Política

PREFEITURA DE SÃO PAULO

Por que Haddad e o PT não são uma alternativa para combater a direita? 10 argumentos.

Conheça os motivos pelos quais Haddad não configura uma alternativa à direita.

Diana Assunção

São Paulo | @dianaassuncaoED

terça-feira 20 de setembro| Edição do dia

O prefeito de São Paulo Fernando Haddad míngua nas pesquisas eleitorais apesar de conseguir angariar importantes fundos de empresários para sua campanha. Na juventude, a decepção com a principal aposta do PT nessas eleições é um pouco menor do que no restante da população. Já discorremos por que chamamos a população de SP a não votar nos reacionários candidatos da direita, como Dória, Russomanno e a golpista Marta Suplicy (para não mencionar a aberração repressiva que é Major Olímpio). Mostraremos nesse artigo como Haddad e o PT não são uma alternativa à direita, como toda a ideia de “mal menor” ajuda na verdade a direita. Para realmente se enfrentar com os empresários, com os golpistas, é necessário superar os limites colocados pelo PT.

Haddad e o PT fizeram uma gestão toda pautada pela continuação ou mesmo aumento da privatização da saúde e educação via OS’s. Em momentos decisivos como junho de 2013 e frente ao golpe institucional posicionou-se de forma muito parecida a Alckmin ou senão optou pelo silêncio. Foi um governo todo à direita, e ao sabor do aceitável aos empresários. Agora empreende um giro discursivo que demonstraremos seus pés de barro com a intenção de fortalecermos ideias realmente de esquerda, ou seja ideias anticapitalistas, que possam servir para colocar nas ruas a força da classe trabalhadora. Deixamos indicado aqui o programa pelo qual batalhamos nessa campanha eleitoral.

1- Combate ao golpe institucional quando convém aos interesses eleitorais

Na pré-campanha quando ainda almejava angariar parte dos votos paulistanos que apoiaram o impeachment, Haddad foi bastante claro em entrevista em negar que o ocorria no país era um golpe, para ele se tratava “de palavra muito dura” Depois com o andar do processo eleitoral exprimido entre Marta e Russomano que seguem conseguindo apoio na tradicional base eleitoral petista na periferia e dividindo o voto “progressista” com Erundina passou a falar que “é golpe, porra”.

Não só passou a falar como mudou todo seu eixo de campanha e agenda eleitoral para estar presente em manifestações.

Quando se tratava da possibilidade de um combate real para impedir esse sequestro do voto de milhões olhava para o lado. Agora tenta se relocalizar. Antes e agora, move-se não por impedir um retrocesso na super-limitada e corrupta “democracia dos ricos” que temos no país. Move-se por cálculos pragmáticos e eleitorais.

2- Discursando contra a direita, abraçado e aliado a ela

Haddad concorre à reeleição tendo Chalita agora no PDT como seu vice. Se destaca em sua chapa também a presença do PCdoB. Mas não é só de “centro-esquerda” que se faz sua chapa. Nela estão também o PROS e PR. Quem votar num vereador do PT estará votando em um partido ligado à bancada BBB como é o PR. Tanto o PR como o PROS em sua maioria votaram a favor do impeachment na Câmara e no Senado. Até pouco tempo atrás, ninguém menos que o rei da soja, o latifundiário Blairo Maggi atual ministro da Agricultura era do PR, até trocar seu partido pelo PP de Maluf, antigo aliado de Haddad em 2012. Mas mesmo com a troca o PR foi agraciado no governo golpista com um ministro, Maurício Quintella nos Transportes. O PROS, partido de Ciro Gomes, é também o partido de Eros Biondini, das notas frias, secretário do tucano Anastasia em Minas.

Um discurso contra a direita, abraçando-se com ela: conciliar interesses só pavimenta o caminho da direita, como vimos em todos os últimos anos que o PT foi cedendo lugar a Feliciano, à bancada BBB, aos empresários; deu no resultado que todos vimos. Insatisfeitos com os ataques que o PT já promovia, a direita quis um governo “seu” para avançar mais rápido contra os direitos da classe trabalhadora.

3- Aliado à bancada BBB, concedendo privilégios às igrejas

Essa ligação de Fernando Haddad e do PT com a bancada BBB significa importantes privilégios e negócios para as empresas ligadas a esses partidos. Segundo levantamento da Folha de São Paulo , a prefeitura deixa de arrecadar R$ 111 milhões por ano de IPTU desses imóveis.

Além dos fartos benefícios da sempre favorecida Igreja Católica, Haddad confere altos privilégios à Igreja Universal que, apesar de apoiar Celso Russomanno, possui parte da bancada evangélica do PR apoiando Haddad. Os templos de Salomão são templos da isenção de impostos. Dinheiro que poderia sustentar dezenas de creches e escolas públicas todo ano.

4 – Candidatura financiada pelos empresários, sobretudo os tubarões do ensino privado

Haddad, apesar da má avaliação nas pesquisas é um dos líderes de arrecadação nas campanhas. Figuram como grandes doadores de sua campanha os donos e familiares das construtoras Cyrella, Rossi Nobre, Cury, todos beneficiários da alteração no Plano Diretor que Haddad sancionou em março desse ano e que permite construções até 8% maiores do que o previsto na legislação anterior, um ótimo negócio, mas onde importa pouco as consequências no trânsito, adensamento dos locais onde as construtoras privilegiam isso, são negócios, e como tal são retribuídos em doações.

Mas o que mais se destaca no cartel de empresários que o apoiam estão os empresários da educação privada, como o duas vezes ministro de Lula, Walfrido Mares Guia, acionista do conglomerado da maior universidade privada do mundo Kroton-Anhanguera. No plantel de doadores figura no topo com mais de 300 mil reais doados (segundo dados do TSE, acessíveis aqui); outra figurona da educação privada, Angela de Freitas, do Conselho de Administração da Anhanguera (do mesmo grupo Kroton) também doou mais de cem mil reais.

Os tubarões do ensino privado, que não hesitam em demitir professores quando abaixam seus lucros, fechar cursos e precarizar a qualidade do ensino aplaudem e financiam o “seu” ex-Ministro da Educação. Responsável pela expansão do ensino superior no país, Haddad o fez em chave privatizante com recursos muito superiores sendo alocados ao Prouni para garantir lucros aos empresários do que o que era colocado nas universidades públicas, que sofreram uma expansão precária. O grupo Kroton sabe quem lhe ajudou em seus lucros e retribui com o pesado investimento.

5- Candidato progressista ou da repressão em junho de 2013 e da GCM do gatilho solto?

Haddad não hesitou em taxar os manifestantes que foram às ruas em junho de 2013 de terroristas e outros libelos dignos do tucanato. Anos depois, tendo que girar sua base de apoio ao progressismo tenta mostrar-se o prefeito do "diálogo com os movimentos sociais".

Mas o diálogo não é o forte de um importante órgão de repressão sob seu mando. A Guarda Civil Metropolitana envolveu-se em numerosos escândalos esse ano. Primeiro por retirar cobertores de pessoas em situação de rua, deixando morrer de frio. Haddad depois tentou se explicar que a ordem não era tirar cobertores, “somente” as camas. Não à toa há movimentos que o criticam com uma pecha nada de “esquerda”: higienista.

Outro escândalo da GCM de Haddad, este também mortal, foi ter matado o menino Wladik Chagas na Cidade Tiradentes.
Com um “mal menor” assim, abre-se espaço ou não para a bancada da bala, ou ao menos para a hegemonia do discurso de “segurança” do Cidade Alerta?

6- Hoje Haddad fala em nenhum direito a menos, mas tentou atacar as aposentadorias do funcionalismo municipal

Em seu giro para tornar-se “combatente ao golpe” e promover-se em atos contra o governo Temer e sua proposta de retirada de direitos dos trabalhadores, Haddad esconde como tentou aprovar uma versão municipal dos ataques a aposentadoria. Recuou de seu projeto após mobilização de professores municipais, e provavelmente alguém lhe assessorar que isso não seria um bom marketing em ano eleitoral. Pela proposta que estava em tramitação na Câmara Municipal seria criado um teto para as aposentadorias bem como um fundo privado para “complementar” as aposentadorias, o SampaPrev, trazendo para a prefeitura sob mando petista as inovações tucanas nas aposentadorias.

Na saúde, os médicos do município denunciam que estão a dois anos sem reajustes.

"Nenhum direito a menos" (na TV e no palanque, ao menos).

7- "Nenhum direito a menos", mas também nenhuma privatização a menos na saúde e educação

Haddad prometeu um cuidado especial com as mulheres trabalhadoras, centenas de creches. Era tempo que Dilma também colocava no centro de seu programa esta promessa. A realidade de hoje são creches sendo fechadas conforme terminam os contratos com as OSs, forma de privatização. Recentemente 7 creches foram fechadas na Zona Leste da cidade sem sequer ocorrer um aviso prévio às famílias. Ao menos 64% dos CEI – Centros de Educação Infantil - são hoje administrados por OSs (parcerias privadas das quais Haddad se orgulhou nos debates televisivos, chegando a dizer que sem a iniciativa privada não seria possível abrir "tantos" hospitais, creches e escolas).

Na saúde temos o mesmo quadro: as UBSs e AMAs também são em sua amplíssima maioria administrada por OSs, e é visível que o número de instalações com administração privada aumentou e não estacionou ou diminuiu nos anos do PT no governo.

Com isso submete-se o direito da população à saúde e educação aos interesses privados de lucro, os trabalhadores da saúde a piores condições de saúde e trabalho.

8- Seu grande feito de gestão não lhe dará fotos, salvo se o FMI votasse

O grande feito de gestão de Haddad foi melhorar a avaliação do perfil da dívida da cidade. Seguindo à risca a neoliberal Lei de Responsabilidade Fiscal, e tendo conseguido renegociar parte da dívida com a União, pode melhorar a nota na avaliação da agência Fitch Ratings, e outras agências de avaliação de risco.
Esse feito, neoliberal, analisado por jornalistas também críticos ao golpe institucional mas menos críticos ao PT do que o Esquerda Diário, como foi o caso de Luis Nassif, ilustram mais uma vez o paradoxo de Haddad, governou de forma tão tucana e agora em meio aos 45 dias finais de campanha tenta reestruturar todo seu discurso. Tem pouco a oferecer, salvo se o FMI e a Fitch Ratings junto ao grupo Kroton votassem.

9- O prefeito da mobilidade foi antes de mais nada, da mobilidade para o lucro dos empresários do transporte

Haddad é muito conhecido por medidas no transporte e na mobilidade urbana. Das polêmicas e reivindicadas ciclofaixas e redução da velocidade em vias importantes. Também seguiu aumentando o número de faixas exclusivas. Essas medidas todas, sem enfrentar os lucros dos empresários e questionar a lógica com que são distribuídas as linhas e todo serviço de transporte leva ano a ano os paulistanos a gastarem mais tempo no trânsito. Ontem saiu pesquisa indicando que o paulistano médio gasta mais de 3horas por dia no trânsito. Um aumento de quase 30 minutos em relação ao ano anterior.

Sem questionar os lucros dos empresários essas medidas só nos fazem nos apertarmos em menos ônibus e ficar mais tempo no trânsito e esperando o transporte. Mas o que nunca esperou em sua gestão foram os lucros dos empresários. Haddad aumentou os subsídios das empresas de ônibus em 150% em 4 anos, muito acima da inflação.

10- O Mal menor abre espaço, passo a passo, para a direita

Muitas dessas críticas que fazemos aqui sabemos que uma parcela dos votantes de Haddad também fazem. Estão propensos a ir às urnas votarem nele por que acham que esta é a maneira de impedir que alguém mais à direita assuma a prefeitura da maior cidade do país.

Precisamos lembrar um pouco da história dos últimos anos todos para concluir como essa lógica, do mal menor, leva sempre à direita. Leva a abrir mão de defender o que realmente defendemos, organizar as forças anticapitalistas para enfrentar a direita e os empresários. Quantas vezes vimos em São Paulo o PT apoiar os tucanos contra Maluf, como mal menor. Depois vimos as alianças com a direita em nome da governabilidade, a tentativa de lotear a presidência de Dilma Rousseff, como mal menor, para salvar o mandato. Ofertas aos senadores com a mesma intenção. Qual foi o resultado? E agora a eleição de Rodrigo Maia do DEM para a presidência da Câmara - apoiado pelo PT - resulta em um mal menor do ponto de vista do que ele defende?

É preciso organizar a resistência à direita e seus ataques aos direitos dos trabalhadores. Isso exige completa independência do PT. O PT abriu espaço para a direita, com os ataques que promoveu, por assumir os métodos mais corruptos de todos partidos capitalistas do país. Isso se faz combatendo a lógica do mal menor para erguer a intransigente defesa dos direitos dos trabalhadores na cidade, e fazendo o que Haddad não quis nem poderia fazer, organizando a luta dos trabalhadores e da juventude em cada local de trabalho e estudo.




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