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CAMPINAS

Mais um ser humano morre de frio nas ruas de Campinas

Um homem foi encontrado morto por hipotermia em Campinas na última quarta-feira, 11. Pouco se falou na imprensa sobre o ocorrido. Mesmo nas notas que dedicaram um pouco mais de um parágrafo ao caso não existe qualquer informação sobre o ser humano que perdeu sua vida dormindo na rua numa noite em que a sensação térmica era de 2ºC. Enquanto a família do prefeito Jonas Donizette, passou a segunda noite mais fria do ano alimentada, segura e aquecida no conforto de seu apartamento de luxo no bairro de classe alta Villa Bela, mais de 700 pessoas, entre homens, mulheres, idosos e crianças desafiaram o inverno nas calçadas e embaixo de pontes do centro de Campinas.

sexta-feira 13 de julho| Edição do dia

Nada foi dito sobre o homem que aparentava já ter idade avançada e morreu sozinho na rua esta semana. Não se sabe qual é o seu nome e menos ainda sua história. Sua morte solitária foi abafada pelas autoridades porque ilustra uma realidade cruel, onde em pleno século 21, ainda existem pessoas que que morrem de frio. Um problema a tanto tempo superado pela a humanidade que aprendeu a se proteger das variações de temperatura, mas que ainda leva a vida de pessoas inocentes todos os invernos, ano após ano, em um país de clima tropical como o Brasil. Uma realidade que assombrosamente veio aumentando com a crise econômica e o desemprego, sendo que há dois anos atrás a cidade já registrava 600 pessoas em situação de rua. Mas para as autoridades trata-se apenas de uma questão de marketing, como é para o prefeito Jonas Donizette (PSB) que está fora do país vendendo uma imagem de uma Campinas sustentável

O aumento da população em situação de rua em Campinas e a sua concentração na região central da cidade escancara aos olhos da população a brutalidade de encontrar pessoas tão desamparadas e sem perspectivas. Elas compõem em sua esmagadora maioria os setores sociais mais oprimidos. São em maioria pessoas negras, muitas mulheres, homossesuais e travestis, aqueles que além da amargura das ruas geladas ainda encontram a opressão e muita violência em seus cotidianos. Para se eximir de suas responsabilidades a prefeitura se utiliza dos grandes veículos de comunicação para dizer que prefeitura “faz sua parte” e que os próprios moradores de rua são responsáveis pela situação em que se encontram pois podem fazer “escolhas”, podem “se convencer” a buscar uma melhoria de vida etc. Com isso os jornais propagandeiam as “operações” realizadas pela prefeitura como o chamado ao albergue municipal e a distribuição de cobertores, mas escondem a opinião dos próprios moradores de rua sobre essa “assistência”.

O albergue municipal, cujo nome é Setor de Atendimento ao Migrante, Itinerante e Mendicante (SAMIM) possui uma estrutura precária e, como a maioria dos serviços públicos campineiros o demonstram, abandonada pela prefeitura. São recorrentes as denúncias da falta de funcionários, da incapacidade de tratamento adequado à idosos e doentes, além das constantes reclamações de chuveiros com água fria em pleno inverno. Por si só já seria compreensível a recusa dos moradores de rua de buscarem o albergue, mas tem mais obstáculos do que portas abertas aos que precisam do abrigo. Uma série de “regras” servem de filtro evidente, sendo que entre elas está a negativa de entrada de pessoas menores de 18 anos que não estiverem com seus representantes legais, o confisco dos pertences, além de vedar a entrada de pessoas que ingeriram álcool ou drogas, sendo que as próprias estatísticas oficiais apontam que a maioria da população em situação de rua sofre de problemas com alcoolismo e dependência química e a prefeitura não dispõe de profissionais que possam lidar com pessoas nestas condições. Ainda, também no SAMIM é permitido a permanência por no máximo 5 dias seguidos destas pessoas, o que é evidentemente insuficiente para assistenciar alguém a reorganizar a vida.

Assim como faz com a saúde, transporte e educação ao entregar à iniciativa privada os direitos dos trabalhadores e da população, o prefeito Jonas também busca primeiro favorecer aos comerciantes e empresários incomodados com os “prejuízos” que seus lucros podem ter com o crescimento da população que se refugia nas ruas de Campinas. A sede de lucro e o ódio aos moradores de rua é tamanho que um grupo de comerciantes queixou-se ante a prefeitura das atividades comunitárias que grupos particulares ligados à igrejas realizam. Também é visível os maus tratos que os moradores de rua sofrem por parte dos policiais e guardas. Os responsáveis pela estrutura social que faz com que essas pessoas permaneçam no desalento em que se encontram são os grandes empresários que produzem a desigualdade social e econômica para multiplicar seus lucros, e de sua casta política que governa para garantir seu interesses.

É revoltante saber que um ser humano morreu de frio porque uns poucos exploradores e seus representantes querem manter essa estrutura social desigual. Não se pode naturalizar essa brutalidade. É preciso garantir a assistência aos moradores de rua, com abrigos de qualidade que atendam toda a demanda e respondam às especificidades dessa população. Não se trata de caridade. Uma cidade como Campinas, que é um dos pólos industriais e econômicos do país, pode oferecer abrigos que sejam 100% públicos, onde se tenha um atendimento com profissionais das áreas de assistência social, saúde e jurídico. Que ofereçam de fato um ambiente de proteção a estes setores vulneráveis e auxiliem a sua reabilitação e reorganização da vida. Lugares onde essa população possa ser ouvida e atendida.

Se cidades como Campinas, e mesmo São Paulo onde a população moradora de rua é estimada em mais de 15 mil, não oferecem assistência aos moradores de rua o único motivo é que os interesses dos governantes é manter a posição que ocupam, que é garantida com a exploração dos trabalhadores e população pobre. Os moradores de rua são um reflexo cruel desse projeto capitalista nas grandes cidades.




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