Teoria

A CRISE DE 2008

O significado de uma inflexão: crises, guerras e revoluções

Este texto é o 4º como parte de uma série de notas que publicaremos neste portal com o intuito de pensar as transformações no capitalismo a partir da crise de 2008, refletindo seu alcance no âmbito econômico, geopolítico, social e político como parte da pergunta sobre qual a feição do capitalismo pós-crise.

Iuri Tonelo

São Paulo

segunda-feira 5 de junho| Edição do dia

Reflexões sobre o capitalismo pós-crise de 2008: introdução
parte 1: Pensar a crise atual a partir da análise da crise dos 1970
parte 2: A crise atual e o velho fantasma neoliberal
parte 3: As ideias do passado e o capitalismo do presente

Na fase atual do capitalismo, na qual o capital financeiro é predominante e hegemoniza a dinâmica na economia mundial, as crises não podem seguir um processo cíclico que rompa elementos não harmônicos na economia e restaure o equilíbrio anterior. A contradição entre elementos econômicos, políticos e sociais atingem de tempos em tempos cumes que desestabilizam a dinâmica capitalista, às vezes de uma maneira abrupta. Como dizia Marx, a sociedade capitalista assemelha-se a um feiticeiro que já não pode controlar os poderes infernais que ele mesmo invocou. E quando atinge esses “cumes”, picos, auges de crise, provoca-se uma transformação abrupta. Nesse sentido, vem a pergunta: qual o significado para o capitalismo em seu conjunto, para toda uma etapa ou fase, de uma grande inflexão, como a da crise de 2008?

Pensar nessa questão é refletir os distintos elementos dentro da dinâmica e metabolismo do capital que configuram um processo de inflexão. Mais que isso, aqui queremos frisar as transformações subjetivas que nascem desses grandes processos, já que a grande contradição cada vez mais escancarada na realidade do capitalismo atual é o imenso avanço dos aspectos objetivos da “falência” desse sistema, em paralelo à enorme debilidade subjetiva de questionamento, resistência e proposta transformadora e revolucionária de superar a sociedade do capital.

Fatalmente o momento mais avassalador de uma ruptura com toda a estrutura social vigente é o processo de uma revolução. O impacto que pode causar à passagem de uma classe a outra do poder de Estado e a mudança de todo o regime social tem consequências e um significado sem paralelos no desenvolvimento histórico. Tanto é assim, que mesmo processos que não terminam de assumir a configuração completa de uma revolução social consolidada, como foi o caso da gloriosa Comuna de Paris, produzem também grandes efeitos apenas pelo que se simboliza em sua tentativa.

A insurreição na capital francesa em 1871 marcou um importante divisor de águas na realidade das lutas dos trabalhadores. Além de ser a primeira experiência de insurreição proletária, brindada por Marx e Engels com enorme entusiasmo, também serviu como objeto de análise da experiência pelos dois fundadores do socialismo científico que os levaram a forjar bases da reflexão sobre a forma da transição revolucionária para o socialismo a partir da ação dos trabalhadores:

A classe operária não esperou milagres da Comuna. Ela não tem utopias prontas a introduzir par décret du peuple [por decreto do povo – francês]. Sabe que para realizar a sua própria emancipação e com ela essa forma superior para a qual tende irresistivelmente a sociedade presente pela sua própria atividade econômica – terá de passar por longas lutas, por uma série de processos históricos que transformam circunstâncias e homens. Não tem de realizar ideais, mas libertar os elementos da sociedade nova de que está grávida a própria velha sociedade burguesa em colapso (MARX, 2008, p. 408)

A insurreição e a derrota marcaram a história do século XIX e a própria evolução do sistema: mostraram à classe operária seu potencial revolucionário, evidenciando a capacidade de desvelar a arcaica estrutura da sociedade burguesa e o potencial de conduzi-la em alguns golpes ao destino dos livros de história. Mas também mostrou que esse processo seria tortuoso, que a burguesia, particularmente no final de seu ascenso econômico e na época imperialista, estaria disposta a tudo contra a classe trabalhadora.

Precisamente analisando esse processo queremos chamar a atenção para um emblema do significado dessa grande ruptura em sua dimensão subjetiva. É conhecida a história das chamadas pretoleuses [incendiárias], mulheres que tinham um papel de vanguarda na comuna por incendiar em resistência prédios que seriam atacados, e que morreram lutando ou presas até as últimas forças na Comuna de Paris. Simbolizam no século XIX o que existia de mais odioso para sociedade burguesa: mulheres, insurgentes, à frente de uma causa social da massa trabalhadora...mulheres como sujeitos políticos contra a “normalidade” capitalista. Os seus esforços não puderam levar a vitória da Comuna, mas marcaram profundamente a história – sei prêmio foi ganhar uma grande campanha de difamação da imprensa burguesa para evitar sua influência apaixonante.

O jovem poeta Arthur Rimbaud, um dos nomes mais expressivos da poesia francesa do século XIX, então com 16 anos no ano da Comuna, foi inviabilizado de participar do grande acontecimento, pois sem dinheiro e com pouca idade, foi detido e impedido de chegar a Paris, sendo enviado de volta para sua cidade. Assim que ao final do ano de 1871, datando do segundo mês de 1872, Rimbaud escreve uma das pérolas da poesia internacional, emblema da grande transformação da Comuna, fazendo uma ode às mulheres combatentes da Comuna, no intitulado As Mãos de Jeanne Marie [1]:

“(...)
Mãos que não são de mimos;
De operária em fundição,
Que acende, ao calor da usina,
Um sol ébrio de alcatrão.
São mãos que se amoldam fáceis
E a ninguém fazem mal.
São mãos fatais como máquinas,
Mais fortes que um animal!
Como fornalhas acesas,
Fazem arder corações.
Sempre entoam Marselhesas,
E nunca rezam orações!
Vosso pescoço, madames,
Apertarão até o fim!
Senhoras de mãos infames
Lambuzadas de carm”in
(...)

As mãos das operárias é delicadamente matéria da poesia do simbolismo revolucionário de Rimbaud. Se antes a literatura frisava a luta já no interior da aristocracia pela liberação da mulher do jugo familiar, e seus pequenos gestos revolucionários no interior da dominação social, agora as operárias aparecem como as atrizes do curso histórico e da plenitude poética, não como heroínas ou mártires, mas na íntima poesia de sua luta.

Comovem-se encantadoras
Ao sol de amor carregado;
Ao som de metralhadoras
Através Paris sublevada! (RIMBAUD)

A história se repetiria 46 anos depois na Rússia, quando as operárias do setor têxtil em fevereiro, no dia internacional da mulher, começariam as mobilizações que, em cinco dias, varreriam o czarismo e marcariam a primeira revolução de 1917, que em Outubro terminaria com o poder dos trabalhadores e o início da transição socialista, sendo o impacto revolucionário de Outubro de 1917 na história do século XX incomensuravelmente maior de todos os pontos de vista.

Mas não apenas nos processos de lutas, levantes, revoluções e insurreições que tem um impacto decisivo positivo no curso histórico; por seu lado catastrófico e barbarizador, as guerras também podem imprimir também grande efeito, mas dessa vez retrógrado, chegando alcançar inclusive um envolvimento mundial.

É sabido os impactos que a Segunda Guerra Mundial geraram no conjunto da história do século XX, terminando por fortalecer a hegemonia norteamericana e a burocracia soviética, consumando um mundo de pacto de Yalta e Postdam e da Guerra Fria, que teve consequências em distintas esferas sociais e políticas da segunda metade do século XX. Por sua vez, a Primeira Guerra Mundial também gerou efeitos impressionantes e transformou completamente a forma de pensar. A guerra também se apresentou como elemento disruptivo do curso histórico, levando as mais cruéis formas de barbárie à humanidade.

Do ponto de vista das ideias, podemos dizer que a máxima de Lenin de “transformar a guerra imperialista em guerra civil” foi expressão de um dos mais expressivos giros subjetivos do pensamento, enxergando a guerra como a parteira da revolução, convertendo os horrores da guerra em seu contrário, o despertar de uma revolução.

Mas para dar outra ilustração menos imediata e ligada ao pensamento revolucionário, poderíamos citar o caso do desenvolvimento da psicanálise e os efeitos da guerra como elemento modelador de uma “nova forma de pensar”. Ao primeiro momento, poder-se-ia dizer que o efeito material que a guerra gerou na psicanálise foi devastador. Freud escreveu a Ernest Jones, numa melancólica carta de natal em 1916,

Eu não me iludo: a primavera de nossa ciência foi bruscamente interrompida, estamos nos encaminhando para um período ruim; tudo o que podemos fazer é manter a chama bruxuleando em alguns corações até que um vento mais favorável permita atiça-la novamente. O que Jung e Adler deixaram do movimento agora está perecendo na luta das nações (FREUD, p. 358)

Freud algum tempo depois descrevia todo seu sentimento da guerra e os efeitos contrários ao desenvolvimento da psicanálise quando sintetizou semanas depois que “A ciência dorme”. No entanto, um dos grandes biógrafos de Freud, Peter Gay, argumenta em seu livro sobre o fundador da psicanálise que na realidade os efeitos da guerra teriam sido contraditórios, pois provocaram imensas dificuldades e antinomias na sociedade de psicanálise e no próprio pensamento de Freud, mas que se revelaram um elo para ligar seus estudos sobre o mal-estar dos indivíduos frente a suas privações ao mal-estar da civilização.

Mas o movimento levará a escrever Uma dificuldade da psicanálise em 1917 e depois Novos Caminhos da Teoria Psicanalítica, que já apontam no caminho da modificação do “curso” da psicanálise, observando as histerias não apenas na dimensão individual, mas em sua consequência societal; no começo da década XX, a evolução desse processo leva Freud a escrever Para Além do Princípio do prazer e Psicologia de Massas e a Análise do Eu, que significam um novo passo nesse sentido – daí inclusive onde já começa a ser indissociável aquele primeiro impacto negativo que produziu a Guerra na psicanálise, mas também a influência da Revolução Russa como “esfinge” indecifrável para tal sistema de pensamento. Ainda nos anos 1920, alguns anos depois, suas conclusões levam a que uma virada generalizante e “sociológica” da psicanálise fosse possível. Aqui Freud já apresenta este processo como generalização crítica de “todas as culturas atuais”, quando escreve em seu célebre O Futuro de uma ilusão que:

Se (...) uma cultura não foi além do ponto em que a satisfação de uma parte de seus participantes depende da opressão da outra parte, parte está talvez maior – e este é o caso em todas as culturas atuais -, é compreensível que as pessoas assim oprimidas desenvolvam uma intensa hostilidade para com uma cultura cuja existência elas tornam possível pelo seu trabalho, mas de cuja riqueza não possuem mais do que uma quota mínima. Em tais condições, não é de esperar uma internalização das proibições culturais entre as pessoas oprimidas. Pelo contrário, elas não estão preparadas para reconhecer essas proibições, tem a intenção de destruir a própria cultura e, se possível, até mesmo aniquilar os postulados em que se baseia. A hostilidade dessas classes para com a civilização é tão evidente, que provocou a mais latente hostilidade dos estratos sociais mais passíveis de serem desprezados. Não é preciso dizer que uma civilização que deixa insatisfeito um número tão grande de seus participantes e os impulsiona à revolta, não tem nem merece a perspectiva de uma existência duradoura (FREUD, p. 22)

Ou seja, os efeitos da guerra criaram um curso favorável a inflexão no pensamento de Freud e as consequências da revolução de 1917 terminaram dar subsídios a afirmações como as que descrevemos acima – no presente texto serve como uma amostra do significado subjetivo que uma inflexão histórica, como a barbárie da guerra, pode promover num sistema, que tomado como “sistema” e não como “método”, é essencialmente conservador como a psicanálise – que terá consequências nas análises de Freud na década de 1930, sobretudo quando a partir de analisar os prelúdios da II Guerra Mundial.

Posto esses elementos, seja de inflexões necessárias (como as revoluções) ou irracionais (como as guerras), queríamos retomar os aspectos que a crise econômica também desenvolve no conjunto da subjetividade, na percepção social e na perspectiva histórica. Evidentemente em cada um desses elementos, como uma crise, uma guerra ou um processo revolucionário podemos encontrar distintos níveis de capacidade – no caso de observarmos sob um ângulo global - de provocar efetivas inflexões – de avanço ou retrocesso.

Mas de certa forma a crise é uma espécie de “pedra de toque” nesse tema, pois no geral entrelaça os demais elementos, quando observamos a época imperialista. Já Marx, antes de complexificar muito a análise econômica nos escritos de O Capital, escrevia no Manifesto do Partido Comunista

e de que maneira consegue a burguesia vencer as crises? De um lado pela destruição violenta de grande quantidade de forças produtivas; de outro, pela conquista de novos mercados e pela exploração mais intensa dos antigos. A que leva isso? Ao preparo de crises mais extensas e mais destruidoras e a diminuição dos meios de evitá-las” (MARX, 2010, p.45).

Essa percepção, ainda relativamente modesta na análise da reprodução do sistema capitalista, já continha parte fundamental do segredo da sociedade e do que se generalizaria na fase seguinte, no século XX, com a época imperialista do capitalismo: a pulsão de acumulação do capital levara à concentração e exportação de capitais, criação de grandes monopólios que disputarão mercados em âmbito internacional e, por conseguinte, cada vez mais agudos conflitos interestatais, podendo levar a guerras e ou a instabilidade do sistema, abrindo espaço para revoluções.

Nessa perspectiva, a crise econômica coloca em xeque a estabilidade do sistema (uma estabilidade que se produz a partir de um equilíbrio que inclui elementos econômicos, políticos e sociais); quando se tratou de uma crise histórica, a mais aguda e avassaladora, como a crise de 1929, os resultados nessa escala foram abismais, com revoluções e contrarrevoluções em vários lugares do mundo, com grandes ações operárias e formações políticas reacionárias sem paralelos, como a ascensão do fascismo e nazismo e, por fim e como “coroamento” dessa etapa, o maior conflito bélico mundial da história em 1937-1945.

Mas em se tratando da particularidade da crise econômica e suas consequências subjetivas, queremos exemplificar em retomar o nome que concentrou a mais importante “transformação adaptativa” do pensamento burguês em criar mecanismos para “salvar” o capitalismo, a partir de novas ideias e novos ângulos: trata-se de observar brevemente o prisma de John Maynard Keynes diante da crise.

O sonho do capital e de seus apologistas de uma economia autorregulada em que a dimensão política (estatal), na sociedade de classes, poderia se ausentar o máximo e deixar que o mercado seja regulado pelas seus próprias leis, foi “desmanchado no ar” com os efeitos da crise de 1929. Percebeu-se que não era possível equilibrar uma economia em que o senhor é o capital financeiro, usurpador por essência de mais-valia e, nesse sentido, desregulador de qualquer equilíbrio, um “vampiro”, na metáfora de Marx em O Capital. Quão maior são seus efeitos na sociedade, quão mais significativas serão as contradições gestadas, estando ou não em evidência.

A crise, portanto, teve que promover uma reorientação absolutamente rápida do capitalismo se quisesse sobreviver, pois a ofensiva dos trabalhadores se colocou em evidência e, seja na esfera política (com a emergência de uma organização até militar da direita), seja no plano das ideias, era preciso “um salvador”. Assim descreve Paul Krugman do papel de Keynes:

O que faz da Teoria Geral um caso verdadeiramente único, porém, é que ela conjuga um imponente feito intelectual com uma relevância prática diante de uma crise econômica mundial. O segundo volume da biografia de Keynes de autoria de Robert Skidelsky chama-se o economista como salvador, e não há nenhum exagero nisso

No entanto, o próprio Krugman adverte é que não existia uma solução idealista para as contradições do sistema, ou seja, não seria com alguma nova fórmula da política econômica que se conseguiria resolver os efeitos da crise de 1929, no máximo atenuá-los – o que se já era bastante em se tratando da bancarrota do sistema. Como completa Krugman:

Seria uma história maravilhosa se a Teoria Geral tivesse mostrado ao mundo o caminho para sair da depressão. Infelizmente, para beleza da fábula, não foi bem isso que aconteceu. O programa de obras públicas gigantescas, que instaurou o pleno emprego, também conhecido pelo nome de Segunda Guerra Mundial, foi lançado por razões não relacionadas com a teoria macroeconômica (KRUGMAN, p. 24)

O fato é que Keynes para se tornar “salvador” teve que buscar compreender os elementos de perturbação do sistema, nesse sentido, o que questionava a estabilidade – os efeitos do capital financeiro na economia e as consequências de um giro na política burguesa para adequar esses efeitos. Em uma emblemática passagem no capítulo XVII ele começa o argumento colocando a particularidade do dinheiro em corromper as “forças naturais” e quebrar o ciclo do pleno emprego:

Assim, se os outros bens fossem abandonados a si mesmos, as “forças naturais”, isto é, as forças comuns do mercado, tenderiam a baixar as suas taxas de juro até que o pleno emprego produzisse nas mercadorias, em geral, a inelasticidade da oferta que supusemos como uma característica normal da moeda. Desse modo, à falta de moeda e – que fique bem claro, que pressuposto é também necessário – de qualquer outra mercadoria com as características que atribuímos à moeda, as taxas de juro só chegariam ao equilíbrio em condições de pleno emprego.

E então apresenta sua resposta clássica, resposta que marcou uma virada importante no pensamento econômico burguês:

Isso quer dizer que o desemprego se desenvolve por que as pessoas querem a Lua – os homens não conseguem emprego quando o objeto do seus desejos (isto é, o dinheiro) é uma coisa que não se produz e cuja demanda não pode ser facilmente restringida. Não há outro remédio senão persuadir o público de que a Lua e o queijo são praticamente a mesma coisa, e por a trabalhar numa fábrica de queijo (isto é, um banco central) sob o controle do poder público (KEYNES, p 213)

Não exatamente os homens, mas os capitalistas e sua ganância talvez “querem a Lua”, e necessariamente vão encontrar a crise econômica em sua busca – como disse Krugman, não seria com um giro teórico que se conseguiria uma solução para a crise capitalista, com a enorme destruição das forças produtivas da Segunda Guerra Mundial.

No caso da análise da crise atual, essas contradições “polares” da economia, política e luta de classes nos anos 1930 não se apresentam da mesma forma: o acumulo de contradições da crise dos 1970 até 2008 foram as bases da gestação da crise histórica que vivenciamos, mas justamente as particularidades de toda a etapa histórica anterior a crise marcam o seu caráter muito particular, de Grande Recessão.

2008 marca uma inflexão histórica, objetiva e também subjetivamente: não é a transformação que Rimbaud pode enxergar na Comuna, uma inflexão que tem a classe operária como marca distintiva. E também não é uma inflexão subjetiva que o impacto de uma guerra já promoveu, como exemplificamos nas consequências do pensamento de Freud (e sua descrença das “culturas atuais” até a denúncia do conjunto das contradições da sociedade). E ainda sendo uma crise de dimensão história, essa inflexão também se distingue da crise de 1929, em sua intensidade objetiva e suas consequências subjetivas [2] – uma crise que não produziu um salto na consciência dos trabalhadores imediata e nem poderá produzir uma nova resposta burguesa, um novo “Keynes” é impossível.

De certa forma, a crise atual é rastejante, seus efeitos são perpetuantes e evolutivos, uma crise que insiste teimosamente em persistir em seus impactos graduais e sistemáticos. Do ponto de vista das ideais, da consciência da classe e da formação de novos sistemas de pensamento, seus efeitos também podem se resumir no que Marx escrevia de modo marcante em seu 18 Brumário: “o fantasma dos mortos oprime como um pesadelo o cérebro dos vivos”. Ou seja, podemos falar sobre o significado (alcance) da crise em todos esses anos ou sobre o significado da inflexão de 2008: aqui estamos tratando da complexa característica de uma inflexão profunda e histórica, mas atenuada por um passado que assombra e ofusca as rápidas transformações na consciência .

Antes da ainda mais brusca transformação da consciência da classe trabalhadora e da juventude, podemos dizer que a intelectualidade, para usar a expressão de James Patrick Cannon, “como as folhas de uma árvore são os primeiros a sentir os novos ventos”. Daqui que próprio marxismo foi o primeiro a sofrer os efeitos da crise que, no seu caso, expressaram um novo alento para sua recriação – não em uma resposta prática efetiva, mas em questionar todo o entulho ideológico lançado na noite de 30 anos da restauração capitalista.

Mas além das ideias, e tendo em vista já essa quase década da crise econômica internacional, podemos falar em uma nova etapa do capitalismo?

*

Ver continuação do texto em: http://esquerdadiario.com.br/ideiasdeesquerda/?p=114

Notas

1- Sobre os distintas opiniões sobre a origem do nome Jeanne Marie, o site http://abardel.free.fr/petite_anthologie/les_mains_panorama.htm apresenta um texto com a seguinte visão: “On s’est demandé, bien sûr, si ce nom de "Jeanne-Marie" cachait quelque référence à une personne réelle. Antoine Adam signale dans un livre d’Édith Thomas, Les Pétroleuses (1963), une hypothèse intéressante : une certaine Anne-Marie Menand, dite Jeanne-Marie, fut, après les événements, condamnée à mort pour participation à la Commune, peine d’ailleurs commuée. D’autres ont suggéré que Rimbaud avait pu être inspiré par le procès des Pétroleuses en septembre 1871, ou de Louise Michel le 16 décembre. Certains y ont entendu l’écho de Marianne, symbole de la République. Steve Murphy préfère voir dans ce nom un "symbole collectif" faisant signe, entre autres, vers ces archétypes de la femme héroïque et martyre que furent Jeanne d’Arc et la vierge Marie (op.cit. p.640-643). On s’étonne que personne n’ait attribué le nom de cette héroïne à un jeu d’inversion à partir de Marie-Jeanne, ou Marie-Juana (c’est une blague !)”

2- Sem buscar aprofundar o tema, do ponto de vista do movimento operário, é importante lembrar que a inflexão subjetiva provocada pela crise de 1929 dependeu muito de fatores históricos resultantes da Primeira Guerra Mundial, sem a qual é difícil dizer como discorreria o século: a vitória da revolução russa e o surgimento da União Soviética, em primeiro lugar, que deu origem a partidos comunistas nos principais países capitalistas do ocidente, que influenciou espantosamente uma mudança de “cultura e visão” na classe operária europeia, diante da catástrofe e bancarrota da II Internacional; o surgimento da Internacional Comunista e os processos revolucionários na década de 1920 e a burocratização stalinista pós-1924. Esse pano de fundo permitiu pensar a década de 30.




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