Internacional

Milhares de pessoas em Nova York enfrentam a polícia em meio a repressão extrema

As ruas de Nova York se encheram de manifestantes usando máscaras de proteção contra a Covid-19 NT que demandavam justiça para os assassinatos de George Floyd, Breonna Taylor, Sean Reed e Tony McDade, mortos pela polícia, e por Ahmaud Arbery, morto por um patrulheiro branco. Eles enfrentaram a polícia de Nova York, que respondeu com uma repressão brutal, incluindo spray de pimenta, cassetetes e centenas de prisões.

segunda-feira 1º de junho| Edição do dia

Ainda que os protestos em Nova York contra a violência policial tenham recebido bastante atenção das principais mídias e de políticos, o verdadeiro tamanho da violência e das prisões feitas pela polícia tem sido seguidamente diminuído. O prefeito Bill de Blasio pede para as pessoas ficarem em casa e para que se restaure a “paz”, mas as promessas dele de responsabilizar a polícia de Nova York por sua violência racista soam vazias. Não podemos confiar nos políticos para “policiar a polícia” que impõe as leis do sistema racista que esses próprios políticos lideram. Enquanto os protestos continuam pelo país, temos que demandar a libertação de todos aqueles presos por lutar por justiça pelas vítimas da violência estatal.

Com mais mobilizações planejadas para os próximos dias, se torna claro que os trabalhadores e o povo oprimido de Nova York estão tomados de ódio contra um sistema que desvaloriza a vida de pessoas negras e que as mata com impunidade. Os protestos começaram tarde na noite de quinta-feira, mas as manifestações cresceram na sexta-feira, resultando em embates violentos com a polícia e prisões em massa. Os nova-iorquinos estão pedindo justiça e eles não pretendem recuar. Aqui tem um resumo das ações em Nova York na noite de sexta-feira.

Manifestantes se mobilizam na parte baixa de Manhattan

Os protestos de sexta começaram na Praça Foley, onde mais de mil pessoas se juntaram com flores, cartazes e discursos denunciando não só o assassinato de George Floyd, mas os inúmeros casos de violência racista cometidos pela polícia de Nova York ao longo dos anos. Muitos discursos ligaram o aumento atual da violência policial por todo o país ao assassinato de Eric Garner pela polícia de Nova York em 2014, explicitando o que inúmeras pessoas não-brancas já sabiam: o sistema policial racista não tem “alguns maus policiais” - a polícia nunca respeitou as vidas negras.

Um contingente de pessoas que se juntaram antes, durante a tarde, tentou fechar as ruas ao redor e foram rapidamente atacados pela polícia e dezenas foram presos. Enquanto o protesto crescia, gritos denunciando o assassinato de George Floyd foram ouvidos ao redor da praça, e as pessoas tomaram as ruas, interrompendo o tráfego. A multidão então marchou em direção a um tribunal e a um centro de detenção, onde eles se enfrentaram com a polícia. Diversas prisões foram feitas por policiais à paisana se passando por manifestantes antes de cercarem e atacarem violentamente a manifestação. Divididos pelas barreiras policiais e o batalhão de choque dividindo os manifestantes, a marcha se dividiu em várias, que se espalharam pela parte baixa de Manhattan, incluindo a Ponte do Brooklyn.

Milhares pedem justiça no Barclays Center, polícia responde com spray de pimenta

Milhares de pessoas encheram a praça na frente do Barclays Center, no Brooklyn, e nos quarteirões ao redor por mais de três horas. Os manifestantes chegaram e encontraram o batalhão de choque - muitos deles sem máscaras de proteção - esperando atrás de barricadas na saída do metrô. Enquanto as pessoas se juntavam a manifestação, gritos de “Diga o nome dele”, “Mãos ao alto, não atire”, “Como se soletra racista? NYPD!” [NYPD é a sigla, em inglês, de New York Police Department, ou Departamento de Polícia de Nova York. NT.] ressoaram pela praça. [Todos estes gritos são símbolos da luta anti-racista e do movimento Black Lives Matter. NT.] Os manifestantes estavam com flores e cartazes pintados com os rostos de Breonna Taylor, George Floyd, Ahmaud Arbery, Sean Reed e Tony McDade.

Os policiais atacaram os manifestantes, que jogaram água e garrafas na polícia. A resposta policial foi imediata, atirando spray de pimenta a queima-roupa nos manifestantes. Rojões foram atirados e os manifestantes se defenderam dos policiais que entravam na multidão para fazer prisões.

Não se enganem: sob a ordem de Bill de Blasio, a polícia de Nova York estava nas ruas com força total e com o único intuito de reprimir os protestos e controlar a fúria dos milhares nas ruas pedindo justiça. A polícia respondeu a fúria dos manifestantes com dez vezes mais violência do que qualquer manifestante individual, atacando pessoas caídas em grupos de 4 ou mais policiais. Devemos pedir a liberação de todos os manifestantes presos e a retirada de todas as acusações contra eles, incluindo aquelas contra Samantha Shader, que está enfrentando acusações de crime federal por supostamente ter atirado um coquetel molotov em uma van da polícia.

Mais tarde, ônibus da MTA [Metropolitan Transit Authority, a agência de transporte público de Nova York. NT] apareceram para levar manifestantes para a cadeia. Porém, enquanto os policiais enchiam os ônibus com manifestantes detidos, os motoristas de ônibus se recusaram a dirigir, em um ato crucial de solidariedade, dizendo que não participariam da repressão policial e não seriam cúmplices do assassinato de pessoas negras por policiais. A multidão em volta apoiou os motoristas de ônibus e sua unidade com as mobilizações. Mais tarde, o sindicato Transit Workers Local 100, de trabalhadores do transporte público, tweetou sua posição afirmando que seus membros não levariam manifestantes presos.

Uma van da polícia em chamas entre as barricadas no Parque Fort Greene

Depois que o protesto no Barclays Center foi dividido pela polícia, grupos de manifestantes se separaram e foram para diferentes locais. Cerca de duzentos se juntaram em frente ao Parque Fort Greene onde se depararam com hordas de policiais provocando os manifestantes com spray de pimenta. Os manifestante gritavam “George Floyd” e o grito mais bem-humorado, porém bem-vindo, de “NYPD, chupa o meu pau!”.

Rapidamente a tensão cresceu, os manifestante atiraram pedras, balões com tinta e garrafas de plástico e de vidro nos policiais. A polícia foi rapidamente obrigada a recuar, e as vans policiais começaram a passar pelo meio dos manifestantes que bloqueavam o caminho. Os manifestantes gritavam “Mãos pro alto, não atirem”. A polícia os empurrava violentamente, derrubando muitos deles enquanto a van passava pela multidão.

Depois que a polícia passou pela linha de manifestantes, eles descontaram sua raiva em um carro da polícia abandonado, quebrando seus vidros e incendiando-o. Enquanto a van queimava, os manifestantes faziam barricadas na rua.

Do lado de fora do parque, manifestantes impediam o avanço de policiais, segurando cruzamentos contra eles e protegendo a atuação no Parque Fort Greene.

Manifestantes invadem delegacias de polícia

Delegacias em todo o Brooklyn foram invadidas por manifestantes, pedindo justiça por todos os membros das comunidades negra e latina que foram assassinados pela polícia de Nova York. A 88ª foi invadida por tantos manifestantes que o delegado, Dermot Shea, pediu uma mobilização de nível 3, uma ação pedindo que todas as forças especiais respondam. Manifestantes incendiaram uma van da polícia vazia e bloquearam a entrada de veículos que haviam respondido ao chamado do delegado.

Na 79ª, alguns manifestantes conseguiram invadir, mas foram rapidamente presos. A 84ª em Bed Stuy também estava cheia de manifestantes invadindo o local. Os protestos do lado de fora se tornaram violentos, com policiais usando força bruta e bastões para agredir manifestantes. Mais tarde, a polícia bloqueou grupos de entrar na delegacia para apoiar os manifestantes detidos.

Outras delegacias pela cidade foram invadidas por manifestantes demandando justiça pelas vítimas não só da polícia de Nova York, mas de todo o sistema policial racista.

Justiça por George Floyd e todas as vítimas da violência estatal

O assassinato de George Floyd estourou um barril de pólvora, que incendiou tensões que vinham crescendo envolvendo um sistema policial racista e violento que vem matando negros sem medo de retaliação por tempo demais. A urgência é palpável. Mesmo que os protestos tenham começado em Minneapolis, multidões cada vez maiores tem se manifestado quase todas as principais cidades americanas, demonstrando solidariedade contra a violência policial. Cada uma dessas cidades tem suas próprias memórias de membros de suas comunidades mortos prematuramente pela polícia. “Eu não consigo respirar” foi o slogan que o Black Lives Matter usou quando Eric Garner foi morto pela polícia de Nova York, quase seis anos atrás. Seis anos depois, estamos gritando as mesmas coisas nas ruas, dessa vez por George Floyd, outro homem negro morto por uma instituição racista, e por todas as vítimas da violência policial. Não há esperança em permitir essa organização corrupta “se policiar”. A comunidade tentou se ajoelhar e nada aconteceu [1]. Agora, nós tomamos as ruas.

Notas de Rodapé

[1] Se refere ao movimento iniciado por Colin Kaepernick, jogador de futebol americano do San Francisco 49ers, que consistia em se ajoelhar durante o hino nacional americano, em protesto contra o racismo e a violência policial, em 2016. Diversos atletas repetiram o ato desde então.




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