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Mães indígenas lutam pelos corpos de seus filhos enquanto pandemia afeta os mais oprimidos

Mães indígenas lutam pelos corpos de seus filhos enquanto a pandemia afeta os mais oprimidos

sábado 27 de junho| Edição do dia

As três mulheres Sanöma, vindas da aldeia Auraris, na fronteira entre Roraima e Venezuela, foram levadas junto de seus bebês para hospitais de Boa Vista, capital de Roraima, com suspeitas de pneumonia. No hospital, as crianças teriam sido contaminadas pelo COVID-19 e lá mesmo vieram a falecer. O cenário de horror, porém, não para por aí, pois após a morte das crianças as mães não sabem o que aconteceu. Seus corpos desapareceram, possivelmente enterrados sem nome no cemitério da cidade. Algumas das mulheres seguem hospitalizadas, lutam pelas suas vidas ao mesmo tempo que tentam lutar pelo direito de saber ao menos o que aconteceu com o corpo de seus filhos.

Foi enviado um ofício para o distrito sanitário especial indígena Yanomami pelo Procurador da República em Boa Vista, Alisson Marugal, numa tentativa de se obter informações sobre o paradeiro dos corpos dos bebês, mas ainda não há informações. Enquanto isso as mães e o povo de Auraris sofrem, não apenas pelo absurdo, pela morte das crianças e o sumiço dos corpos, mas pela própria possibilidade do enterro. Para os Yanomami, ser enterrado é um fim cruel e vai contra os costumes desse povo.

Os Yanomami sofrem já há algum tempo todo tipo de massacre, seja pelas doenças transmitidas pelas outras etnias, seja pelo genocídio encabeçado pelos garimpeiros que invadem a área, e agora enfrentam o CODIV-19 completamente sozinhos. Segundo pesquisadores, mais de 80 indígenas já foram infectados ali, 48% dos casos de covid-19 entre os Yanomami e Ye’kwana. Cada dia mais indígenas morrem e o sumiço desses corpos tem sido cada vez mais frequente. As lideranças Yanomami dizem entender a existência de protocolos de biosegurança, mas questionam o absurdo do sumiço dos corpos, enterros, sem consulta as famílias, nem mesmo explicações. Eles reivindicam um protocolo indígena para os mortos pelo COVID-19.

Os Yanomami e outros grupos indígenas, infelizmente, lutam sem muitas armas. O governo Bolsonaro, que já deixou claro o quão pouco se importa com as vidas indígenas e tem como um de seus principais projetos abrir as terras indígenas para exploração da esfera privada, não tem feito nada para impedir os efeito devastadores do novo vírus aos povos indígenas, o que não é surpresa.

É evidente que toda a preocupação de Bolsonaro no meio da pandemia é meramente econômica. E os indígenas não são os únicos numa situação precária, a pandemia claramente afeta mais os grupos oprimidos, os negros, os trabalhadores, as mulheres, e isso não é por acaso. Durante uma crise sanitária sem precedentes, escancara-se ainda mais a barbárie do projeto neo-liberal e do capitalismo, enquanto milhares morrem, seja pelo vírus, pela fome, pelo desemprego, pela mão da polícia.

Com a crise, houve um aumento significativo da violência e repressão nas favelas, subiu ainda o número de desempregados, vários trabalhadores foram demitidos, alguns tiveram que recorrer ao trabalho precário nos apps, muitos dos que conseguiram manter seus empregos seguem trabalhando muitas das vezes sem nenhuma segurança, colocando suas próprias vidas em risco. Mesmo os trabalhadores da saúde, na linha de frente do combate ao vírus, em muitos locais de trabalho não tem nem mesmo EPIs. O sistema público de saúde, que por tanto tempo é alvo de ataques e desmonte numa tentativa de privilegiar a esfera privada, está beirando ao colapso. Tudo isso deixa nua a violência do Estado e do sistema capitalista, que coloca o lucro por cima das nossas vidas.

Frente a isso, a luta contra os catastróficos efeitos sociais da pandemia, que afetam majoritariamente os povos oprimidos e escancaram as mazelas do capitalismo, deve ser contra o regime de conjunto. Nesse sentido, é essencial o fortalecimento das mobilizações antirracistas, fazendo com que estas levantem uma programa de combate a crise política e sanitária, ao passo que atendam as demandas das populações indígenas.

Portanto, é essencial a exigência por sistema unificado de saúde, a partir da estatização de todos os leitos sob controle dos trabalhadores, concomitante a contratação de todos os trabalhadores da área de estejam desempregados, a fim de que toda a população tenha acesso ao atendimento e tratamento da doença. Tudo isso tendo como perspectiva um questionamento profundo do regime que é responsável pelo racismo estrutural que faz com que indígenas e negros sejam os mais afetados pela crise em curso.




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