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Eleições 2022 | Muito além de falha no app: suspensão de prévias do PSDB expõe fratura interna do ninho tucano

Ontem (21/11) ocorreram as prévias do PSDB para decidir quem será o candidato do partido à presidência da república ano que vem. Aguardadas ansiosamente pela grande mídia, que tanto se empenhou em cobri-las, a disputa tucana terminou - pelo menos por enquanto - em um grande vexame com direito a bate boca e até acusação de compra de votos.

segunda-feira 22 de novembro | Edição do dia

FOTO: Guito Moreto/Agência O Globo

Na noite do último domingo foi anunciada que as prévias do PSDB estariam suspensas em decorrência a uma falha no aplicativo de votação dos filiados. Segundo a presidência do partido, apenas 8% dos mais de 40 mil filiados conseguiram votar. Após o encerramento do horário previsto, começou uma nova disputa entre João Doria e Eduardo Leite, desta vez pela decisão de quando o processo de escolha será retomado.

5 anos de uma crise que não está perto de acabar

O que poderia ser uma campanha prévia não oficial, com a ajuda da grande mídia empenhada em cobrir cada mínimo detalhe, as prévias do PSDB estão se transformando em uma guerra interna que expõe a crise na qual este partido se enfiou após participar da articulação do golpe institucional de 2016 e a entrada do tucanato no governo Temer que foi trágica para o que se desenvolveu depois. Além disso, viu várias de suas figuras embarcando no bolsonarismo, colando-se à extrema direita.

Após verem grande parte de sua base social histórica migrar para Bolsonaro já no primeiro turno de 2018, os governadores tucanos precisaram se colar ao discurso de extrema direita do então candidato do PSL.

João Doria nem esperou o segundo turno para fazer tal movimento. Já no primeiro turno começou a se colar a Bolsonaro, abandonando seu parceiro de legenda, Geraldo Alckmin, que terminou a campanha desidratado com apenas 4% dos votos. Tido naquele momento como traidor pela ala mais tradicional do tucanato, agora Doria busca se relocalizar de forma distanciada a Bolsonaro, e faz isso usando a vacina como trunfo em oposição ao presidência negacionista. No entanto, até o momento o governador de São Paulo não parece convencer, dando indícios de que poderia repetir o fracasso de Alckmin, segundo todas as pesquisas realizadas ao longo de 2021.

Já Eduardo Leite, um pouco menos conhecido que Doria a nível nacional, e portanto com menor rejeição, também não emplaca em nenhuma das pesquisas realizadas. O governador do Rio Grande do Sul aparece com 3% ou 4% das intenções de votos e pesa contra ele também seu apoio ao presidente Bolsonaro. Pesa tanto, inclusive, que o próprio Doria usou como uma de suas cartadas a denuncia de que Leite teria pedido a ele, após uma conversa com o governo Bolsonaro, para que não iniciasse a vacinação em SP antes dela ser iniciada nacionalmente, pois isso prejudicaria a popularidade do governo federal, o que Leite não desmentiu, apenas tentou amenizar.

Terceira via sem asfalto e luz; uma unidade suspensa no ar

Com um candidato considerado traidor interno e o outro vacilante frente negacionismo bolsonarista, aquele que foi o principal partido à direita de oposição aos governos petistas por mais de uma década - além de ser o mais desejado entre setores do capital financeira para assumir a direção do país - está cada vez mais longe de se tornar a chamada terceira via, ficando atrás de Sérgio Moro e até Ciro Gomes.

Diferente do que opinam os analistas da grande mídia ao dizerem que aquilo que une a terceira via é a independência de Bolsonaro e Lula, ou seja, uma candidatura que se baseie na rejeição aos governos petistas e ao governo bolsonarista, opinamos outra coisa... O que une a terceira via é a busca por descarregar a crise capitalista nas costas dos trabalhadores, e isso tendo um projeto com a cara mais acabada da burguesia nacional e de submissão ao imperialismo estadunidense. Mas apesar do desejo de pesos-pesados da burguesia, à terceira via faltam três coisas fundamentais: votos, unidade e uma figura que consiga ultrapassar Lula e Bolsonaro.

Desesperados por votos em 2018, os governadores do PSDB não hesitaram em apoiar um filhote da ditadura militar, Bolsonaro, defensor do legado abjeto de um dos períodos mais sombrios da história do Brasil. Por outro lado, FHC não hesita em opinar publicamente pela eleição de Lula no segundo turno, apostando na volta da conciliação de classes petista que supostamente poderia trazer algum tipo de pacificação para o país.

Os tucanos pagam um preço eleitoral por terem sido parte do golpe institucional em 2016 e interrompido a experiência das massas com os governos petistas. Enquanto pensavam estarem surfando no reacionarismo golpista, não viram que sua base pouco a pouco migrava para as mãos de Bolsonaro e Moro. Sem unidade, hoje ficam identificados como ex-bolsonaristas envergonhados, e o partido inteiro divido.

Agora, o PSDB não é nem sombra daquele partido que governou o país por 8 anos, e foi o responsável por aplicar duros ataques neoliberais. FHC, muitas vezes com posições indiscutíveis internamente, tentou unificar o partido em torno de Doria, mas não teve nenhum sucesso. A crise do PSDB é uma expressão da crise orgânica que atravessa o país. Aquele arranjo partidário, que foi um pilar do regime de 88, está em um processo de completa transformação. E a crise do PSDB é uma das expressões dessa transformação.




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