ANÁLISE

O que a aproximação entre Bolsonaro e Centrão nos diz sobre os rumos do governo?

Bolsonaro vem fazendo aproximações sucessivas com o chamado Centrão da câmara após a importante crise aberta com a saída de Sérgio Moro do governo. As aproximações vem no sentido de conquistar uma maioria no congresso buscando evitar um processo de impeachment. Para isso, Bolsonaro, por intercâmbio do General Ramos, lança mão de negociação de cargos e conchavos, método anteriormente condenado por ele como “velha política”.

terça-feira 5 de maio| Edição do dia

Condenada por Bolsonaro durante as eleições de 2018 como “velha política”, a política de conchavos e acordões do executivo com o parlamento (que ficou conhecida como presidencialismo de coalizão, ou de forma popular o “toma lá, dá cá”) agora parece voltar a ser fator para a sustentação do executivo no poder. Cai por terra a demagogia de Bolsonaro que tenta se diferenciar de todo o fisiologismo parlamentar do qual ele fez parte durante quase 3 décadas.

Durante todo o primeiro semestre de 2019, ainda no início do governo Bolsonaro e até vazarem os áudios da VazaJato, muito se discutiu sobre as relações da presidência com a velha casta política que dá as cartas no congresso nacional desde a redemocratização. Não só na grande mídia, mas também entre analistas de esquerda, se aventou a possibilidade de um endurecimento do executivo para cima do congresso, visando impor uma maioria por meio da força. Falava-se sobre a reconfiguração do regime sustentado pelo presidencialismo de coalizão para um novo tipo de presidencialismo, agora de coerção, com a mira da reacionária operação lava Jato apontada para cada um dos congressistas, tendo grande parte deles afundada até o pescoço em escândalos e esquemas de corrupção.

Agora com a Lava Jato na oposição ao governo, com a possibilidade de novas reviravoltas após o depoimento de Moro de mais de 8 horas no último sábado, Bolsonaro precisa se relocalizar se quiser formar uma nova maioria dentro do congresso nacional para se blindar de um processo de impeachment. Bolsonaro se apoia nos inúmeros inimigos que Moro conquistou entre variados setores do Centrão para angariar esse apoio de coalizão, ameaçando até mesmo o poder de Rodrigo Maia dentro do Congresso, que se sustenta sobretudo em uma enorme base heterogênea na qual o Centrão representa a maior parte. Maia agora se vê entre uma encruzilhada: ou dirige a reaproximação do Centrão com o poder executivo afim de cobrar seu preço mais alto posteriormente, como fazia Eduardo Cunha, ou tentar se manter em oposição ao governo e correr o risco de perder base entre os já muitos deputados seduzidos pelas promessas de cargos e verbas de Bolsonaro, inclusive deputados do próprio DEM.

A nova localização do governo entre população e instituições

Chamam atenção as recentes pesquisas de popularidade do governo. Na pesquisa feita pela Ideia Big Data, o percentual de insatisfação com o governo sobe de 34% para 41%. Em outra pesquisa realizada pela XP/Ipespe, o percentual de insatisfação fica ainda maior, passando de 42% na semana de 24 de abril 24 para 49% na do último dia 30.

Ainda que exista uma discrepância importante essa as duas pesquisas, o que há em comum entre elas é o percentual da população que segue considerando governo Bolsonaro ótimo/bom. 28% e 30%, respectivamente entre as pesquisas. Com quase ⅓ de apoio, fica evidente que apesar do desgaste em decorrência da crise pandêmica e a perda de dois ministros populares (Mandetta e Moro), Bolsonaro mantém um importante apoio entre a sociedade, especialmente entre setores mais explorados da classe, como os informais que sofrem o impacto econômico com a política do isolamento social. Por outro lado, nas alturas, além de manter o importante e essencial apoio dos militares para a sustentação do seu governo, Bolsonaro também se relocaliza institucionalmente com a repulsa do Centrão a Moro e a Lava Jato.

A reconfiguração dos próximos dias, como também os embates entre governo e STF, devem apontar para qual sentido caminha a instabilidade política e a nova crise aberta com a saída de Moro. Em meio a essa instabilidade, angariar apoio dentro do Centrão, de forma muito mais contundente do que os militares já vinham fazendo para resguardar alguma influência do governo dentro do congresso, pode significar novos limites para a ofensiva do que chamamos de bonapartismo institucional.




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