Cultura

HISTÓRIAS DO PROLETARIADO DIGITAL

Um trabalhador brasileiro que perdeu a memória

Publicamos mais uma conta da serie Histórias do proletariado digital.

Afonso Machado

Campinas

segunda-feira 2 de setembro| Edição do dia

Os automóveis estavam empacotados num trânsito que não tinha fim. Mais um início de noite em que a avenida estava entupida de corpos e ruídos. As trombetas do apocalipse eram substituídas por buzinas que urravam por quilômetros. Aquele barulho todo metaforizava preces e xingamentos, expressando o inconsolável desejo da classe média de chegar em casa. A agonia era tamanha no interior dos confortáveis veículos, que muita gente ali desejava flutuar como os cupins e as mariposas que atiravam-se como suicidas em todas as lâmpadas acesas da cidade. No sentido oposto ao trânsito histérico, vinham duas passeatas que seguiam por duas ruas diferentes.

No ringue da luta de classes:

Na primeira passeata, encontravam-se trabalhadores e estudantes protestando contra o governo Bolsonaro. As batidas dos tambores chacoalhavam as estrelas do céu. As bandeiras vermelhas e as palavras de ordem desarrumavam as imagens publicitárias da paisagem comercial: borrava-se o batom nas bocas das moças que faziam propaganda de cosméticos, quebravam-se no ar as garrafas das propagandas de refrigerante, derretiam-se as barras de chocolate dos anúncios, despenteavam-se os cabelos das modelos das propagandas de shampoo. Os militantes da passeata protestavam contra a caótica política ambiental, contra os cortes na Educação, contra as privatizações de Estatais brasileiras, contra a subserviência ao imperialismo norte americano.

Na segunda passeata, encontravam-se os defensores do governo. Trajando roupas e bandeiras com as cores verde e amarela, os manifestantes cantavam trechos do hino nacional. De dentro de um outdoor personagens de multinacionais acenavam com lenços. Outros personagens de anúncios comerciais ficavam com a mão no peito, deixavam rolar lágrimas douradas pelos cartões de crédito.

Um choque cromático deu-se quando o vermelho e o amarelo se encontraram na avenida. Eis que veio valsando pelo ar um saliente tijolo que aterrissou na testa de João, um trabalhador de 62 anos que estava junto aos manifestantes de esquerda. Enquanto a vista do homem embaçava, um pequeno número de pessoas veio para socorre-lo. Som de sirene e depois de uma hora , João foi levado a um hospital público. Na manhã seguinte, João recobrou os sentidos e aparentemente a consciência. A família toda em volta aguardava o médico que daria alta ao paciente.

João faria um exame urgente que na realidade seria agendado para daqui há seis meses. Se neste espaço de tempo ele tiver alguma hemorragia interna, alguma grave lesão, estas teriam que respeitar e entender a precariedade do sistema de saúde do país, desta pátria nada amável, nada gentil com os trabalhadores.
João teve alta. Não seria necessário nenhum atestado médico, já que ele estava desempregado há anos: depois de trabalhar como operário, João dava nós em pingos d´água vendendo aqui e ali um espetinho de carne, uma paçoquinha, uma garrafa de água mineral, enfim o que pintasse. O filho mais velho de João ajudava no que podia. O rapaz pilotava sua moto e fazia entregas de lanches pela cidade.

João recebeu em casa a visita de Roberto, seu irmão mais velho. Sentado na velha cadeira de madeira com infinitos nhécs nhécs, Roberto relembrou com bom humor:

- João é cabeça dura! Já passamo por coisa pior... Lembra João, daquela greve em São Bernardo? Era 1980, a ditadura tava de pé, e o povo ali batendo de frente. João era moço, tava lá na luta. Lembra João?

João franziu as sobrancelhas e perguntou:

- São Bernardo? 1980? Greve? Ditadura?

Os dias seguiram-se bem, mas bem apertados pela falta de dinheiro. João dava sinais de amnésia mas não sentia mais dores de cabeça. Decidiu acabar com o repouso e desobedecendo as recomendações médicas, saiu para a rua com o intuito de vender pequenos doces de abóbora e batata, todos em formato de coração.
Descendo a rua em direção ao mercado municipal, João passou por uma casa cujo número era 1937. Enquanto ele seguia veio um calafrio, uma sensação de asfixia o tomava. O mal estar durou até ele passar em frente a uma casa cujo número era 1945. A janela da mesma casa se abriu e surgiu a figura de um trabalhador vestido com um paletó rasgado, com cortes e escoriações pelo rosto. Ele perguntou a João:

- Lembra da ditadura do Estado Novo? Lembra de quanta gente foi presa?! Você lembra João?!

- Não, eu não me lembro.

Atravessando uma praça da cidade, João observou um grandioso monumento. Era um renomado personagem histórico, que com toda certeza não era um trabalhador. Sobre a grama, na sombra do monumento, havia um bilhete. Curioso, João pegou o pequeno papel dobrado, abriu e leu a seguinte pergunta:

“Por onde anda Zumbi de Palmares?”.

João já ouvira esse nome, mas não se lembrava de quem era. Um pouco atordoado, ele seguiu para o centro da praça e foi descansar em frente a uma fonte. João concentrou-se no barulho da água e ficou olhando para o fundo da fonte. Mas parecia que ali, no fundo da fonte, tinham multidões de pessoas se afogando não em água mas em sangue. Quem eram aquelas pessoas? João pensou em mergulhar para salva-las, mas foi interrompido por uma senhora. Colocando a mão sobre o ombro de João, ela disse:

- Num adianta meu filho, essa gente toda tá sofrendo lá no fundo.

- Quem é essa gente?

- Ali tem gente de Canudos, tem gente da guerra do Contestado. Lá no fundão, ali aonde o sol não chega, tem gente da Balaiada, da Cabanagem, da Revolta de Malês... Ás vezes quando chove e a água transborda, surge o sangue de gente mais antiga... Eu já ouvi aqui o gemido de dor do Frei Caneca, do Cipriano Barata. O cê não reconhece ninguém? Não lembra deles?

- Não, eu não me lembro.

Já era fim de tarde e João seguia de volta para a sua casa. Ele flutuava pelo ar, subindo os degraus luminosos dos faróis dos automóveis. Sentia que sua cabeça era um salão vazio. Havia um ato político, próximo ao local em que ocorreram as passeatas, aonde João levou uma tijolada. Jovens de camisetas vermelhas, roxas e pretas conversavam entre si. Um deles fazia um discurso com um microfone nas mãos:

- Vários camaradas continuam presos. Além dos presos aqui citados, fomos informados que encontram-se encarcerados também camaradas que estiveram nas Jornadas de Junho de 2013, na Greve Geral de 1917, na Passeata dos Cem Mil de 1968, nos conflitos na praça da Sé em 1934 e vários outros que estamos procurando identificar. A dificuldade maior é saber como efetuaram-se as prisões e qual é o paradeiro dos militantes no abismo sem fundo. Estamos lançando campanhas, propondo buscas, mas é preciso coragem para entrar no labirinto dos esquecidos.
João ficou olhando aquele moço falar. Mas a amnésia continuava e João não se lembrava de nada.

Observação: esta é uma pequena obra de ficção. Apesar do pano de fundo ser inevitavelmente histórico, personagens e situações foram inventados.




Tópicos relacionados

Histórias do proletariado digital   /    Cultura

Comentários

Comentar