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SEMANÁRIO

Com Biden presidente, o império contra-ataca?

Esteban Mercatante

Ilustração: Mar-Ned/Enfoque Rojo

Com Biden presidente, o império contra-ataca?

Esteban Mercatante

Joe Biden venceu a eleição, mas sem a vitória esmagadora projetada pelas pesquisas. Ele enfrentará uma maioria republicana no Senado e governará um país marcado pela polarização. O governo da principal potência imperialista, ao que tudo indica, estará mais absorvido na agenda doméstica do que em intervir nos assuntos mundiais e reivindicar o lugar de liderança a favor do capital mais globalizado com o qual Trump se desentendeu durante sua administração.

Após quatro dias de incerteza, a contagem oficial declarou ontem Joe Biden como presidente eleito, algo que Donald Trump até agora se recusou a reconhecer. Sem a "onda azul" (democrata) que os apoiadores de Biden esperavam, o Senado está quase garantido a permanecer nas mãos dos republicanos. Pode-se antecipar que divisões internas e bloqueio institucional na principal potência imperialista definirão a nova presidência.

Com todas as pesquisas anunciando uma confortável diferença nacional de pelo menos 8 pontos percentuais, os democratas chegaram na terça-feira confiantes de que uma onda azul (a cor dos democratas) pintaria o mapa americano. Eles confiavam em uma vitória decisiva. Tal coisa não ocorreu. Mesmo assim interromperam a tendência de que todo presidente obtém um segundo mandato, o que ocorreu de Clinton em diante.

O mapa de 2020 apresenta modificações mínimas em relação ao de 2016. Trump perdeu vários estados do “Rust Belt” (cinturão da ferrugem), que são aqueles em que a indústria norte-americana conseguiu prosperar até algumas décadas atrás, quando a realocação de empresas para outros países de salário mais barato –ou outros estados dos próprios EUA com menos direitos sindicais– o converteu em um cemitério de fábrica. Estados como Michigan, Wisconsin, Ohio ou Pensilvânia, que historicamente favoreciam os democratas, foram decisivos para o triunfo de Trump em 2016 e agora lhe deram as costas, embora por uma estreita margem de votos. Mas Trump manteve outros estados do Rust Belt, como Ohio, Virgínia Ocidental, Indiana, Iowa e Missouri. Ele também manteve a Flórida e a Carolina do Norte. Biden também pode adicionar a Geórgia, onde se esperava que ganharia o magnata.

Os EUA bicolor com partes das regiões costeiras em azul e um centro (e costas do sudeste) em vermelho –cor republicana– expõe como apesar do “fogo e fúria” que caracterizaram a administração de Trump, os estragos da Covid na questão sanitária e econômica, e a resposta incendiária de Trump às mobilizações contra o racismo e a violência policial que atravessou o país meses atrás, sua base eleitoral não foi abalada como o esperado pela campanha de Biden. O terreno que perdeu em parte de seu eleitorado (como os eleitores brancos) foi confortavelmente recuperado com o avanço em setores do “voto latino” e outros espaços, em uma eleição que atingiu níveis de participação que foram recordes de 66% do eleitorado, os mais altos desde 1900, quando atingiu 73,2%. Em um país onde o voto não é obrigatório, mais de 20 milhões de eleitores aderiram este ano. A noção de que esse aumento do comparecimento favoreceria exclusivamente os democratas foi esmagada. Na votação nacional Biden tem, com o que foi contado até hoje, 4 milhões de votos a mais que Trump; mas o magnata alcançou 10 milhões de votos a mais neste ano do que em 2016.

“Mesmo se Biden vencer, ele governará a América de Trump”, declarou a revista Time [1]. O cientista político Ernesto Calvo recorreu, nesta quarta-feira, para caracterizar o apoio que Trump manteve à metáfora de “cavar com o calcanhar”, “o ato de enterrar os calcanhares dos sapatos no chão para evitar ser deslocado da posição no que se encontra ” [2] Ele acrescentou que a combinação de “quatro anos de imagem negativa e nenhum voto a menos” só seria possível “se houver pelo menos uma fração não trivial de eleitores que preferem Trump como presidente e, por sua vez, têm uma imagem negativa dele”. Se confirmado que 2016 não foi uma anomalia; “Os eleitores que elegeram Trump em 2016 o fizeram porque ele foi o candidato de sua preferência. Não há enganos ou más interpretações, não há confusões ou complacência”.

Entre o magnata com um discurso nacionalista –que se plasmou em uma uma retórica inflamada e poucos resultados palpáveis – e as promessas do candidato democrata Joe Biden, que além de um discurso centrado em “reconciliar” [3] não oferecem nada mais do que um retorno ao neoliberalismo de Clinton e Obama. Como comentou o historiador indiano Vijay Prashad, “o neoliberalismo ‘socialdemocrata’ está completamente exausto, não tem agenda. O slogan dos democratas é basicamente ‘Não sou tão ruim quanto Trump’ ” [4].

Na verdade, seria mais preciso definir que ele tem uma agenda, que é a do grande capital combinada com algumas políticas moderadas de viés progressista, ou seja, uma das duas expressões do que Tariq Ali definiu como “centro extremo”, que por décadas se alternou nos EUA (democratas e republicanos, até o chegada de Trump) e da UE, levando a cabo as políticas neoliberais. A crise neste extremo centro explica tanto Trump como a atratividade de Sanders nas internas democratas, o Brexit na Grã-Bretanha, e o crescimento –agora reduzido– de formações “neo-reformistas” como Syriza ou Podemos. Biden seguidamente buscou na campanha mostrar que nada tinha a ver com as propostas mais progressistas que outros candidatos haviam levantado nas internas democratas, e que era confiável para o capital, prometendo até a continuidade do negócio do petróleo de fracking. Essa plataforma dificilmente poderia ser a base para tentar atrair eleitoralmente amplas maiorias. Não é surpreendente, então, o resultado dividido em uma eleição onde cada candidato obteve votos mais pela rejeição gerada do que pelas políticas que expressa.

Os meses que antecederam as eleições foram marcados por mobilizações massivas em todo o país contra o racismo e a violência policial. Boa parte da juventude mobilizada, da qual parte considerável fazia parte do apoio a Bernie Sanders nas primárias do Partido Democrata, parece não ter acompanhado a decisão de Sanders e alguns de seus partidários de apoiar Biden. Mas a tendência à esquerda nos setores da juventude e nas minorias oprimidas se expressou nas eleições legislativas. A reeleição de Alexandra Ocasio Cortéz, Ilhan Omar, Rashida Tlaib e Ayanna Pressley, a chegada ao parlamento de Cori Bush, uma jovem enfermeira e militante do movimento Black Lives Matter, ou Jamaal Bowman, e Sarah McBride (a primeira senadora trans que venceu com 86 % dos votos em Delaware) marcam esta tendência.

Dada a apertada margem do resultado, desde terça-feira vimos o presidente Trump implementar uma série de iniciativas que já estavam preparadas há meses, mas que teriam sido mais difíceis de realizar com um resultado mais folgado a favor de Biden como o que anunciaram as pesquisas. Nada indica que ele reconhecerá a derrota concedida pela contagem oficial de votos. A incerteza ainda reina e a tensão política pode escalar nas próximas semanas se Trump mantiver essa negação.

Fazer a América paralisada de novo

“Engarrafamento” foi um termo muito repetido esses dias para analisar o cenário que define este resultado eleitoral apertado. [5]. A menos que a contagem dos votos na Geórgia mude o vencedor do Senado, o Senado continuará a ser dominado pelos republicanos, deixando o governo Biden com apenas o controle da Câmara dos Representantes. Nenhum presidente desde George Bush em 1988 começou seu primeiro mandato sem maioria em ambas as casas. Nesse sentido, Biden estará desde o início na mesma situação em que Clinton e Obama se encontram desde o terceiro ano de seus respectivos governos.

Com seu discurso de ignorância e fraude, Trump prepara o terreno para conduzir o Partido Republicano a uma linha de hostilidade contra o governo que poderia bloquear qualquer mudança legislativa. Todavia, ainda é incerto se ainda haverá “trumpismo” sem Trump na presidência. Boa parte da análise política prognosticam com certo unilateralismo que continuará como um movimento político que inclusive poderia ir além do Partido Republicano. Mas a verdade é que, além de Trump, a política obstrucionista dos republicanos, quando tiveram maioria legislativa como opositores a um governo demócrata, foi uma constante nas últimas décadas.

Sem dúvida, a presidência tem ferramentas para tentar mudar um alinhamento férreo da oposição. Poderia fazer com que um senador republicano se desprenda da maioria. Mas também existem incentivos para o contrário. Edward Luce afirma no Financial Times que “Trump pode ter perdido. Mas os republicanos como um todo ganharam a nível nacional” e, dada sua resistência eleitoral, “tão pouco há muitas possibilidades de que os republicanos tratem Trump como uma aberração” [6].

A perspectiva é de paralisia legislativa e voltará a ameaça de que todos os anos terminem com o fantasma de um “fechamento” do governo - ou seja, uma suspensão de quase toda a atividade da administração pública que pode durar semanas - por desentendimentos sobre a dívida e o orçamento (que sempre se resolve com um “consenso” que se consegue com cortes de gastos com saúde, infraestrutura, educação e outros), algo que ocorreu reiteradamente durante o segundo mandato de Obama.

Na opinião de Luce, “o melhor que os democratas podem esperar é uma espécie de triangulação como da era Bill Clinton, na qual Biden consegue incorporar modestas prioridades democratas aos grandes projetos republicanos”. Desta forma que Clinton “aprovou uma lei draconiana de reforma da assistência social, um projeto de lei sobre o crime de ‘três strikes e você está fora’, e adotou a responsabilidade fiscal”. Ele acrescenta que “a esquerda de seu partido raramente era incluída na conversa” [7]. Não surpreende que, sendo uma perspectiva deste tipo hoje bastante provável, Wall Street quase não tenha parado de subir desde terça-feira.

Sem dúvida, há males que vem para o bem, e nestas condições qualquer paralisação da agenda “progressista” que Biden não tem muito entusiasmo em realizar será apresentada como um impedimento dada a relação de forças parlamentar. Inclusive não se pode excluir, como afirma Juan Cruz Ferré, o incentivo de projetos desse teor que terminem travados no Congresso. “Há uma grande expectativa na presidência de Biden, que embora ele não tenha feito concessões como Educação e Saúde, os democratas provavelmente proporão questões que não tendo o total das câmaras os republicanos por fim não vão aprovar, mas cada um dá a sua base o que ela está esperando. Isso é algo usual na história dos Estados Unidos ”.

O problema para Biden, e para todo o regime político, é que o setor que se identifica com a esquerda no Partido Democrata, que apoiou Bernie Sanders nas primárias, teve, como já apontamos, um bom desempenho eleitoral ao aumentar sua presença parlamentar. Esta é uma expressão política um tanto distorcida do notável giro político que vem ocorrendo em amplos setores da juventude, e que se manifestou nas massivas mobilizações dos últimos meses - e que em muitos casos não participaram das eleições - cuja a rejeição do regime bipartidário continuará a se aprofundar com esse curso de acordos pró-empresariais para sustentar a governabilidade.

Cartões postais da decadência

Entre a polarização que a eleição voltou a expressar e a provável paralisia institucional, um governo Biden será quase totalmente absorvido pela agenda doméstica. Qualquer expectativa de um retorno triunfante da “nação indispensável” para se concentrar nas questões mais críticas do capitalismo global - desde os efeitos da crise econômica que ainda não foi deixada para trás como afirmam os otimistas, até a batalha contra o coronavírus - com uma agenda agressiva para revalidar sua liderança e conter as aspirações da China e de outros países, certamente estará enganada.

O que alguns estudiosos definem como o “império informal” norte-americano amparado pela articulação das diversas instituições multilaterais que os Estados Unidos fundaram e dominaram desde sua criação - FMI, Banco Mundial, OMC, G7 ou G20 - sempre dependeram do papel das Secretarias de Estado e do Tesouro, por meio das quais o imperialismo ianque sempre se articulou com os outros as iniciativas tendentes a atingir suas metas. Essa governança, voltada para a defesa dos interesses do capital mais transnacionalizado - não só dos Estados Unidos, mas também do resto do mundo - e ao mesmo tempo garantir a perpetuação da liderança norte-americana, ficou relegada por Trump em favor de políticas de pressão e negociação direta, bilateral, com cada país. Além do desdém do magnata à articulação de alianças nas quais os Estados Unidos se apoiam desde o fim da Segunda Guerra Mundial para dar ao seu domínio uma aparência hegemônica por meio dessa articulação, o giro foi fundamentalmente em resposta a um fato fundamental, que evidencia o retrocesso que vem sofrendo há muito tempo o poder norte-americano frente a outras potências. Continua a ser a principal potência imperialista, mas com um poder cada vez mais desafiado, empantanado no Oriente Médio desde os ataques de Bush e incapaz de parar a China. Biden se propõe a enfrentar esses desafios revertendo para uma agenda "multilateral". Mas absorvido como estará por disputas internas, dificilmente poderá mudar o curso de retrocesso.

O impasse político pode em parte limitar a reorientação da política externa em direção a definições mais alinhadas com o que era até 2016, onde Biden pode querer mostrar mudanças simbólicas importantes em relação a Trump.

[ Biden] poderia voltar a aderir ao acordo de Paris sobre mudanças climáticas. Mas não pode obrigar um Senado republicano a financiar energia alternativa. Ele poderia voltar à Organização Mundial da Saúde, mas precisaria de McConnell [líder republicano do Senado] para autorizar o financiamento dos EUA para a organização. Poderia trazer os EUA de volta ao acordo nuclear com o Irã, mas quaisquer mudanças teriam de ser aprovadas pelo Senado dos Estados Unidos. [8]

Aliados e adversários da –ainda– principal potência imperialista, observaram com perplexidade –e uma boa dose de deleite– como o país que “exportou” a sua democracia durante décadas, só conseguiu oficializar o vencedor das eleições quatro dias após a eleição, enquanto o atual mandatário não dá sinais de acatar um resultado que não o favorece. Se as condições para a liderança norte-americana se deterioram há muito tempo por questões objetivas e pelos retrocessos da política imperialista - e os giros de Trump - nas circunstâncias em que poderia ocorrer a chegada de Biden ao poder, qualquer retorno à normalidade como que ambicionam os estrategistas geopolíticos mais proeminentes dos EUA parece muito fora do alcance. As cenas de confusão e divisões exibidas pela classe dominante norte-americana são uma clara demonstração de decadência do principal fiador e defensor da opressão capitalista em todo o mundo. Este é um elemento de primeira ordem a ser levado em consideração pelos povos oprimidos de todo o mundo.

Tradução: Raffaele Stasi.

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FOOTNOTES

[1“Even If Joe Biden Wins, He Will Govern in Donald Trump’s America”, 4/11/2020

[2Ernesto Calvo, “Dig in your heels” Agenda pública. Web de El País, 4/11/2020.

[3“desengrietar” em espanhol, NdT

[4Mesa redonda sobre as eleições nos EUA: sob a sombra do trumpismo, disponível aqui

[6Edward Luce, “US gridlock: ‘Biden will have one hand tied behind his back from the start’”

[7Idem

[8Idem
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