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A agressão de Trump contra o Irã é também uma advertência à China e à Rússia

André Barbieri

A agressão de Trump contra o Irã é também uma advertência à China e à Rússia

André Barbieri

Como se combinam as mensagens de advertência à China e à Rússia, enviadas por Washington no marco da agressão imperialista contra o Irã?

Está fora de dúvida que a agressão imperialista norte-americana contra o Irã verá represálias – provavelmente múltiplas, distribuídas no tempo, em caráter assimétrico – dirigidas pelo regime de Teerã. Um primeiro ato de vingança já foi registrado pelas forças de segurança iraquianas, neste sábado (04/01), em que foguetes foram lançados pela milícia Kata’ib Hezbollah na base militar próxima à embaixada dos Estados Unidos em Bagdá, na chamada “Zona Verde”, e na base aérea de Balad, na província de Salahhadin, onde tropas estadunidenses se encontram estacionadas.

O assassinato da principal personalidade militar do país, Qassem Soleimani, que liderava no interior das Guardas Revolucionárias Iranianas as forças especiais Quds, atuantes do Líbano à Síria, do Iêmen ao Iraque, já é comparado pelo governo iraniano a algumas das principais violações estadunidenses no território, durante o século XX. Ao golpe de 1953 contra o governo eleito de Mohammad Mossadegh, orquestrado por Washington, que resultou na ascensão do xá Reza Pahlavi até sua queda pela Revolução Iraniana em 1979; e ao atentado do Pentágono contra o Airbus em 1988 que matou quase 300 passageiros no Golfo Pérsico.

Isso implica, ao que tudo indica, que a campanha presidencial nos Estados Unidos, em que Donald Trump busca sua reeleição, estará atravessada pelas tensões político-militares no Oriente Médio. Um cenário habitual em recentes eleições à Casa Branca, como as de Barack Obama e George W. Bush, e também de presidentes que, como Trump, enfrentavam processos de impeachment (caso de Bill Clinton, que em 1998 lançava um ataque aéreo contra o Iraque, provocando o adiamento das discussões sobre seu impeachment na Câmara dos Representantes).

O cinismo dos argumentos de Trump, alegando um “movimento defensivo” preventivo depois do assédio à embaixada em Bagdá, dificilmente esconde o cálculo feito: Washington buscava retomar a iniciativa no Oriente Médio, e restabelecer alguma credibilidade a sua força dissuasiva num cenário de atrito crescente com um Irã encorajado. Em represália às novas sanções econômicas de Trump contra Teerã, fruto da saída dos Estados Unidos do acordo nuclear de 2015, o governo iraniano operou uma série de demonstrações de que não se dobraria à estratégia de “máxima pressão”: em junho de 2019 derrubou um drone norte-americano, e em julho capturou o navio petroleiro britânico, Stena Impero, ambos no estratégico Estreito de Ormuz; em setembro, o bombardeio das instalações da refinaria de Abqaiq, o maior centro de processamento de petróleo no mundo, que destruiu metade da produção da Arábia Saudita, foi atribuído aos Houthis, milícia xiita ligada ao Irã.

Independentemente da autoria ou não de cada uma das medidas, o Irã saiu praticamente sem danos desses eventos. Mais que isso, reforçou suas alianças asiáticas, e inclusive em certos aspectos com a própria União Europeia, diante das sanções econômicas de Trump.

Aos adversários dos Estados Unidos, tais sinais de debilidade da política norte-americana não passaram em vão, e encorajaram demonstrações de força que vão além da disputa específica com o Irã, e que envolvem grandes ambições de países como a China na Ásia, como veremos adiante.

A debilidade assinalada na posição norte-americana também aparece em sua perda de margem de manobra na definição dos destinos da Ásia ocidental. As milícias xiitas ligadas às forças Quds iranianas, comandadas por Soleimani, não foram responsáveis apenas pela repressão aos movimentos de resistência e fenômenos de luta de classes que contestavam a brutalidade iraniana no Iraque, no Líbano e em outros países: apoiado pelo governo russo, essas milícias foram parte dos reveses do imperialismo norte-americano nos processos que surgiram fruto da derrota da Primavera Árabe. Na Síria, por exemplo, o ex-aliado de Washington, o sanguinário ditador Bashar al-Assad, contou com o auxílio das milícias iranianas para sustentar-se no poder. O Hamas na Palestina, o Hezbollah no Líbano, os Houthis no Iêmen, a Liwa al-Baqir na Síria, são apenas alguns exemplos da extensão da influência iraniana nesse teatro permanente de disputas geopolíticas, cujos objetivos conflitam não apenas com os Estados Unidos, mas com seus aliados mais próximos, a Arábia Saudita e o Estado terrorista de Israel.

Portanto, é importante notar que os Estados Unidos se viu obrigado pelas circunstâncias a deter o curso declinante de sua influência dissuasiva na região. Combinou isso à necessidade de tirar proveito da debilidade do regime iraniano, enfraquecido economicamente pelas sanções norte-americanas, e politicamente desafiado pelo novo ciclo de luta de classes que abrangeu países da Ásia ocidental sob a batuta de Teerã – aplicando um duríssimo golpe com o assassinato de Soleimani, eliminando o principal general das milícias estrangeiras iranianas, e impondo a seus líderes responderem em situação desvantajosa. Trump considera que o Irã, enfraquecido pelos múltiplos problemas econômicos e políticos, não tem condições de responder à altura. Isso não significa que as medidas iranianas, dentro da "estratégia dos débeis", não alcance êxitos de longo prazo contra os Estados Unidos, que não conseguirá impor uma trégua dissuasiva. Assim, tratou-se de uma jogada arriscada, que tem muito de avetnura e pouco de estratégia clara - como reconhecem diversas figuras do establishment ianque, de todo o espectro político - e se presta a escaladas imprevisíveis, executada no momento em que Trump busca uma aventura externa para burlar seus problemas internos, com o impeachment e os sinais de desaceleração econômica.

Mas conter a audácia iraniana no Oriente Médio parece não ser suficiente para explicar um movimento como esse, ainda mais curioso dado que a recente demissão do político que foi braço direito de seu governo, o ex-assessor de segurança nacional John Bolton, se deu em função da defesa acintosa que fazia em prol de uma política agressiva contra o Irã. Conhecido pelos constantes atritos com o presidente em defesa de uma estratégia de "modificação de regime" ("regime change", como ficou conhecida durante a Primavera Árabe) que envolvesse a deposição do regime de Teerã, encabeçado pelo aiatolá Ali Khamenei, Bolton foi demitido por tentar colocar obstáculos à aproximação de Trump com o governo iraniano.

Por isso, cumpre dizer que este sinal enviado por pela Casa Branca e o Pentágono possui múltiplos endereços. Além do Irã, traz mensagens claras à Rússia, e especialmente à China.

Ambos os governos repudiaram o assassinato do general iraniano e pediram "contenção" ao governo dos Estados Unidos. Desinteressa a ambos que Trump lance mão de medidas de força sobre um teatro de operações tão ambicionado. Isso porque o objetivo de frustrar os interesses de Washington unifica o eixo China-Rússia. Do ponto de vista do Kremlin, os Estados Unidos são uma ameaça muito mais clara do que a China, e as visões anti-ocidentais de Putin são profundas. Xi, por sua vez, considera a Rússia útil para minar o domínio global dos EUA e contrariar os esforços dos EUA para limitar a alavancagem chinesa em instituições multilaterais. Tais interesses explicam a atuação comum em muitos dos assuntos internacionais, como esse que diz respeito ao Irã.

Quanto à Rússia, como dissemos acima, o governo Putin foi central para que os Estados Unidos perdessem cada vez mais preeminência na configuração do destino dos regimes pós-Primavera Árabe. A Rússia armou e foi um pilar de sustentação do regime de Assad na guerra civil síria. Da mesma maneira, é um dos principais aliados do Irã no Oriente Médio, tendo em 2016 assinado um acordo energético de US$40 bilhões, e em 2018 uma aliança econômica liderada pela Rússia assinou acordo para suavizar o impacto das sanções norte-americanas ao país. Ademais, cumpre lembrar que não apenas no Oriente Médio a Rússia obstaculiza o passo de Washington: em fevereiro de 2019 teve papel considerável na frustração da tentativa de golpe de Estado na Venezuela orquestrada por Trump.

O sinal à Moscou é claro: Washington não aceitará que o destino da região petrolífera mais estratégica do mundo esteja sob a batuta de Putin.

Do ponto de vista mais estratégico, entretanto, a advertência mais ríspida foi endereçada a Pequim. Os Estados Unidos, em meio à guerra comercial-tecnológica com a China, quer bloquear a todo custo o objetivo do governo de Xi Jinping de converter a China numa potência com influência preponderante na Ásia. O assassinato de Soleimani é um lembrete persuasivo sobre do que pode lançar mão os Estados Unidos caso seus interesses sejam ameaçados na região.

Em particular, o governo Trump viu com extrema irritação a aliança concluída entra a China, a Rússia e o Irã na execução no maior exercício naval conjunto da história do continente, realizado no Golfo de Omã (através do qual é transportado 30% do petróleo por vias marítimas) e no Oceano Índico. O movimento se afigurou como a aproximação mais importante entre os dois principais rivais dos Estados Unidos e a República Islâmica em décadas.

O exercício foi calculado para que os três países participantes surgissem como vencedores: o Irã apareceu como uma potência regional, a Rússia provou seu papel crucial no Oriente Médio, e a China conseguiu dar uma demonstração de seu poder naval de ambição global. De conjunto, a mensagem estratégica é de que os três países são os responsáveis pela configuração do destino da Ásia-Pacífico.

Junto à necessiade de recuperar a iniciativa após meses de atividades favoráveis ao regime de Teerã no Oriente Médio, a resposta a esse exercício militar comum foi um componente considerável para o desatamento da represália norte-americana que levou ao assassinato de Soleimani.

Segundo o portavoz do Ministério de Defesa do governo chinês, Wu Qian, os quatro dias de exercícios militares que cobriram uma área de 17.000 quilômetros quadrados foram um sinal das relações “mais íntimas” entre Pequim, Moscou e Teerã, e tinham como objetivo “mostrar, com as forças dos três países, a vontade e a capacidade de manter em comum a paz mundial e a segurança marítima na região, construindo ativamente uma comunidade naval que compartilhe um futuro comum”. Para os Estados Unidos, que domina a região de maneira inconteste desde o final da Segunda Guerra Mundial, tratou-se de uma provocação aberta que não será admitida, uma vez que o aprofundamento dessa aliança põe em risco a navegação de patrulhamento da marinha norte-americana, que já não tem livre acesso pelo Mar do Sul da China, “colonizado” pelas ilhas artificiais de Pequim.

O Departamento de Estado norte-americano disse em entrevista ao Financial Times que a China, a Rússia e o Irã deveriam pensar “duas vezes” antes de organizar exercícios navais conjuntos, se quiser pensar na “segurança marítima de uma região tão importante”.

Ademais, a China possui amplas relações comerciais e estratégicas com o Irã. A Rand Corporation, um think tank norte-americano, assinalou em pesquisa que a China se tornou nos últimos anos o principal parceiro comercial do Irã, e seu consumidor número um de petróleo. Com seus interesses próprios, o think tank estabelece que a relação geopolítica China-Irã tem como fundamento mais importante a limitação da influência dos EUA no Oriente Médio em particular, e na Ásia em geral, tendo o regime chinês colaborado no desenvolvimento do programa nuclear iraniano e na suavização do impacto das sanções de Trump, em troca de auxílio às suas necessidades energéticas.

Já a revista Foreign Policy enfatiza que na grande disputa global que a China trava com os Estados Unidos, na arena comercial mas especialmente na batalha pela preeminência tecnológica, um grande objetivo de Pequim é evitar o isolamento do Irã, e auxiliá-lo indiretamente nos atritos com Washington. O “great game” de Pequim seria transformar o Irã na âncora da China no teatro de operações da Ásia ocidental.

Diante dessa proximidade estratégica entre os dois países, a mensagem da Casa Branca não é menos clara: Washington não aceitará que a China tire vantagem das disputas no Oriente Médio para fortalecer sua corrida pela predominância na Ásia.

Acreditamos que para uma visão compreensiva sobre o alcance de uma política tal de Trump, que também possui elementos erráticos, é indispensável observar o panorama asiático em geral, e a localização das disputas com a China (e a Rússia), em particular.

Após os foguetes atingirem instalações próximas às tropas norte-americanas alojadas no Iraque, Trump subiu novamente a retórica e garantiu haver 52 locais iranianos como alvo (representando os 52 reféns diplomáticos feitos pelo Irã em 1979, durante 444 dias), que seriam golpeados " muito rápido e com muita força" caso o regime iraniano concretize mais ataques.

O exemplo da invasão norte-americana no Afeganistão e no Iraque, no início do século XXI, deu amplas mostras de que as classes trabalhadores e o povo pobre do Oriente Médio, tão devastado por conflitos militares e intervenções armadas, não têm nada a ganhar com as agressões imperialistas. A destruição do Iraque, durante mais de 15 anos de intervenção, a catástrofe no Afeganistão, os resultados desastrosos das intervenções na Síria, na Líbia, os ataques contra os palestinos realizadas pelo Estado terrorista de Israel, não fizeram mais que exacerbar os sofrimentos e misérias das populações locais.

O caráter reacionário de regimes políticos como o dos aiatolás do Irã - que utiliza suas milícias paramilitares para reprimir a ferro e fogo os manifestantes que se insurgem contra o autoritarismo da República Islâmica - é mais que evidente. Entretanto, não é através do imperialismo que os explorados e oprimidos podem se desfazer de tais regimes aberrantes. Da mesma maneira, nada de progressista poderia advir de regimes autoritários e repressores como os governam a China e a Rússia.

É preciso rechaçar as ameaças e agressões imperialistas dos Estados Unidos contra o Irã, sem qualquer defesa dos regimes reacionários da região (como fazem correntes pertencentes à tradição stalinista). A classe trabalhadora e a juventude dos Estados Unidos tem de estar na linha de frente contra mais essa ofensiva do imperialismo ianque, como dizem nossos companheiros do Left Voice, parte da Rede Internacional de diários digitais impulsionada pela Fração Trotskista, nos Estados Unidos. É importante que mais de 70 cidades nos Estados Unidos tenham levantado em uníssono o grito de "Abaixo as ameaças de guerra contra o Irã". Isso é uma mostra, minoritária mas importante, das dificuldades internas que Trump tem no avanço de seu guerrerismo.

O novo ciclo de luta de classes que atravessou o mundo em 2019, que tem seus potnos mais importantes na França e no Chile mas que também envolveu países do Oriente Médio, é uma importante contratendência internacional aos planos agressivos do imperialismo e das grandes potências.

Ver aqui declaração em inglês do Left Voice: Down With U.S. Imperialist Aggression Against Iran!

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André Barbieri

São Paulo | @AcierAndy
Cientista político, doutorando pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), é editor do Esquerda Diário e do Ideias de Esquerda, autor de inúmeros artigos sobre China e política internacional.
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