Papa Francisco passa pela pior crise interna em seus cinco anos de papado

A guerra interna na Igreja Católica está longe de chegar ao fim. Os setores ultraconservadores impulsionam uma ofensiva contra o Papa, motivados pelo avanço de grupos de ultradireita nos EUA e Europa.

quarta-feira 5 de setembro| Edição do dia

A acusação do arcebispo Viganò, ex-núncio (representante diplomático do Vaticano) em Washington entre 2011 e 2016, contra Bergoglio por “cobrir” e silenciar os abusos do cardeal estadunidense Theodore McCarrick segue gerando repercussões dentro e fora da Igreja.

O ex-núncio deixou publica sua carta contra o atual pontífice justamente quando o Papa visitava a Irlanda, uma viagem onde as vítimas de abusos denunciaram a inação da Igreja contra os padres abusadores.

Bergoglio trata de baixar o tom da denúncia. “A verdade é temperada, a verdade é silenciosa e não faz ruído”, disse na missa matutina que celebrou na capela de Casa Santa Marta. “Com as pessoas que não tem boa vontade, que buscam apenas o escândalo, que buscam somente a divisão, que buscam somente a destruição, também nas famílias (o que devem fazer é), silêncio e oração” agregou.

Mas enquanto o Papa pede para manter “silêncio”, setores da Igreja a favor e contra ele se pronunciam sobre o tema. Bispos da Argentina e o chefe do Conselho Episcopal Latino-Americano saíram em defesa de Bergoglio. Já setores da Igreja estadunidense levaram em conta a acusação de Viganò.

Acusados e acusadores, todos fazem parte de um esquema de encobrimento

. A acusação feita pelo ex-núncio não está apoiada em provas concretas, mas o inquietante é que parece plausível levando em conta a postura do Papa Francisco em casos similares e o histórico das autoridades eclesiásticas.

O entrelaçamento de encobrimento, cumplicidade e impunidade relacionados com os casos de abusos de menores por parte de membros da Igreja Católica, saem a luz em vários países diariamente, incluindo até as mais altas autoridades e o Vaticano.

Juliano Maradeo, autor do livro A trama por trás dos abusos e delitos sexuais na Igreja Católica, explica numa entrevista no Círculo Rojo que existe na Igreja um sistema de encobrimento que “tem duas patas”: uma é a transferência geográfica dos Padres cada vez que se identificava um caso de abuso. O outro é, o que o Comitê de Direitos das Crianças da ONU denominou como lei do silêncio”. Esse silêncio dos casos de abuso operava “sobre as crianças abusadas e os Padres que se encorajava a denunciar os abusos.

O jornal inglês The Guardian revelou em 2009 que o representante do Vaticano diante do Comitê dos Direitos da Criança da ONU, numa tentativa de amenizar o escândalo pelos casos de abuso, assegurou que entre 1,5% e 5% do clero católico participou de abusos sexuais. Maradeo em seu livro afirma que “se a comunidade religiosa da Igreja Católica, Apostólica e Romana alcança por volta de 440 mil pessoas, os envolvidos em situações de pedofilia oscilam entre 6.600 e 22.000”.

Bergoglio não está desinformado desse cenário chocante. Pelo contrário, tem se colocado publicamente em defesa de membros da Igreja chilena acusados de encobrimento, para dar apenas um exemplo. Aqueles que o atacam também tem sua cota de responsabilidade nesses casos que ficaram silenciados durante anos.

A ofensiva ultraconservadora

O Arcebispo Viganò não é movido por nenhum espírito altruísta, nem repentinamente decidiu limpar-se de seus pecados. Viganò é parte da ala do Vaticano reconhecida por suas posições contra o divórcio e a homossexualidade, foi protagonista nas primeiras notícias de Vatileaks que culminaram com a “jubilação” do anterior Papa Benedito XVI.

O ex-núncio e o setor da cúria a que pertence detém relações com organizações da ultra direita estadunidense. Em fevereiro de 2017, o jornal The New York Times detectou que o ex-chefe de conselheiros do presidente Trump, Steve Bannon, buscava organizar os prelados ultraconservadores contrários às posições de Francisco. Para este setor, relacionado ao ultraconservador Tea Party, a fração fundamentalista do Partido Republicano, é preciso uma força religiosa cristã tradicional para deter a expansão do Islã, não é uma surpresa que defendam a políticas islamofóbicas de Trump e reivindiquem a ultradireita europeia, além de coincidir na homofobia, rechaço ao aborto e a pela defesa da família tradicional.

Estes setores identificam Bergoglio como um ‘inimigo” por sua política que acompanhou a administração de Barack Obama, que no marco da crise da ordem neoliberal e da decadência hegemônica dos EUA, aplicou uma política “menos agressiva” para impor as condições imperiais a fim de manter o status quo global. O papel político jogado pelo Vaticano na normalização das relações entre Estados Unidos e Cuba, tão celebrado por setores do populismo latino americano - no caso do Brasil os grupos petistas - coincidiu com a busca de um novo caminho, em busca do avanço da restauração capitalista na ilha, encarada pelo governo norte americano.

Não é casual que a acusação envolvesse Bergoglio com o cardinal McCarrick. Sua relação não foi circunstancial. O estadunidense se transformou em um conselheiro destacado do Papa e elo fundamental para a muito boa relação que estabeleceu Francisco com a administração Obama, um dos grandes êxitos que permitiu a relocalização do Vaticano na esfera geopolítica mundial.

Uma guerra que escancara a crise moral da Igreja.

Marcelo Larraquy, autor de dois livros sobre a chegada de Francisco ao Vaticano, Rezem por ele (2013) e Código Francisco (2016), aponta que a crise da Igreja foi e está marcada por duas questões centrais: a crise moral de valores cristãos que proclama, enfraquecidos pelas contínuas denúncias contra padres pedófilos e seus encobridores - crise moral que potenciou o crescimento das igrejas evangélicas em regiões como a América Latina - e os inumeráveis casos de corrupção.

Bergoglio buscou, desde seu nomeamento como Papa, retomar “a missão evangelizadora” que marcou parte do papado de Juan Pablo II, porém agora o centro do discurso papal é focado no “social” e na “igualdade” diante da crescente desigualdade produto da crise capitalista, para que dessa maneira recupere uma parte da autoridade da Igreja.

O Papa Francisco chegou a recuperar por alguns anos parte dessa “autoridade moral’, questão que foi facilitada por setores que reivindicaram o perfil reformador e social do papado. Porém, o certo é que sua defesa a todo custo da doutrina eclesiástica e as cruzadas reacionárias em defesa da moral da sociedade se somaram aos cada vez mais notórios casos de encobrimentos de padres pedófilos voltando a colocar em xeque a autoridade do Vaticano e da Igreja.

Enquanto Bergoglio e um setor da autoridade eclesiástica buscam sair desta guerra interna com o menor dano possível, os enfrentamentos atuais voltaram a colocar sob a vista do mundo, o caráter reacionário e a podridão desta instituição.




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