Juventude

JUVENTUDE

MANIFESTO “Para questionar a Universidade e a sociedade de classe”

Juventude Faísca - Anticapitalista e Revolucionária lança Manifesto com um chamado amplo a todo estudante a se organizar e construir conosco uma militância anticapitalista e revolucionária nas universidades.

Odete Cristina

São Paulo

Tatiane Lima

UNICAMP

quinta-feira 26 de outubro| Edição do dia

Introdução - “O velho não terminou de morrer e o novo não terminou de nascer”

Em todo mundo, a juventude se levanta contra uma das mais terríveis crises capitalistas da história. Da Primavera Árabe aos jovens catalães defendendo o seu direito de decidir, do Black Lives Matter aos protestos da juventude europeia contra a reunião do G20 em Hamburgo. Uma onda de revoltas e mobilizações ganharam força nos últimos anos, expressando o rechaço e descontentamento de uma geração de jovens que pela primeira vez em anos estão sentindo na pele todas as contradições de um sistema baseado numa lógica irracional, onde a grande maioria da população é explorada e oprimida para que uma minoria possa lucrar cada vez mais.

A história segue seu curso e já não é possível esconder a grande recessão econômica, os intensos fenômenos políticos e as veias abertas de uma avassaladora crise social e humanitária. Está à mostra o fracasso do neoliberalismo enquanto saída burguesa para a crise estrutural do seu sistema de dominação. A nós jovens, cabe escolhermos se seremos aliados dos coveiros desse sistema – a classe trabalhadora, junto a todos os setores oprimidos – ou se nos contentaremos com a vida miserável que o capitalismo nos reserva.

No Brasil, o projeto de país e o pacto nacional petista com outros setores burgueses foram atravessados por uma realidade que exigiu uma nova distribuição das peças no jogo político. Com o objetivo maior de acelerar a aplicação dos ajustes econômicos que os governos do PT já realizavam, os políticos do regime, o Judiciário e a grande mídia, apoiados pelo imperialismo, garantiram o golpe institucional. Temer, Alckmin, Pezão, Sartori e todos os governadores, junto aos grandes industriais e empresários, querem fazer com que paguemos pela crise que os capitalistas criaram. Pela primeira vez, em mais de 30 anos, vimos a classe trabalhadora entrar em cena, protagonizando uma greve geral e mostrando sua disposição para lutar contra as reformas de Temer. Graças a política traidora das burocracias sindicais, essa disposição de luta não se converteu em um movimento real e hoje prima a desmoralização frente ao avanço dos ataques e as batalhas não dadas. A Educação, ao lado da Saúde, tem sido dos direitos mais atacados. A PEC 241/55 retira dos serviços públicos e garante o dinheiro para pagar a dívida pública, que enche os bolsos dos capitalistas com metade da riqueza nacional. O alto índice de desemprego, a Reforma do Ensino Médio, o PL que amplia a terceirização e a Reforma Trabalhista são partes de um projeto para a maior precarização do futuro da juventude.

Querem que sejamos máquinas alienadas, transformando o ensino em um treinamento para se alistar em empregos mais exploradores e com salários cada vez mais baixos. O sistema universitário brasileiro é hoje o epicentro de uma profunda crise na Educação que, embora tenha sido aprofundada com os ataques dos golpistas, é anterior inclusive ao ciclo lulista dos anos 2000. Nesse manifesto buscamos desenvolver mais profundamente os elementos que constituem a chamada crise da universidade burguesa, como ela se expressa nas universidades brasileiras, e nossa visão de que essas instituições precisam estar a serviço dos trabalhadores e do povo pobre. Apresentando um programa e uma concepção para que possamos avançar na transformação da universidade e da sociedade de classes.

Surgimento e expansão das universidades burguesas

A Universidade burguesa surgiu para colocar a razão pragmática no lugar da ciência artesanal e limitada pela fé. Passando a atender as necessidades dos novos meios de produção e forjando inicialmente uma restrita camada de ideólogos da nova sociedade. Com o desenvolvimento dos modelos de acumulação fordista-taylorista e o aprofundamento da divisão entre trabalho manual e intelectual, as universidades ganharam destaque na criação de conhecimento voltado ao Capital. Durante o boom econômico do pós-guerra, até o final dos anos 60, houve uma expansão das universidades nos países centrais e essas passaram a ser a última etapa na capacitação dos tradicionais profissionais liberais (médicos, advogados, arquitetos etc), mas também dos novos engenheiros vinculados diretamente à produção, dos economistas ligados à crescente especulação financeira e dos intelectuais burgueses que inventam verdades nas Ciências Humanas. O fim do “boom” questionou esse modelo de “Universidades de massas”, afinal, se tornou “disfuncional” aos capitalistas a formação de trabalhadores com qualificação e diploma diante da crise dos anos 60 e 70, que teve como saída burguesa o neoliberalismo, com sua flexibilização e superexploração. Nem mesmo essa massificação foi capaz de mudar a marginalidade da classe operária frente às universidades.

A enorme contradição entre o conhecimento acumulado e resolução de problemas elementares da sociedade, fazem da universidade um importante espaço a ser disputado. O limite imposto pela lógica capitalista de produção – onde a produção de conhecimento é voltada para o lucro – reflete as contradições de uma sociedade onde o trabalho e apropriação do conhecimento se tornam a cada dia mais social e coletivo, enquanto sua apropriação se restringe a um bem privado, que poucos tem acesso. Como todo processo histórico, as mudanças nas universidades sempre estiveram condicionadas aos fatores externos da sociedade capitalista. Sendo a luta de classes o fator determinante para a burguesia pensar como deve se organizar o conhecimento por elas produzido. Por concentrar grande parte do conhecimento acumulado na sociedade capitalista, as universidades, ao contrário das outras instituições burguesas, não deverão ser simplesmente destruídas durante o processo revolucionário, mas devem passar a atender as necessidades da classe operária e de toda população, se transformando em peças chaves para a construção de uma nova sociedade.

Neoliberalismo e o caráter internacional da “crise da universidade”

A derrota do ascenso operário dos anos 60, abriu espaço para uma grande ofensiva econômica, ideológica e militar da burguesia: o neoliberalismo. No plano ideológico a identidade de classe foi sendo substituída por uma ideologia individualista que exaltava o consumo e os benefícios do capitalismo. Na academia, o espírito de época era o ataque ao marxismo, incentivando o surgimento de teorias pós-modernas, pré-marxistas, utópicas e até mesmo reacionárias. A restauração capitalista nos ex-Estados Soviéticos foi o ponto auge, onde os neoconservadores acreditavam finalmente ter vencido a “guerra fria”. Buscavam transformar o retrocesso do movimento operário em uma nova ideologia social e política, onde não se podia fazer nada diante de um capitalismo invencível; que tinham como respaldo os ataques objetivos que vinham sendo feitos contra os trabalhadores, no marco das ofensivas neoliberais.

Essas mudanças no mundo do trabalho por meio da chamada reestruturação produtiva, obrigou o capital a procurar na universidade sua aliada na produção de mão-de-obra qualificada, e de ciência e tecnologia. O que se combinou também como uma busca pelo aumento da mais-valia por meio da flexibilização e precarização do trabalho. As universidades também sofreram reestruturações para atender as novas necessidades do capital. Estas transformações deram início a um processo de “contra-reforma” ocorrido de forma desigual e combinada nas instituições de ensino superior em todo mundo. O seu avanço dependia da situação política de cada país e do estado de agitação da classe operária e dos estudantes. Ao final dos anos 90, o neoliberalismo começa a se esgotar em todo mundo, especialmente nos países periféricos, dando origem a novos fenômenos de luta das massas, combinado com uma crise da hegemonia do imperialismo norte-americano que vem levando hoje a uma crise econômica de proporções catastróficas. Mostrando como a história está longe de acabar...

A crise das universidades se dá principalmente a partir do fato que, desde os anos 60, o modelo da universidade de massas se tornou uma instituição “disfuncional” desde o ponto de vista puramente econômico: grandes gastos para capacitar intelectuais e profissionais que não teriam lugar no processo produtivo. Desde o ponto de vista burguês, era uma situação que precisava mudar, mas que não convinha tocar no momento. Foi assim, que de mãos dadas com a onda reacionária também no plano ideológico, as universidades cumpriram importante papel de “cooptar” a pequena-burguesia, em troca de manter suas ilusões de ascenso social aliada à burguesia (ainda que esse ascenso é cada vez mais utópico).

Crise do sistema universitário brasileiro e falência dos projetos burgueses

No Brasil a expansão da universidade foi tardia e limitada. Se deu primeiro para atender as necessidades do “milagre econômico” em plena Ditadura Militar, a partir de uma reforma em 1968 e já num marco de crise internacional das universidades. Durante o governo FHC, de 1994 a 2001, uma nova expansão foi realizada, com foco nas universidades privadas, com o governo tucano seguindo à risca as orientações neoliberais do Banco Mundial. A crise das universidades no Brasil possui duas características principais: do ponto de vista burguês, a necessidade de formação de mão de obra qualificada e produção de ciência e tecnologia, consumindo o mínimo dos recursos do Estado. Do ponto de vista da população, o anseio pela democratização do acesso ao ensino superior. Lula, em seu governo, explorou essas contradições da crise e, longe de qualquer propósito de resolvê-las, aprofundou a relação das universidades com os interesses capitalistas. O fez a partir de programas que alcançaram um setor maior da população, ao mesmo tempo que enriqueceu mais os grandes monopólios privados.

Assim, a partir do REUNI, promoveu a expansão das universidades federais, sem verbas para infraestrutura, professores, bibliotecas e permanência estudantil, com muitas instituições sequer conseguindo manter suas atividades e atender à crescente demanda. Essa situação fez estourar em 2012 uma das maiores greves estudantis nas federais das últimas décadas. Também a partir do ProUni, que concede vagas nas instituições privadas – muitas vezes precárias – em troca de isenções milionárias de impostos para os patrões, servindo como uma verdadeira reserva de mercado e aprofundando o ensino privado como uma fonte de lucros, sem riscos para esses que fazem de nosso direito à educação uma mercadoria. O FIES, feito por FHC, foi ampliado pelo petismo para avançar com a mesma lógica, relegando dívidas à juventude precária. Em todas essas décadas de programas neoliberais para a expansão do ensino universitário se mostrou completamente ineficaz e nocivo. É ainda muito baixa a porcentagem da população com diploma de ensino superior, segundo dados do IBGE, trata-se de cerca de 8%. O crescimento e competição desenfreados da rede Kroton-Anhanguera é um grande exemplo de que os interesses dos governos nunca se ocupam da ampliação da educação pública, de qualidade e gratuita.

Essa lógica mercadológica na educação prevalece até hoje. Não podemos aceitar que anos de estudos se transformem em quase uma vida de endividamento à juventude trabalhadora. Defendemos a anulação de todas as dívidas contraídas através do FIES e outros programas do governo. Assim como transformamos a nossa luta cotidiana contra o aumento das mensalidades em uma luta contra a privatização da Educação. Lutamos pela estatização das universidades privadas, sob controle dos estudantes, professores e trabalhadores e sem indenização aos capitalistas, que lucram com a precarização das nossas vidas. A começar pela estatização do maior monopólio educacional do país, basta de lucrar com a educação, Kroton-Anhanguera nas mãos dos estudantes. Queremos que essas universidades se tornem públicas para que toda a juventude possa estudar sem pagar.

Com o avanço da crise econômica mundial em nosso país, o governo de Dilma Rousseff – que ironicamente tinha como slogan “Brasil, pátria educadora” – passou a ser o agente implementador dos cortes na educação. O golpe institucional veio aprofundar ainda mais os ataques que o PT já vinha fazendo. Desde 2015, foram mais de 13 bilhões de reais cortados. Ano passado, enquanto os manifestantes eram bombardeados e duramente reprimidos pela polícia, o congresso golpista aprovava a PEC 55, que prevê o congelamento dos gastos públicos em saúde e educação pelos próximos 20 anos. Esse ano, 70% das universidades federais tiveram cortes no orçamento, e 100 mil bolsistas do CNPq podem do dia para noite, ficar sem receber suas bolsas devido aos cortes na pesquisa. A crise econômica atingiu agudamente as universidades federais, sendo que muitas ameaçam fechar suas portas por falta de recursos elementares, como o pagamento do serviço de trabalhadores e a incapacidade de pagar as contas de energia elétrica e água. A UERJ se tornou um símbolo nacional dessa crise. Mas também as prestigiosas universidades estaduais paulistas, bem como as renomadas e tradicionais UFRJ e UFMG se enfrentam com as ditas “crises orçamentárias”, e outros ataques aos direitos históricos dos trabalhadores e a permanência dos estudantes são os primeiros planos dos governos ou reitores. No estado de São Paulo, a crise orçamentária das estaduais paulistas se combina com um ataque ideológico que é a proposta autoritária de reforma curricular das licenciaturas e pedagogia, numa transposição do projeto escola sem partido para as universidades.

Frente à crise nos orçamentos das universidades, exigimos a abertura do livro de contas, para que dessa forma possamos saber realmente onde estão os gastos e despesas desnecessárias. Como por exemplo os supersalários de alguns professores das estaduais paulistas, que por meio do acúmulo de cargos burocráticos ganham mais que o teto permitido por lei. Exigimos a anulação da PEC do teto dos gastos públicos. Apoiamos todas as lutas em defesa de mais verbas para educação pública, como a legitima demanda de aumento do repasse do ICMS nas três estaduais paulistas. E para que essas demandas absolutamente possam ser implementadas, defendemos que o custo recaia sobre os setores mais ricos da população, como os grandes empresários e banqueiros, por meio do não pagamento da dívida pública e impostos progressivos sobre as grandes fortunas.

Democratizar radicalmente o acesso e garantir permanência para toda demanda
A precária expansão neoliberal das últimas décadas não permitiu a universalização do acesso. Por isso, uma importante tarefa colocada ao movimento estudantil é enfrentar a separação ideológica e material que o projeto de universidade burguês impõe entre trabalho intelectual e trabalho manual. Não aceitamos poucas universidades “de excelência”, subservientes às multinacionais e monopólios, enquanto muitas universidades são golpeadas pela crise e à maioria da juventude que sonha em fazer uma graduação é negado esse direito ou lhes restam as altas mensalidades e o endividamento nas universidades privadas.

Contra o elitismo e a precarização do ensino defendemos que o acesso às universidades públicas deve ser radicalizado. A nossa luta deve ser unificada com a juventude trabalhadora e a população pobre, em um duro combate à exclusão sistemática da produção e usufruto do conhecimento que lhes fazem. Sabemos que no Brasil essa exclusão, além de classe, tem cor. Por isso, defendemos que se avance para a adoção das cotas étnico-raciais proporcionais à população negra de cada estado. Defendemos as cotas junto aos estudantes e às populações negra e indígena, para que estas medidas sejam um ponto de apoio na nossa luta contra as raízes e estrutura desse projeto de universidade excludente e racista. Recentemente a luta dos estudantes arrancou na UNICAMP e na USP o princípio para a adoção da política de cotas. Essa conquista histórica, em tempos de profundos ataques, deve servir de arma para que seja de fato implementada a política de cotas, assim como fortaleça o Movimento Estudantil enquanto sujeito político independente da burocracia universitária, a mesma que manteve em todos esses anos as portas dessas universidades fechada à juventude negra e indígena. Como parte dessa luta para garantir o acesso ao ensino superior para toda juventude brasileira, lutamos pelo fim do vestibular, buscando acabar com todo e qualquer filtro social e racial que impede que nossos jovens possam ter aceso ao ensino superior em nosso país. Que juntamente com a estatização de todas as universidades privadas irá garantir o aumento no número de vagas para atender a uma quantidade cada vez maior que jovens que queiram entrar no ensino superior.

Os tempos de crise e polarização política que vivemos exigem uma maior organização para a defesa de um novo projeto que responda os problemas de dentro e fora da universidade. Nós estudantes podemos assumir um papel político fundamental, enfrentar cada aspecto retrógrado da universidade de classe para, com isso, sermos também sujeitos de um questionamento profundo contra a própria sociedade de classe. Quando uma pequena parcela da juventude pobre e trabalhadora contraria a regra geral e consegue entrar nas universidades, encontram na falta de políticas sérias de permanência estudantil um novo obstáculo e a maior causa da evasão. Para que todo estudante consiga estudar defendemos moradias, creches, bolsas de estudo e assistência estudantil que supra toda a demanda.
Queremos nos ligar aos trabalhadores que constroem cotidianamente a universidade e são fundamentais para o seu funcionamento. Combatemos a burocracia universitária que não reconhece e nem se responsabiliza pelos trabalhadores terceirizados, enquanto usa a terceirização para dividir o conjunto dos trabalhadores e enfraquecer suas lutas. Defendemos a efetivação imediata de todos os trabalhadores terceirizados, sem a realização de concurso público e com a garantia de direitos iguais aos dos trabalhadores efetivos.

Contra os estatutos herdeiros da ditadura militar, por estatuintes livres soberanas e democráticas

A maioria das nossas reivindicações e processos de luta encontra nas reitorias, conselhos universitários e governos os maiores inimigos. Nossos projetos de universidade são opostos. Eles buscam manter a universidade de classe, garantido que as pesquisas e toda a produção de conhecimento esteja submetida aos lucros e à propriedade privada. Nós queremos subverter essa ordem elitista e toda a castração da ciência e tecnologia. Queremos uma Universidade que gere e promova as grandes ideias e toda a tecnologia para construção de uma nova sociedade. Não queremos uma universidade que forme os gerentes desse sistema baseado na exploração, mas, sim, forme profissionais e intelectuais que sirvam aos interesses da classe trabalhadora e da maioria da população, como arquitetos e engenheiros que ajudem a solucionar os problemas de moradia, advogados que defendam os trabalhadores e os movimentos sociais contra o regime e o Estado capitalista, cientistas sociais e historiadores para desmentir a história de passividade diante da dominação burguesa. Frente a qualquer ingerência dos governos capitalistas, defendemos a autonomia universitária para a tomada de decisão.

A estrutura de poder universitária é reacionária com relação aos direitos democráticos elementares. Na maioria das universidades o poder de decisão é restrito a uma elite da burocracia universitária, à membros das organizações industriais e dirigentes políticos das cidades. Os organismos de deliberação máxima em sua maioria são alheios da participação do conjunto dos estudantes e a maioria dos trabalhadores. A reitoria e os conselhos universitários tem como funções a garantia de uma universidade servil aos capitalistas e seus governos, bem como a perseguição política e repressão contra os que ousam lutar para mudar essa realidade. E são regidas por estatutos herdeiros da ditadura militar, que fazem questão de manter artigos para garantir a punição daqueles que lutam contra essa estrutura excludente e elitista. Contra o despotismo dessa burocracia defendemos o fim da reitoria e a dissolução dos conselhos universitários.

Nós temos direito de participar de todas as tomadas de decisão com sufrágio universal. Mais que isso, em momentos de crise aguda vemos que esses burocratas são incapazes de responder aos problemas que defrontam. Nós estudantes podemos governar nossas universidades, junto aos trabalhadores e professores, a partir de conselhos realmente democráticos, com composição proporcional ao peso de cada categoria na universidade. Mostramos com nossas ocupações que as universidades devem ser nossas e que elas podem ser dirigidas por esse governo dos três setores, com maioria estudantil e de maneira independente dos governos e empresários.

Defendemos uma universidade que seja cada dia mais aberta a toda população pobre e trabalhadora. Uma universidade viva, onde tenha espaço para arte, cultura, e toda forma de expressão artística e política. Queremos festas, sarais, atividades culturais, ideológicas e políticas. Queremos que a juventude possa entrar e subverter esse espaço, transformando em um ambiente livre, onde possamos explorar nossa criatividade e questionar os padrões impostos por esse sistema capitalista. Diante do avanço das punições e a repressão exigimos a retirada dos processos de sindicâncias e punições a todos os lutadores. Somos contra presença dessa polícia assassina, racista e LGBTfóbica nos campi universitários e nos somamos as lutas pelo fora a polícia do campus.

O movimento estudantil como caixa de ressonância das contradições sociais

Partindo de uma definição sociológica, podemos dizer que estudante é a descrição de uma determinada atividade transitória e não determinante (no sentido de não obrigatória como o trabalhar para viver) de um indivíduo. E que movimento estudantil se refere à atuação coletiva destes indivíduos como sujeito político numa determinada situação histórica. Desde uma visão marxista caracterizamos que os estudantes cumprem um papel político como amplificador de contradições sociais. Devido a sua heterogeneidade de classe (burguesia e pequena burguesia) e pela própria sua atividade, isto é, o exercício intelectual de análise abstrata da sociedade, que os torna mais sensíveis a crises e mudanças. No início do século XX, os estudantes eram uma pequena fração da sociedade, que mantinha frente à sociedade uma relação de “pirâmide invertida”, como a definia Lênin. Da mesma caracterização partia Trotsky para defini-lo como “caixa de ressonância”. Essa definição não toma os estudantes como classe social, supõe sua heterogeneidade e sua tendência à polarização e de unir-se a um ou outro lado da barricada a depender da situação histórica.

A ampliação dos setores que entraram na universidade e os limites impostos pela burguesia, incapaz de dar significativas concessões, permite com que essa visão seja ampliada: o movimento estudantil não expressa somente as contradições das classes de origem, mas do conjunto da sociedade. A burguesia precisa atacar o conjunto das classes para sobreviver, arrastando o conjunto da sociedade a barbárie. Assim, coloca uma base comum de luta contra um mesmo inimigo, forjando um terreno fértil em que o movimento estudantil pode ocupar um papel na luta de classes. A hegemonia ideológica da burguesia na universidade, sustentada na burocracia acadêmica, serve à manutenção de sua hegemonia social. Daí que o surgimento de um movimento estudantil que não lute meramente por “espaços” e “melhorias” nessa universidade tal como é, mas que questione esta universidade e a sociedade, terá que surgir num processo contra o conteúdo ensinado, a burocracia acadêmica e seus mecanismos institucionais. Por isso, nossa estratégia é intervir em toda luta progressiva do movimento estudantil, como a defesa da universidade pública contra a burocracia acadêmica e os governos, para se somar a setores de estudantes que na luta contra o mesmo inimigo comum, podem se unir ao proletariado contra a exploração capitalista.

Não se pode pensar o movimento estudantil como sujeito autônomo que dentro dos marcos da universidade pode conquistar uma transformação profunda desta. Para isso necessitará unir seu destino ao da única classe desta sociedade capaz de emancipar-se a si mesmo e assim emancipar ao resto da sociedade, por ser aquela que move todos os fios da economia e aquela na qual se baseia os lucros dos burgueses parasitários, o proletariado.

Para estarmos à altura dos grandes combates contra a universidade de classe precisamos de entidades estudantis que sejam ferramentas de organização e luta. Por isso defendemos centros e diretórios acadêmicos que sejam democráticos, vivos, independentes da burocracia universitária e dos governos. Queremos forjar uma nova tradição no movimento estudantil, que supere o abandono das entidades ou o seu uso como correia de transmissão de políticas dos governos. Nas entidades e no movimento estudantil temos como bandeira a defesa de todos os setores oprimidos e uma aliança estratégica com a classe trabalhadora. Somos mulheres, pessoas negras e LGBTs na linha de frente do combate à estrutura opressora da universidade e da sociedade de classes.

Para que essas entidades possam expressar todas as posições presentes no movimento estudantil e dessa forma acelerar o processo de experiência dos estudantes – por meio de um debate político constante, defendemos proporcionalidade como forma de gestão. Por essa via, todas as posições estarão representadas proporcionalmente ao seu peso na base dos estudantes, e as entidades se tornaram espaços vivos onde o debate de ideias e a discussão com o conjunto dos estudantes é o que fará a diferença.

Por um movimento estudantil combativo, subversivo e pró-operário

Em meio a profunda crise social, econômica e política que estamos vivendo, as ideias radicais começam a ganhar força, principalmente na juventude. Tanto a direita, com os discursos de ódio alá Trump, Le Pen e Bolsonaro, como à esquerda, com a palavra revolução voltando a ganhar força no imaginário das pessoas, ou de forma distorcida, por meio do avanço de fenômenos neoreformistas em diversas partes do mundo.

Hoje a burguesia brasileira mostra sua cara mais podre por meio das reformas e de projetos reacionários como o Escola sem Partido, a tentativa de considerar as LGBTs como doentes, de retirar o direito ao aborto até mesmo em casos de estupro, a busca pela aprovação da redução da maioridade penal e a censura a exposições e obras de arte. E tem em setores como o MBL um ponto de apoio para avançar contra nossos direitos. O discurso de nova direita com o qual eles se alçaram frente à crise de legitimidade dos partidos burgueses, foi pouco a pouco sendo desmascarado e hoje se escancara como na verdade esses setores representam a mesma velha política corrupta, conservadora e retrógrada.

Ao mesmo tempo a principal entidade estudantil do país, a União Nacional dos Estudantes, não foi capaz de ser uma alternativa de fato frente aos grandes acontecimentos que marcaram a história recente do nosso país. A anos sob a direção burocrática de setores da base petista, como a UJS/PCdoB, a Kizomba-PT e mais recentemente o Levante Popular da Juventude, essa entidade além de ter sido base de apoio durante todo governo petista, foi incapaz de organizar a juventude para travar uma luta séria, colocando todos os seus esforços para combater o golpe institucional. Se limitando a uma resistência passiva, baseada nas ilusões dos acordões e conchavos nas alturas. Nem mesmo diante dos enormes ataques do governo golpista de Temer, a UNE foi capaz de organizar os estudantes para lutar seriamente contra as reformas e os ataques, com um plano de luta concreto nas escolas e universidades, que pudesse promover a unificação entre a juventude com a classe operária que entrava em cena, protagonizando pela primeira vez em décadas uma greve geral em nossos país.

As direções dessa entidade buscaram desviar todo descontentamento e radicalização da juventude para a defesa do falido projeto conciliação de classe do PT. Por isso, foram coniventes com a traição promovida pelas centrais sindicais que boicotaram a greve geral do dia 30 de Junho, e hoje são responsáveis pelo sentimento de desmoralização. Essa concepção cética e ilusória quanto às instâncias burocráticas – seja das universidades, seja dos governos, - é o que foi moldando um movimento estudantil a cada vez mais corporativo e conservador em suas pautas, que não confia em suas próprias forças e quer avançar contra os organismos históricos do auto-organização dos estudantes. E em base a esse cenário, o sentimento autonomista de época vai se construindo, ao mesmo tempo que se fortalecem setores anti-esquerda e anti-movimento estudantil.

Infelizmente a esquerda ainda não é capaz de dar uma resposta à altura para retomar a construção de um forte movimento estudantil combativo, subversivo e pró-operário. O golpe institucional foi um divisor de águas, onde parte da esquerda que de tanto se adaptar à política petista nesse momento para se diferenciar, acabou girando à direita e apoiando o golpe e a reacionária Lava Jato. Ou então acabou se adaptando a política petista e foi incapaz de erguer uma política independente frente à ofensiva burguesa. Em meio a esse cenário de falência estratégica da esquerda, mais uma vez as correntes estalinistas e sua política degenerada volta a se fortalecer sob o falso discurso de que ali cabem todos os “comunistas”, até mesmo aqueles que defendem uma estratégia que levou a derrota da maior revolução da história. Nós temos orgulho de, ao calor das lutas contra o golpe institucional, termos fundando nossa juventude Faísca – Anticapitalista e Revolucionária, que foi juntamente com o Esquerda Diário, parte da construção de uma terceira voz contra o golpe e a Lava Jato de forma independente do PT. Frente à decadência desse sistema de exploração e opressão, nós queremos ser parte construção de uma voz anticapitalista que avance para revolucionar a sociedade.

Estudantes e trabalhadores: uma aliança estratégica

Queremos resgatar o melhor da tradição combativa do movimento estudantil brasileiro que se enfrentou com a repressão brutal da Ditadura Militar. Somos inspirados pelos jovens e trabalhadores que protagonizaram lutas internacionais e nos deixaram importantes lições. Reivindicamos o legado do Maio de 68 francês, as suas barricadas que pararam Paris e fizeram recuar a polícia, suas ocupações de universidades e fábricas, a defesa incondicional dos vietnamitas e argelinos contra a guerra imperialista e a sua aliança com imigrantes dos bairros latinos. Queremos colocar a universidade a serviço dos trabalhadores e do povo pobre. Resgatando a força da nossa classe que já se demonstrou em importantes processos e também nos últimos anos, após a irrupção da crise capitalista, é que queremos chamar toda a juventude a mudar a vida e transformar o mundo.

Queremos responder à falência do neoliberalismo e aos novos ataques dos capitalistas com a mesma aliança revolucionária com os trabalhadores que a juventude francesa já mostrou ser possível e explosiva. Defendemos este programa anticapitalista e revolucionário, e também anti-imperialista, como guia para debates profundos e a ação de milhares de jovens que não aceitam as ideias dominantes nas salas de aula e na vida. Queremos retomar as grandes lições da classe operária russa, que a 100 anos atrás tomou o céu por assaltado na maior revolução da história. Queremos ser a faísca que vai incendiar o país ao lado da classe trabalhadora. Não vamos permitir saídas pela metade, não queremos desperdiçar nossa energia de luta em projeto e políticas reformistas, que terminam por manter esse sistema podre. Nosso objetivo é a luta por uma sociedade comunista, sem classes sociais, livre da exploração e de qualquer forma de opressão.

Queremos com esse Manifesto lançar um chamado amplo a todos os estudantes para que venham se organizar e construir com a Faísca uma militância revolucionária e anticapitalista nas universidades!




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