para cometer seu erro simétrico oposto. Para tal, as definições de “neo-fascismo” aparecem vez ou outra na sua teorização com o propósito de sempre introduzir o debate sobre a “correlação de forças”. Este seria o pêndulo fundamental permissivo a uma tática tão flexível e já despida de intransigência ideológica que se prepara para, em nome do “marxismo”, fazer campanha, também, para o direitista, repressor e ajustador Geraldo Alckmin, mais provável nome para vice de Lula. De novo, sob o manto da correlação de forças ou da culpa das massas que, como diz Valério, não despertaram contra o impeachment, se encobre a traição das grandes centrais sindicais que desorganizam a classe trabalhadora brasileira impedindo sua resistência contra os ataques e canalizam o descontentamento social com a fome, o desemprego e a precarização para uma saída institucional e eleitoral. Assim, o grupo de Valério Arcary tranquiliza as burocracias sindicais abrindo mão de qualquer batalha pela frente única operária, já que, não há correlação de forças. A culpabilização das massas, e a veneração pela “correlação de forças” são atributos de outras forças políticas neorreformistas que ganharam peso nos últimos anos como o Syriza na Grécia e o Podemos no Estado Espanhol. O objetivo sempre é argumentar em favor da política oportunista de sustentar com ares de esquerda uma opção institucional de estabilização do regime.

Relação de forças: problema metafísico ou estratégico?

Toda política revolucionária parte da compreensão da realidade e de suas distintas situações para agir no sentido de transformá-la. Isso é diferente da veneração de Arcary pela “relação de forças” enquanto entidade mística separada da luta de classes. Não estamos diante de um “cuidado inteligente” com a política ou da análise precisa das situações para pensar as táticas mais adequadas, e sim da defesa de um programa alheio que já está colocado por um dos atores mais importantes da estabilidade capitalista no Brasil: Lula. Faz recordar a lógica política de outra força da esquerda reformista mundial, que veio ganhando relevo desde 2016, responsável pela revista Jacobin em cuja seção latino-americana Arcary publica suas notas. Trata-se de Bhaskar Sunkara, principal referência do Democratic Socialists of America (DSA) nos EUA, conhecidos por se tornarem crescentemente ligados ao Partido Democrata.

A dificuldade da “relação de forças” foi a justificativa dada por Sunkara e o DSA para sustentar sua adesão submissa ao imperialista Partido Democrata desde 2016, primeiro à sua ala esquerda (Bernie Sanders), e em seguida ao direitismo do establishment Democrata encarnado por Joe Biden. O objetivo seria aproveitar-se da estrutura dos Democratas para, em seu interior, dar origem a uma organização socialista, que deveria inspirar-se na reformista socialdemocracia alemã pré-1914 (sabendo das enormes diferenças entre um partido imperialista como o de Biden, e a velha socialdemocracia que constituía um partido independente com uma estratégia reformista). A história não passa em vão e, portanto, o desastre era previsível. O DSA se paralisou, e foi um instrumento auxiliar da burocracia sindical da AFL-CIO, do chamado Squad (parlamentares da ala esquerda Democrata encabeçados por Alexandria Ocasio-Cortez) e as ONGs vinculadas ao movimento de massas para reoxigenar o Partido Democrata e o regime bipartidário em crise. Com isso, teve uma parte em levar uma importante camada da vanguarda de trabalhadores e jovens ao pântano bidenista. “Nada mais que institucionalismo”...num momento decisivo, em que a luta de classes foi um fator nos Estados Unidos, especialmente a partir de 2020 com o Black Lives Matter e os processos de sindicalização na Amazon, Starbucks e distintas empresas, culminando no próprio Striketober de 2021, a maior onda de greves em décadas. Em outras palavras, havia uma chance de que da desilusão com o Partido Democrata e a intervenção na luta de classes, uma nova organização socialista independente pudesse emergir para desafiar as armadilhas do sistema bipartidário nos EUA, de modo que uma força política e eleitoral da classe trabalhadora com seu centro de gravidade na luta de classes pudesse emergir.

Em seu artigo à Jacobin, a modo de balanço, “A esquerda no Purgatório”, Sunkara prefere reservar a responsabilidade à toda-poderosa “relação de forças”, diante da qual nada se pode, com uma pouco comovente autocomplacência (“Okay, talvez não seja tudo culpa nossa”…). A culpa é despejada sobre a classe operária norte-americana, que não se habituou em sua trajetória nacional a organizar-se em partidos socialistas ligados aos sindicatos, e sim a distintas alas de partidos burgueses. Ao que se acrescenta a responsabilidade da repressão patronal, que não podia suportar que setores cada vez mais amplos dos trabalhadores norte-americanos, especialmente nas primeiras décadas do século XX, fizessem política independente. Essas são as justificativas de Sunkara para sua tática de diluição no interior do Partido Democrata.. A questão é que, nos Estados Unidos, o DSA foi (e é) mais um obstáculo objetivo ao avanço subjetivo da classe trabalhadora e da juventude, que tendo se enojado do bipartidarismo imperialista e em especial do Partido Democrata, viram-se empurrados por ideólogos como Sunkara de volta ao seio do "cemitério de movimentos sociais" justamente em meio às maiores mobilizações na história do país (não à toa, Sunkara diz pouco ou nada sobre o Black Lives Matter em 2020). Em outras palavras, o DSA, ainda que em menor medida e responsabilidade que a burocracia sindical e parlamentar ligada aos Democratas, teve sua contribuição para a manutenção da relação de forças que favorecia as ilusões das massas num partido imperialista como veículo de escape à crise orgânica que, tomando Gramsci, dissocia sistematicamente as antigas bases sociais representadas pelos partidos tradicionais de suas direções, gerando crises de autoridade estatal. Pelo contrário, Sunkara admirava a “relação de forças” bipartidária que tornava o regime político imperialista “unicamente capaz de lidar com a polarização social”, defendendo que Biden deveria não adotar políticas “esquerdistas” para não provocar a extrema direita trumpista. “Podemos esperar que forças reacionárias se tornem ainda mais agressivas se forem confrontadas por um inimigo de esquerda mais enérgico”, dizia. Diante dos processos de rebelião antiburocrática, nos processos de sindicalização, o DSA adotou inclusive a posição das mesmas burocracia sindicais Democratas.

Kautsky vive no coração dos centristas e reformistas de hoje

Essa metafísica da relação de forças é um ponto de contato do socialdemocrata norte-americano com o pensamento de Valério Arcary. Poderíamos encontrar paralelos, mais que fortuitos, no pensamento do velho Karl Kautsky, um dos dirigentes do Partido Social-Democrata Alemão (SPD). Isso é possível mesmo levando-se em conta que Arcary, ao contrário de Sunkara, não reivindica nominalmente Kautsky. O pensamento político de Kautsky - que se situava numa posição centrista, e que diferentemente de Arcary ainda não havia liquidado a perspectiva de partido próprio - era marcado, especialmente a partir de 1910, por um profundo fatalismo: as situações objetivas se constituíam em dados fixos, impassíveis de serem influenciados pela luta de programas e pelas direções. Diante dessas situações objetivas, tomadas como inflexíveis, era necessário adaptar-se até que a realidade tivesse a bondade de oferecer outras melhores.

Kautsky apresentava a mesma metafísica da "relação de forças" para justificar sua passividade diante dos limites impostos pela institucionalidade burguesa na velha Alemanha imperial, negligenciando os fatores subjetivos, ligados à luta de classes, como componentes fundamentais da possibilidade de influenciar, e potencialmente alterar, as situações objetivas dadas. Como o acadêmico canadense Lars Lih resume: “Kautsky explicou que a estratégia de ’desgaste’ (a prática usual do Partido Social-Democrata Alemão de educação e organização socialista enérgica) era apropriada para uma situação normal e não revolucionária, enquanto que a de ’aniquilamento’ (greves políticas de massa e outros meios de pressão não parlamentares) era apropriada para uma situação verdadeiramente revolucionária”. Vale lembrar que foi contra esse esquema dicotômico de Kautsky que Rosa Luxemburgo polemizava ferozmente em 1910, no debate concreto sobre a conveniência de agitar a “greve geral”. Kautsky se opôs a ela, alegando que não havia uma situação revolucionária. Luxemburgo, que também não sustentava que tal situação existia, era da opinião que se a social-democracia agitasse a “greve geral” no âmbito das mobilizações e greves parciais que estavam se desenvolvendo, ela poderia se tornar um fator chave para o movimento operário tomá-la em suas próprias mãos e assim contribuir ativamente para mudar a relação de forças. Ou seja, influenciar a passagem de uma situação que poderia ser classificada como pré-revolucionária para uma situação abertamente revolucionária.

Importante aqui, para além das enormes diferenças entre as situações, é o método de pensamento. Quando Arcary evoca o “respeito à relação de forças”, não para partir da realidade da situação e preparar-se politicamente para que o enfrentamento à extrema direita não seja instrumentalizado pelo PT, e sim para justificar a entrega das novas gerações ao conciliacionismo petista, raciocina ao modo de Kautsky. Tendo cada um seus objetivos próprios diante de formações políticas distintas (um partido imperialista como os Democratas nos EUA, e no Brasil um partido operário-burguês como o PT), Sunkara e Arcary encarnam uma enraizada concepção kautskyana de que a “relação de forças” é um dado fixo impassível de ser modificado pela luta partidária de programas ou pelas direções. A apreciação da relação de forças seria um recurso para acomodar a esquerda às saídas permitidas pelo regime burguês, e não um ponto de partido lúcido sobre o qual desenvolver a perspectiva programático-estratégica que permitiria contribuir para sua alteração no qual o papel das direções é decisivo.

A questão chave é que esse não é um jogo de “soma zero”: adaptar-se a uma determinada situação objetiva desfavorável é a melhor maneira de contribuir para o seu fortalecimento. Não se trata de “apoiar Lula agora, e construir algo novo depois” (soa algo parecido com a perspectiva de Sunkara frente a Biden?). Reduzir toda a expectativa da vanguarda no Brasil a aceitar o programa de conciliação de classes de Lula e do PT, como o suposto antídoto possível contra o bolsonarismo na atual “relação de forças”, é o primeiro passo para ajudar Lula a fortalecer-se e desalentar a necessidade (e a possibilidade) de superar o PT pela esquerda. Por outro lado, é a via mais curta para a adaptação às burocracias sindicais reformistas, que estão com Lula agora. Essa é a realpolitik interessada do próprio Estado-Maior petista, à qual se submete a direção do PSOL. Arcary se contenta em oficiar de rabequista dessa melodia lulista. Uma melodia cacofônica, que Arcary enfeita com a ilusão de um “Lula com programa anticapitalista”, bastante incongruente com a “relação de forças” imposta por Lula, mediante aliança com Alckmin e todo o arco da direita não-bolsonarista. Na Jacobin, Sunkara atesta a situação da esquerda norte-americana fruto da experiência política desde 2020: “Não há dúvida de que estamos no final de um período de rápida politização e nos acomodando a um período de declínio gradual ou de avanço lento”. A autocrítica inexiste; mas a constatação é inescapável: a política do DSA de submissão ao Partido Democrata deprimiu a influência da esquerda nos Estados Unidos, e colaborou com a “relação de forças” favorável à estabilização do regime. Arcary no Brasil tem uma política que leva ao mesmo beco sem saída: se prospera, contribuirá com a política lulista de absorver a influência da esquerda e opor grande obstáculo ao surgimento de uma esquerda independente do PT. Sempre em nome do respeito à “relação de forças”…

A concepção metafísica da “relação de forças” não impede, como dissemos, Arcary de ser parte constituinte dela. Uma vez esclarecido o fundamento teórico do pensamento kautskyano do ideólogo do Resistência/PSOL, vejamos que relação real de forças protege. Existem dois componentes da real relação de forças que, por sua política, Arcary sustenta. Em primeiro lugar, Arcary se adapta à burocracia sindical e acadêmica ligada ao PT, burocracia essa que conteve qualquer perspectiva de luta independente contra Bolsonaro (gerando o “mal estar com a imobilidade dos sindicatos”), qualquer possibilidade de unificação entre trabalhadores e estudantes, para que mediante a mortificação do espírito de combate tudo fosse canalizado para as urnas de 2022. O objetivo dessa adaptação é passivizar o movimento de massas. Em segundo lugar, Arcary se adapta à possibilidade concreta de aliança com Alckmin, em si mesmo um dado da relação de forças: trata-se de uma escolha consciente de Lula para rebaixar a aspiração do movimento de massas acerca da possibilidade de um governo pós-Bolsonaro reverter os ataques do golpe institucional. O objetivo dessa adaptação, por sua vez, é gerar desmoralização e apatia, um quadro psicológico de aceitação dos ajustes moldados à imagem e semelhança do PT, na medida em que, preservando os ataques mais brutais do bolsonarismo, ao menos não sejam “de um governo de extrema direita”.

Passivizar o movimento de massas nos marcos estreitos das burocracias reformistas, e rebaixar as aspirações desmoralizando a base antibolsonarista: eis os dois componentes concretos da realidade que são sustentados pela construção arbitrária e unilateral da relação de forças por Arcary. O ocultamento desses dois componentes é funcional para a fabricação de uma imagem de que, sendo “vítima da relação de forças”, nada mais restaria ao Resistência senão estar “obrigado” a integrar-se à campanha Lula-Alckmin que se desenha.

Kautskysmo e ultraesquerdismo como duas faces de uma política equivocada

O pensamento kautskyano de Arcary tenta identificar o “ultraesquerdismo pós-68” no Brasil (aparentemente referindo-se à desastrosa tática da guerrilha, ainda que não especifique), que levou à separação entre a vanguarda e as massas, com aquilo que seria o suposto “ultraesquerdismo de 2022”, que levaria ao mesmo resultado: não apoiar Lula incondicionalmente nas eleições. A comparação é estapafúrdia em si mesma; não existe nenhuma relação entre a anti-estratégia do guerrilheirismo, sempre politicamente conciliatória, e a luta atual por convencer as novas gerações da necessária independência política da conciliação petista. É assim que Arcary fala à juventude, com o tom arrogante de um guru que tudo conhece frente a uma nova geração que nada sabe. A grosseira comparação é testemunha dessa arrogância; entretanto, também diz muito do estado de espírito do autor. Não é fácil embelezar o prontuário petista, menos ainda a própria submissão a ele. O jeito é carregar as tintas do amedrontamento, e diante dos olhos da juventude, atribuir “às massas” as ilusões que existem no próprio Arcary.

De fato, é a melodia tocada em vários de seus artigos: não apoiar Lula significaria uma “incompreensão do estado de ânimo das massas”, com o desenlace sombrio e inevitável de separar-se delas. Esse argumento que associa uma política independente ao destino maldito de “separar-se das massas” consta do mesmo velho arsenal kautskyano. No contexto da Primeira Guerra Mundial, foi utilizado pelo próprio Kautsky a fim de conter as aflições da militância socialdemocrata no interior do SPD após a traição na votação dos créditos de guerra em agosto de 1914. Kautsky, que dirigia a ala “centrista” da socialdemocracia alemã, permaneceu no SPD até ser expulso com outros dirigentes (incluindo de sua ala esquerda, como Luxemburgo) no início de 1917. Aproveitou o governo surgido com o desvio da Revolução Alemã de novembro de 1918 para servir, agora como membro do Partido Social-Democrata Independente (USPD), junto ao SPD na qualidade de subsecretário da chancelaria, por um breve período. Após o esmagamento da revolução alemã pelo governo do SPD, Kautsky retornou junto a uma minoria do USPD à velha socialdemocracia em 1920, a fim de “reunificar-se com as massas”.

A situação é completamente distinta, mas novamente nos interessa iluminar o método de pensamento: a identificação de um aparato burocrático de conciliação de classes como o veículo redentor dos riscos da “separação das massas” não é nova, nem serão as catástrofes daí resultantes.

É inegável que Lula se beneficia eleitoralmente do repúdio a Bolsonaro, que deve ser derrotado. Mas a realidade é que os elementos transicionais da situação brasileira incluem, simultaneamente, um grande momento de reorganização da esquerda, e a crise estratégica do PSOL é um dos centros desses novos contornos que começam a se desenhar. Ao contrário do que postula Arcary (“não se pode lutar contra Bolsonaro e, ao mesmo tempo, antecipar a luta de oposição de esquerda”), a relação de forças permite espaço para batalhar desde já por reagrupar a esquerda ao redor de um programa independente do PT, que seja o verdadeiro artífice do combate à extrema direita. A capacidade de encontrar o caminho para a construção das bases do que deve ser um partido revolucionário no Brasil depende da leitura que se faz dos elementos transicionais da situação, e da decisão de intervir na realidade para influir na relação de forças. Ou seja, abandonar a passividade acomodatícia diante dos movimentos da realidade, para cujo ritmo e direção as burocracias reformistas petistas dão a sua contribuição. As manifestações do segundo semestre de 2021 contra Bolsonaro expressavam disposição de combate, e não estavam “fadadas ao fracasso”. O que ocorre é que conseguiram ser integradas pelas burocracias petistas dentro da estratégia eleitoral pró-Lula, contra a qual de maneira alguma Arcary e o Resistência foram um fator opositor (pelo contrário, Arcary se queixa de que infelizmente “Lula não quis ir às ruas”...).

Arcary não está dotado dessa perspectiva. Sua interpretação do país desde as Jornadas de Junho de 2013 até aqui está carregada de uma passividade pessimista. A concatenação objetiva das distintas conjunturas que compuseram o giro à direita da situação brasileira nos aparece com força plenipotenciária: diante dela, não haveria nada a fazer. O “impulso progressivo” de 2013 “se esgotou em 2014”. Por quê? Quais forças operaram para esse esgotamento, no marco das grandes greves operárias de 2014 a partir do triunfo dos garis do RJ, e que papel tiveram as burocracias sindicais e parlamentares do PT, ora unificadas com Lula? Nada disso existe para Arcary. “A crise econômico-social aberta entre 2015/16 não despertou disposição de luta entre os trabalhadores”, diz Arcary. Mas quais bloqueios subjetivos reais impediram esse desenvolvimento? Mais uma vez a figura das direções burocráticas e reformistas do movimento de massas, ligadas ao governo Dilma e ao PT (como a CUT e a CTB, a UNE e as organizações dos movimentos sociais), desaparece, e o próprio combate a tais direções se afigura como uma impossibilidade retrospectiva. E como conclusão ficamos sabendo que “a situação não evoluiu na direção de uma situação pré-revolucionária, mas o seu contrário”, para a extrema direita, “arrastando setores operários e populares”. A força jupiteriana dos acontecimentos arrastou, em primeiro lugar, o próprio Arcary, que oculta atrás dessa passividade impotente a liquidação da perspectiva de construção de um partido independente que supere o PT pela esquerda. Ao ocultar o papel do PT e suas burocracias reformistas no movimento de massas - que bloquearam o caminho para a derrubada de Temer após a greve geral do 28 de abril de 2017, que permitiram a aplicação sem resistência da reforma trabalhista e da previdência, que contiveram o rechaço da juventude a Bolsonaro, e posteriormente de setores mais amplos dos trabalhadores, nas manifestações antibolsonaristas de 2021, já com conteúdo pró-PT canalizando a raiva à preparação das eleições presidenciais de 2022 - Arcary atua como correia de transmissão da política petista de que Lula seria o verdadeiro fator para a modificação, passiva e desmoralizante, da relação de forças dentro dos marcos permitidos pela degradada democracia burguesa.

Ninguém em sã consciência negaria os traços reacionários da situação, e uma política ultraesquerdista seria um disparate. Mas o ultraesquerdismo tem como seu simétrico oposto a conduta oportunista de Arcary: apesar do ódio a Bolsonaro se expressar de maneira distorcida no apoio eleitoral a Lula, é altamente questionável que “as massas” sejam simpáticas à política de Lula, que repete a fórmula que nos levou ao golpe institucional e ao bolsonarismo. Essa ausência de lealdade ao PT é ainda mais forte na nova geração, que não carrega nas costas a responsabilidade das derrotas impostas pelo lulismo (isso não significa que eleitoralmente Lula deixe de se beneficiar do repúdio juvenil à extrema direita). Trata-se de uma oportunidade para tornar conhecida uma posição política que queira questionar estruturalmente o capitalismo, cuja defesa está no DNA petista. Arcary e o Resistência/PSOL trabalham estrategicamente no sentido oposto, auxiliam o robustecimento do PT. Classificar de “ultraesquerdismo”, como faz Arcary, o pensamento estratégico que busca influenciar e alterar a relação de forças em favor do desenvolvimento de uma posição de independência de classes, é o mesmo que qualificar o marxismo revolucionário de ultraesquerdista. Tanto pior para alguém que tenta igualar coisas tão incompatíveis quanto o guerrilheirismo e a independência de classe. As “aflições kautskyanas” de Arcary são um espetáculo constrangedor de reintegração ao PT, e ninguém melhor que Kautsky para justificar a adesão a um Lula “alckmizado”.

O novo momento reformista na América Latina

Essa perspectiva política diz respeito à compreensão (ou não) de que tipo de batalhas é necessário dar na América Latina a fim de enfrentar verdadeiramente de fato a extrema direita. Ao contrário das fantasias de Arcary, não estamos simplesmente falando de uma “lentidão brasileira” frente a “processos progressistas” na América Latina. Nossa região vive um momento reformista que beneficia antigas formações nacionalistas burguesas ou neorreformistas que, em seu movimento pendular, não respondem às demandas de massas que vimos nos processos desviados de luta de classes. No Chile, o programa de Gabriel Boric não leva a responder nenhum dos problemas estruturais que levaram à rebelião contra a herança pinochetista em 2019; pelo contrário, Boric encabeça uma coalizão junto ao Concertacionismo (Partido Socialista e Democracia Cristã) e o social-liberalismo que governou o Chile pelos últimos 30 anos, em comunhão com a direita (não se procedeu nem sequer à liberação dos presos políticos de Piñera). No Peru, o dito “esquerdista” Pedro Castillo se dedicou a compor um governo de unidade nacional com sucessivos gabinetes cada vez mais à direita, incluindo empresários neoliberais afeitos ao regime fujimorista, e agora se tornou um amigo de Bolsonaro. Na Argentina o governo de Alberto Fernández e Cristina Kirchner, depois de perder as eleições parlamentares de 2021, girou ainda mais à direita, buscando a coalizão macrista para aprovar um novo brutal acordo de submissão nacional aos ditames do FMI, aplicando ajustes contra os salários dos aposentados os trabalhadores (com a ajuda da burocracia sindical peronista) e presidindo a desvalorização do peso, enquanto na Bolívia o governo de Luís Arce do MAS segue a política evomoralista que favoreceu a acumulação capitalista dos grandes empresários privados e aprofundou a colaboração do Estado com os agro-industriais e pecuaristas do Oriente, a mesma classe dirigente que apoiou o golpe de Estado em novembro de 2019.

Todos esses políticos ditos “progressistas” foram apoiados por Arcary e o Resistência, em seu momento, como portadores de mudanças populares na América Latina. Em verdade, ao preservar as alianças com a direita e os capitalistas, não reverter a submissão da região a potências estrangeiras (não apenas EUA, mas também a China), conservar os pilares básicos do neoliberalismo, esses governos abrem caminho para um retorno da direita. Lula pode se enxergar no espelho de Alberto Fernández, por exemplo: em um momento de crise econômica internacional, agravado pela pandemia e a guerra na Ucrânia, vai ser obrigado a aplicar ajustes antipopulares (independente do ritmo em que o faça, e da percepção das massas frente ao que foi o bolsonarismo), administrando a agenda econômica do golpe. Essa perspectiva estratégica deve estar no horizonte de qualquer esquerda que mereça o nome. A batalha contra a extrema direita na América Latina (como em qualquer lugar do mundo) exige que a classe trabalhadora empunhe um programa anticapitalista com independência de todas as variantes patronais. Nisso, é um exemplo a atuação da Frente de Esquerda e dos Trabalhadores Unidade na Argentina, para além das fábulas inventadas por Arcary sobre a impossibilidade dessa política de independência de classe no Brasil.

A crise existencial do PSOL e a batalha por uma alternativa de independência de classes

O resgate oculto das forças reformistas da social-democracia alemã no Brasil pela via de Valério Arcary responde, também, a uma situação concreta: uma crise existencial (e terminal?) do PSOL enquanto partido que se apresentava à esquerda da conciliação petista. O PSOL chega a 2022 como um apêndice da política petista para tentar de forma pouco exitosa evitar a saída de novos quadros do partido rumo ao próprio PT, ou outros partidos melhor localizados para essa aliança, como é o caso do PSB. Marcelo Freixo, que já foi uma das maiores figuras do PSOL nacionalmente, e em particular no Rio de Janeiro, está prestes a ser colega de partido de Geraldo Alckmin em um PSB dominado pelo coronelismo de Pernambuco. Este é o resultado da versão brasileira de políticas neo-reformistas que vimos em vários países, e que no Brasil foi abraçada com força pelo PSOL, construindo um partido “amplo” sem definição estratégica e com um programa auxiliar ao petismo. Por alguns anos se localizou de forma independente podendo abrir espaço para algum tipo de reorganização da esquerda. Mas o rechaço de sua direção contra qualquer política revolucionária ficou evidente com a negativa deste partido em aceitar, por exemplo, a entrada do MRT com essas posições de independência de classe, o que seria um incômodo para o longo caminho que o PSOL já começava a trilhar rumo a uma possível experiência ministerialista em um novo governo Lula em 2023. Veremos Valério Arcary justificar uma política assim com seu famoso bordão “este é o lado certo da história”? A própria história dirá.

Fato é que o PSOL nos últimos anos veio aderindo a políticas de frente ampla, como em São Paulo com a candidatura de Guilherme Boulos, que se reuniu com empresários da cidade e se aliou a partidos burgueses como o PSB, PDT e Rede mas também vem de uma submissão programática cada vez mais sintomática ao programa do PT, com setores internos que chegam a defender o pagamento da dívida pública, abandonando a já reformista consigna de “auditoria”. A desconexão extrema com qualquer perspectiva remotamente revolucionária, no qual a luta de classes passa longe, é o que marca o partido na atualidade, com consignas cada vez mais adequadas ao regime burguês que dialogam com um capitalismo humanitário. Neste cenário, a ala de oposição dentro do PSOL se vê de mãos atadas ao seguir a figura de Glauber Braga, ex-PSB, que apresenta um programa neodesenvolvimentista que não pode ser nenhum tipo de alternativa a essa debacle do PSOL.

Neste sentido, as “aflições kaustyanas” de Arcary também podem expressar a procura por argumentos rebuscados para evitar a possibilidade de abertura de um processo de reorganização na esquerda na qual setores e simpatizantes do PSOL, e quem sabe do próprio Resistência, tirem as conclusões opostas, e se neguem a abraçar Lula e Alckmin com um livro de Trótski na mão, como propõe Arcary. Neste processo nós do MRT, resgatando as inúmeras batalhas que viemos dando contra as políticas de conciliação de classes que o PSOL protagonizou nos últimos anos e sempre desde uma posição de independência de classe diante do regime político no Brasil, consideramos necessário batalhar por alternativas que possam reagrupar os setores da esquerda revolucionária brasileira. Por isso estamos construindo o Polo Socialista e Revolucionário, que reúne os setores da esquerda que neste momento estão contra a linha de diluição no PT. Neste Polo estamos participando para defender uma política de independência de classe, para que o reagrupamento da vanguarda sirva para intervir na luta de classes e avançando para levantar também nas eleições um programa para que sejam os capitalistas que paguem pela crise, e não um programa para tranquilizar os capitalistas ao lado de Geraldo Alckmin. Acreditamos que esta unidade pode apresentar uma alternativa diante da crise do PSOL.


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Diana Assunção

São Paulo | @dianaassuncaoED

André Barbieri

São Paulo | @AcierAndy
Cientista político, doutorando pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), é editor do Esquerda Diário e do Ideias de Esquerda, autor de inúmeros artigos sobre China e política internacional.
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