Opinião

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Nem o “iluminismo” nem a “humanidade” venceram nos EUA: um debate com Melchionna e o MES

Fernanda Melchionna, deputada federal e candidata à prefeitura de Porto Alegre, declarou recentemente que “Trump foi derrotado pelo George Floyd, pelas mulheres e pela luta nos EUA, não por Biden”. Em outros momentos da campanha, afirmou que “a vitória de Biden seria uma homenagem ao movimento Black Lives Matter”.

terça-feira 10 de novembro| Edição do dia

Luciana Genro, também liderança do MES/PSOL, chegou ao ponto de afirmar que “as luzes venceram” e que as eleições foram uma “vitória do iluminismo sobre as trevas”, ao passo em que os dirigentes do MES, Israel Dutra e Thiago Aguiar, foram além e avaliaram a vitória de Biden como uma “vitória de toda a humanidade”.

Com frases que reduzem a questão a um abstrato conflito entre razão e irracionalidade, a verdade é que o MES se comprometeu, chamando a votar em Biden, com o programa de governo do mais antigo partido imperialista do mundo, os Democratas. Não há um átomo de anti-imperialismo na conduta do MES, nem antes nem depois das eleições. A organização de Fernanda Melchionna, a mesma que até pouco tempo fervorosamente defendeu a Lava-Jato de Sergio Moro, segue o discurso da grande mídia ignorando que o partido de Biden é responsável direto pelo incremento do racismo institucional nos EUA e pelo ciclo de intervenções imperialistas contra os povos do mundo inteiro entre 2008 e 2016.

O legítimo ódio de massas a Trump é transformado pela organização de Melchionna em confiança no Partido Democrata, o das invasões militares, assassinatos por drones e do saque dos povos do mundo. Se há uma lição fundamental do desenvolvimento do movimento operário no século XX é que não há nem pode haver uma política socialista sem uma luta anti-imperialista consequente. O MES o ignora solenemente. Na realidade dos fatos, está apoiando de maneira vergonhosa o governo imperialista de Biden.

As avaliações de Melchionna e das figuras do MES tentam perfumar um ambiente tóxico do começo ao fim, onde não apenas o neoliberal e racista Biden será impelido a governar como um republicano, como também as dezenas de milhões de votos em Trump são incontornáveis.

As eleições norte-americanas, além de boas piadas e memes, mostraram em toda a plenitude o rosto antidemocrático do regime bipartidário imperialista. Demoraram dias para que os resultados saíssem, a liderança do Senado segue incerta enquanto a Georgia reconta seus votos e Trump quase levou, novamente, mesmo perdendo. Centenas de milhares de pessoas não puderam votar na suposta “maior democracia do mundo” pois estão presos, perderam direitos políticos de voto após condenação ou seguem no limbo da xenófoba exclusão imigrante. O sistema eleitoral norte-americano espolia o direito básico do voto de uma camada significativa da população, sabidamente negra e latina em sua maioria. Qual “humanidade” venceu, para o MES?

Trump não está mais na presidência, mas todas as contradições que desencadearam o trumpismo estão agravadas. Como corrente política, o trumpismo segue com fôlego. A enorme “onda azul”, prometida pelas pesquisas eleitorais, morreu na praia e, mesmo após liderar mundialmente o número de mortos pela COVID e afundar o país numa crise econômica imensa, Trump obteve a segunda maior votação da história do país. E isso foi assim porque a política direitista de Biden, em quem o MES confiou seu voto, colheu enorme desconfiança por parte dos setores mais oprimidos nos EUA, como a população negra e latina. Sendo a aposta do establishment para restaurar a legitimidade no autoritário regime político imperialista, a vitória de Biden está longe de representar o “iluminismo, George Floyd, as mulheres, a luta, as luzes ou o Black Lives Matter”, como sugerem as inúmeras declarações de Melchionna e das lideranças do MES, vai governar para o agrado de Wall Street e dos grandes capitalistas. Ao mesmo tempo, o próprio Trump segue como ator político em meio à uma crise econômica, sanitária e social que permanece.

Como afirmou o historiador Vijay Prashad, “o slogan dos democratas é basicamente ’não sou tão ruim quanto Trump’”, pois a agenda do neoliberalismo socialdemocrata está exausta. Para ser mais preciso, como colocou Esteban Mercatante, a agenda de Biden é “a do grande capital combinada com algumas políticas moderadas de viés progressista”. O complexo industrial bélico norte-americano coloca suas asinhas para fora ao passo em que o capital financeiro reformula sua estratégia para seguir explorando os trabalhadores do continente e mundo afora. A vitória de Biden não foi uma vitória da classe trabalhadora e agora temos um outro comandante em chefe do imperialismo norte-americano. Mesmo Glen Greenwald, cujas críticas a Biden recentemente foram censuradas no site criado por ele mesmo, The Intercept, “a percepção da esquerda brasileira sobre Joe Biden está completamente errada” e disse que a extrema-direita e Trump se fortaleceram por causa da política neoliberal fracassada do partido democrata dos 8 anos anteriores, sob gestão Obama.

Melchionna e o MES largam mão de qualquer independência de classe ao celebrar a vitória de Biden. Em sua declaração recente, sequer esboçam uma crítica aos Democratas. Ao associar sua vitória à memória de George Floyd reproduzem um erro grosseiro, digno das análises mais liberais do establishment estadunidense, pois esse é o mesmo Biden que já recomendou publicamente aos policiais a “atirarem na perna e não no peito” dos negros que considera criminosos. O rechaço a Trump não faz de Biden uma alternativa. Biden tem um longo currículo de políticas segregacionistas no Senado desde a década de 1970 e é autor da Crime Bill de 1994, que incrementou a polícia de encarceramento em massa dos negros desde a administração Clinton. Foi parte direta das intervenções imperialistas de Barack Obama no Oriente Médio, sendo o vice do presidente apelidado de “senhor dos drones”, responsável por guerras e intervenções no Iraque, na Síria, na Líbia, no Iêmen, no Afeganistão, lembrado também na América Latina pela legalização dos golpes em Honduras e no Paraguai e por relações amistosas com Michel Temer que lembrou recentemente de seu apoio ao golpe de 2016.

O MES comemora a vitória do partido que criou a Lei dos Três Erros (Three Strikes Law) que ampliou consideravelmente o encarceramento em massa de negros e negras nos EUA. Essa lei, co-escrita por Biden e orgulhosamente cumprida à risca por Kamala Harris quando fora top cop em São Francisco, garante prisão perpétua a pessoas que cometeram alguma infração leve após outros dois crimes. Há casos absolutamente grotescos, como nos mostra o excelente documentário, A 13ª Emenda, onde o cidadão poderá passar o resto de sua vida na cadeia após ter sido pego com uma quantia leve de droga. Isso tudo com outorga e guarida dos dois comandantes em chefe do Império que, diga-se de passagem, concentra 25% dos presos mundiais mesmo tendo 4% da população do globo terrestre. Esse é apenas um exemplo de como os democratas não apenas colaboraram com medidas bárbaras contra negros, imigrantes e pobres em geral, mas lideraram alguns dos principais ataques. São muitos outros exemplos, suficientes inclusive para deixar as “luzes” e o “iluminismo” do MES cobertos de “fogo e fúria” bestais.

Escrevemos recentemente uma polêmica com a posição do MES e da Melchionna sobre o voto em Biden, que pode ser vista aqui. Já nesse texto apontávamos como a política do MES deixava qualquer anti-imperialismo para as calendas gregas. Na ocasião, o MES de Fernanda Melchionna, a partir de texto de Pedro Fuentes, defendeu o voto em Biden como parte das “unidades táticas com forças burguesas e do progressismo” e que “No Brasil e agora nos EUA, por exemplo, sem nos comprometermos com o programa e o futuro governo de Biden (caso ganhe), a ação eleitoral possível é votar por Biden para derrotar Trump”. O partido Democrata, mais antigo partido imperialista do mundo, adquiriu o adjetivo de “progressista” na lógica do MES, mesmo sendo responsáveis por praticamente todas as guerras imperialistas das últimas décadas. Um desprezo pela independência de classe que joga o MES para longe da construção de uma alternativa socialista e revolucionária. É também isso que explica o fato de Melchionna vender em sua campanha a ilusão de que é possível transformar Porto Alegre em um reduto de progressismo em meio ao Brasil de Bolsonaro e do regime do golpe institucional. Daí as tentativas do MES em se aliar ao PT e PCdoB em Porto Alegre, as alianças com a golpista REDE em Cachoeirinha, com os reacionários DEM e PSDB em Caçapava do Sul e com as tantas alianças com partidos burgueses que o PSOL, sob a anuência do MES, leva a frente Brasil afora.

Aí reside, também, a política de impeachment defendida por Melchionna que, diante da barbárie bolsonarista, renega a independência de classe ao confiar nos mecanismos institucionais do regime golpista, em Rodrigo Maia, no Congresso, STF e, evidentemente, em Mourão. Não é de espantar que confiem em tais atores pois, no passado, o MES, principalmente na figura de Luciana Genro, mas também de Melchionna, defendeu fervorosamente a arbitrária e reacionária Lava-Jato de Sergio Moro. O impeachment, objetivamente, troca um jogador por outro, conservando no comando do país o general que defende torturadores. Por isso discutimos que a esquerda precisa de uma política de independência de classe, que passa por erguer a bandeira da Assembleia Constituinte Livre e Soberana, para se enfrentar com o conjunto do regime político do golpe e apresentar um caminho de independência da classe trabalhadora, visando um governo de trabalhadores com ruptura com o capitalismo. Temos que lutar não só contra Bolsonaro, mas também contra Mourão, a direita e os mecanismos de controle do regime que estão arrasando com a vida dos trabalhadores brasileiros.

A saída para a classe trabalhadora, para as mulheres, negros e imigrantes passa pela fúria negra e antirracista que sacudiu o país, nas medidas de solidariedade dos trabalhadores em apoio ao Black Lives Matter, na juventude negra e branca que ocupou as ruas de incontáveis cidades ao longo dos últimos meses para denunciar a violência policial, na organização política da classe trabalhadora. Não passa pelo Partido Democrata. Aí está o caminho para derrotar o trumpismo e também a política imperialista dos EUA, agora sob chefia de Biden.

A esquerda socialista não pode depositar confiança, como fazem Melchionna e o MES, num governo que vai atacar brutalmente os trabalhadores hoje sofrendo com os impactos da crise. Os milhares que estão endividados por conta da COVID no país sem saúde pública seguirão em crise sob a administração Biden. A massa encarcerada, sem direitos políticos, seguirá sendo arrasada pela lei e ordem “Democrata”. Trabalhadores de todo o mundo seguirão sendo explorados pelo grande capital sob comando de Biden. A luta para combater a extrema-direita nos EUA passa, como o Left Voice defende, por fornecer uma perspectiva independente contra os dois partidos do capital, defendendo com nossa luta as demandas democráticas radicais das massas contra o conjunto do regime bipartidário e construindo um partido socialista e revolucionário dos trabalhadores nos EUA. Como afirmou Tatiana Cozzarelli, membro editorial do Left Voice nos EUA, “nosso papel enquanto socialistas é lutar por uma democracia real por meio de um governo dos trabalhadores. Apenas a classe trabalhadora e os mais oprimidos têm o poder de criar isso.” No caminho inverso está o MES, encantado por sua "unidade tática" com imperialistas.




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