Cultura

Histórias do proletariado digital

O gavião do canavial

Este é o quarto conto de uma série que leva o título de Histórias do proletariado digital.

Afonso Machado

Campinas

segunda-feira 12 de agosto| Edição do dia

Pedro ainda sente dores no pulso direito. Seu rosto de cinquenta anos parece o de um homem de setenta anos. Já faz mais de dois anos que uma usina açucareira do interior de São Paulo, o mandou embora. As mãos com machucados eternos denunciam que Pedro trabalhou como cortador de cana de açúcar. Foram anos em que com sua única camisa de flanela cinza, com a bermuda jeans mais surrada do planeta, com o descolorido boné azul e com os maltratados “ chinelos amarelos de dedo “, Pedro adentrava diariamente por um labirinto verde. A pele do rosto machucada pela fumaça das queimadas, o pomo de Adão da garganta magrinha subindo e descendo como um pequeno elevador e os olhos sempre apertados por causa do sol endiabrado, formavam naqueles anos a figura de um homem que golpeava todos os dias com seu facão os pés de cana.

O tempo passou e Pedro vende agora água mineral e pipocas doces num terminal de ônibus em Campinas. Apesar do cenário ser outro, o canavial do passado não sai da cabeça de Pedro. Não é saudade, não é nostalgia. É sempre uma marca cortante da sua vida. Até parece que os golpes do facão foram dados na sua própria carne, tamanha é a dor e a sensação de uma grande perda de tempo. Á noite, quando adormece, Pedro tem sempre o mesmo pesadelo: o canavial surge na sua cabeça. Todos os trabalhadores cortando cana. Um gavião gigantesco sobrevoa Pedro e os outros. Pedro larga o facão e corre para dentro do canavial. Mas não tem jeito: o gavião sempre o encontra, o derruba com as duas garras, bate com as asas no rosto de Pedro e em seguida começa a bicar a sua barriga, a bicar o seu peito, até que com o bico todo sujo de sangue começa a devorar os órgãos internos da presa.

Pedro trabalhou entre os anos de 2010 e 2017 naquela usina. Naquele primeiro ano, a usina possuía centenas de trabalhadores cujos salários estavam atrelados á quantidade diária de cana de açúcar cortada. Ele se lembra da velha Maria do Olho Furado, incansável cortadora de cana, que dizia numa voz debochada:

- Quanto mais nois corta cana, mais a pança do Dono cresce. Quanto mais nois corta cana, mais açúcar no café dos outro. Quanto mais nois corta cana, mais árcool para os carro dos outro. Mas quanto mais nois corta cana, pelo menos deve de sobrá um pouco de cachaça pra nois.

Pedro se lembra com raiva dos funcionários da usina. Eram eles quem contabilizavam as montanhas de cana cortada e nunca os trabalhadores. Era uma ansiedade tremenda quando todos que ali trabalhavam com os facões, começavam a cortar a cana no início da manhã; afinal quem cortasse mais ficava e quem cortasse menos era mandado embora da usina. Ele se lembra ainda de um rapaz chamado Zezinho , que cortava, cortava e cortava os pés de cana, olhando de modo hostil para quem estivesse pelos lados, competindo com ele. Mas foi então em 2017 que a usina, atenta aos lucros do etanol, substituiu os trabalhadores pelas colhedeiras. Caminhando agora pelo terminal com suas garrafas e suas pipocas, Pedro exclama bem alto sem abrir a boca, berra no silêncio da sua mente:

- Colhedeira dos inferno!

Agora no canavial não se ouve mais as brincadeiras da Maria do Olho Furado. O olhar colérico do Zezinho não está mais lá. O espaço foi tomado pelas colhedeiras, pelas máquinas sofisticadas que somente técnicos e engenheiros podem operar. Máquinas que num único movimento valem mais do que mil braços e mil facões. Agora são esses moços estudados, que sabem fazer contas e sabem programar as máquinas, aqueles que vendem o seu trabalho para a usina. Hoje quase ninguém compra as garrafas de água mineral e nem mesmo um único rosado saquinho de pipoca doce, que Pedro tenta vender o dia inteiro. Pedro só não morre de fome porque a filha mais velha trabalha como funcionária de telemarketing e o filho mais novo carrega e descarrega caixas de refrigerantes de um caminhão, abastecendo armazéns e pequenos mercados de alguns bairros de Campinas.

Diante do pesadelo constante com o gigantesco gavião que lhe devora a barriga, Pedro costuma levantar-se no meio da noite. Rememorar sua vida, procurar dar algum sentido ao seu passado, são coisas difíceis para ele. Parece que o seu passado é habitado apenas por um monstruoso gavião, que o tortura através das madrugadas. O ex cortador de cana se levanta após o pesadelo, vai até a única janela da sua minúscula casinha de tijolos descarnados e acende um cigarro de palha. Ele então pensa o que pode ter acontecido com os outros trabalhadores daquele canavial. Se as colhedeiras estão desligadas ou com insônia, assim como ele:

- Como é que pode?! Tanta gente que ficou doente de trabaiá , ás vezes perdendo os dedo ou até as mão. Gente que enfartou, gente que morreu de febre. Aonde esse povo foi parar? Tem mais máquina que gente!

Sempre quando amanhece, lá naquele canavial em que Pedro trabalhou, um gavião sobrevoa a plantação em busca de carne e sangue.

Observação: Esta é uma pequena obra de ficção. Apesar do pano de fundo ser inevitavelmente histórico, personagens e lugares foram inventados.




Tópicos relacionados

Histórias do proletariado digital   /    Literatura   /    Cultura

Comentários

Comentar