Política

CRISE DO PT

Um outro olhar sobre a trajetória e o destino de José Dirceu

A operação ideológica que envolve as duas prisões do histórico dirigente petista, que queremos desmascarar, é apresentar ao mesmo tempo Dirceu como um revolucionário ou socialista e organizador do maior esquema de corrupção da história do país.

sábado 8 de agosto de 2015| Edição do dia

Apesar do que a trajetória de José Dirceu tem de extraordinária, fora da media, em todos os momentos ela é bastante representativa do caminho que seguiu toda uma geração de combatentes que ao fim acabaram entregando as armas e mudando de lado. O revolucionário italiano Antônio Gramsci elaborou o conceito de transformismo, muito utilizado para descrever o próprio PT. Como explicamos no artigo “PT, da hegemonia ao transformismo”:

“A integração plena do PT à política burguesa, sintetizada dramaticamente nos casos de corrupção que se ventilam em toda a mídia internacional, poderia se enquadrar perfeitamente em certas temáticas gramscianas, em especial a do transformismo, categoria com a qual o comunista italiano analisava a cooptação pelas classes dominantes dos elementos dirigentes dos setores populares”.

Neste artigo, colocamos a citação de Gramsci que resgatamos aqui: “através da absorção gradual, mas contínua e com métodos de variada eficácia, dos elementos ativos saídos dos grupos aliados e até dos grupos adversários e que pareciam inimigos irreconciliáveis. Neste sentido a direção política se converteu em um aspecto da função de domínio, porque a absorção das elites dos grupos inimigos leva à decapitação destes e sua aniquilação por um período frequentemente muito longo” (Gramsci, Cadernos do Cárcere, Caderno 19, §24).”

Partindo deste conceito, queremos lançar um olhar sobre a história de José Dirceu, os caminhos do seu próprio transformismo e o desfecho, que por hora, parece ser o final. A trajetória não é a de um revolucionário consequente, que em algum momento simplesmente se desviou do seu caminho, como é apresentado por muitos setores da esquerda. Nem muito menos a de alguém que busca construir, com métodos burgueses, uma contra hegemonia à ordem burguesa, como apresentam os porta-vozes da direita mais reacionária, Reinaldo de Azevedo e Olavo de Carvalho.

José Dirceu foi parte de uma geração de jovens que se dedicou sinceramente à causa da revolução. As rupturas com o Partidão, depois que o golpe militar de 64 mostrou a falência da sua estratégia de conciliação, encontraram porém como alternativas estratégias derivadas da revolução chinesa e cubana (leia mais aqui). Em suas diferenças, ambas tem em comum a ausência de organismos de autodeterminação das massas, substituídos pelos exércitos guerrilheiros. Com a derrota do ascenso revolucionário iniciado em 1968, e o inicio da restauração capitalista no final dos anos setenta, o inicio da ofensiva neoliberal, muitos dos antigos guerrilheiros substituem essa estratégia revolucionaria equivocada, pela disputa de posições no interior do aparato estatal, abandonando qualquer perspectiva de revolução. Dirceu é somente uma figura emblemática de toda essa geração militante que no Brasil e diversos países, seja dos antigos partidos stalinistas ou dos guerrilheiros que passaram a ser gestores do Estado capitalista e assumiram inclusive o programa neoliberal, o pragmatismo típico do mesmo, além dos métodos de corrupção inerentes ao Estado burguês.

Da luta contra a ditadura à defesa da democracia capitalista

José Dirceu iniciou sua vida política antes do golpe de 1964 e aderiu muito cedo as fileiras do Partido Comunista. Depois do golpe, se somou às dissidências que se formaram em vários estados, principalmente na juventude. No seu caso, fazia parte da dissidência de São Paulo. Depois de preso no congresso da UNE de Ibiúna em 1968, foi um dos presos políticos libertados no sequestro do embaixador americano. Retornaria clandestinamente ao Brasil mais duas vezes, em 1971 e alguns anos depois, com o rosto mudado por uma cirurgia plástica que fizera em Cuba. Permaneceu clandestino nesta situação até a anistia em 1979.

Depois disso formou parte do PT desde a sua fundação. Integra a corrente Articulação, de Lula, que cumpre o papel de controlar o PT e impedir que o partido expressasse as tendencias mais radicalizadas do movimento de massas. No final da década de 1980 é um dos dirigentes da campanha para centralizar as tendências internas do PT e expulsar as tidas como mais radicais, particularmente as trotskistas Convergência Socialista, hoje PSTU e a Causa Operária, hoje PCO.

Dirceu inicia o primeiro ciclo do seu processo de transformismo no exílio e na clandestinidade e o completa no processo de formação da Articulação e de consolidação de uma maioria estável no PT, contraria a qualquer ação que pudesse desestabilizar a Nova Republica (então governada pelo ex-político do Arena, José Sarney).

Da oposição ao governo

Em 1995, Dirceu assume a presidência do PT, cargo que ocuparia novamente em 1997 e 2001. Lidera o processo de modernização conservadora do PT, ou seja, de ampliação das alianças com os partidos da ordem, preparando o PT para se tornar ele mesmo o grande partido da ordem.

Já nas eleições de 1989 o PT havia se aliado com um partido burgues, o PSB. Mas é durante a década de 1990 que esse curso vai se aprofundar, principalmente na gestão de uma série de prefeituras, alargando o caminho de integração do PT a ordem dominante, já iniciado com a conquista da prefeitura de São Paulo por Luíza Erundina em 1988.

Ampliando as alianças a direita e moderando o seu discurso, o PT foi se mostrando um partido confiável, aos olhos das classes dominantes, para governar o país. Em 2002, frente a enorme crise do neoliberalismo e dos tucanos, o PT pode cumprir o papel de defensor da ordem para o qual Dirceu e o campo majoritário de Lula vinham se preparando a mais de uma década.

Ao chegar ao governo, de homem forte da máquina do PT, Dirceu busca transpor este papel para o próprio aparato estatal. Como chefe da Casa Civil, Dirceu completa o segundo ciclo de transformismo. Uma vez ocupando posições chave no estado capitalista, segue o mesmo caminho que muitos outros dirigentes do PT, sindicalistas ou ex-guerrilheiros. Passam a ser os administradores dos fundos de pensão e os controladores da verba estatal, fundamentais para o capitalismo brasileiro. Nesta posição Dirceu se utiliza das supostas consultorias a empresários para se enriquecer e acumular milhões. Da luta contra a ditadura, passando por cumprir um papel chave no processo de moderação do PT, Dirceu apostava em acumular seu próprio capital e não só ideologicamente, mas materialmente se transformar em um capitalista.

A burguesia não o aceitou como um dos seus

Neste sentido, é irônico o destino de Dirceu. Cumpriu um grande papel histórico para a manutenção da ordem burguesa ao ajudar, a cada passo da sua história desde a transição, a enquadrar o PT e transformá-lo num partido funcional aos capitalistas. Agora, a mesma burguesia que Dirceu tanto ajudou, o joga na cadeia de novo. Culpado não de lutar contra a ditadura, mas de utilizar em beneficio próprio os mesmos mecanismos que a própria burguesia se utiliza.

A segunda prisão de Dirceu acaba cumprindo um grande papel para as classes dominantes. Serve para enfraquecer ainda mais o PT nas atuais disputas ministeriais em que esse partido deve ceder mais espaço ao PMDB e serve também para tentar desprestigiar a figura de Lula, na medida em que Dirceu vem sendo apontado pela grande mídia como o homem forte de Lula. Serve também a um interesse ideológico mais profundo. Identificar Dirceu ao socialismo e com a esquerda, para desprestigiar as próprias ideias. A verdade é que há muito tempo Dirceu abandonou seus ideais revolucionários, mesmo que equivocados, para se converter em um arquiteto da ordem capitalista, que agora é renegado pelos próprios capitalistas.

Foto: Marcello Casal/ Agência Brasil

Revisado as 15:52 do dia 8 de agosto de 2015




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