Educação

PRECARIZAÇÃO DO ENSINO E EAD

Laureate cria novo patamar de precarização da educação com robô no lugar de professores

O grupo Laureate, monopólio educacional estadunidense que é dono de faculdades como Anhembi Morumbi e FMU, substituiu professores por robôs na correção de atividades de alunos sem sequer comunicar os discentes. A precarização do ensino encontrou novos limites nas mãos dos capitalistas.

Fernando Pardal

@fepardal

quinta-feira 30 de abril| Edição do dia

Docentes das universidades que fazem parte do grupo estadunidense Laureate denunciaram a bizarra situação de que robôs estavam sendo utilizados para a correção de atividades avaliativas de alunos nas disciplinas de EaD (Ensino à Distância).

Textos dissertativos de alunos postados no ambiente virtual conhecido como “blackboard” passaram a ser avaliados por meio de um software de inteligência artificial, o LTI. Os docentes foram proibidos pela instituição de revelar esse fato, e os estudantes não foram informados. Uma professora, sob a condição de anonimato, revelou ao site Agência Pública: “Os alunos não sabem, e assim somos orientados: não podemos informá-los e devemos responder a todas as demandas como se fossemos nós, professores, os corretores”.

O site também obteve um documento interno (o manual de LTI) da instituição que confirma tanto a correção feita automaticamente, como a orientação de não divulgar aos estudantes, veja foto abaixo:

Outro professor explicou como funciona o sistema: “Ele compara com a resposta do aluno, atribuindo uma nota de acordo com a identificação que considera correta a partir dessas palavras.” Eles ainda afirmaram que, com o objetivo de não levantar suspeitas nos alunos sobre a correção automática, o sistema aguarda até o dia seguinte para a divulgação das notas.

Uma terceira professora falou sobre como vê o papel dos docentes na universidade: “A impressão que dá é que a gente está lá só para inglês ver. Só pra eles usarem os nossos títulos e poderem validar os cursos no MEC, pra gente ter que falar para eles [MEC] que ‘temos liberdade e autonomia sobre a disciplina’, quando a gente não tem”.

Estudantes entrevistados pela reportagem da Agência Pública disseram que não sabiam do uso do sistema, e uma delas perguntou no sistema de atendimento da universidade sobre como eram feitas as correções, recebendo uma resposta mentirosa de que seriam feitos por um docente.

As condições de trabalho dos docentes nessas instituições também são absurdas, como relatou uma das professoras: “Se antes, quando corrigíamos atividades, já era difícil manter a qualidade educacional, uma vez que havia casos de professores com mais de 7 mil alunos para dar feedback, agora sem que isso passe necessariamente por uma avaliação humana é ainda mais sofrível”.

A Laureate está se preparando para o cenário que os governos, particularmente o governo Bolsonaro, está preparando para a educação: Weintraub aumentou a possibilidade de carga horária à distância de 20% para 40% mesmo nos cursos presenciais no ano passado. Agora, com a pandemia, as universidades estão comemorando o corte de gastos e a possibilidade de ir “naturalizando” o ensino à distância. A Laureate quer ser uma “pioneira” trocando os professores por softwares, assumindo descaradamente que seu projeto de “educação” consiste em minimizar custos, demitir professores, e estabelecer um padrão de “ensino” que consiste em fazer estudantes repetirem “palavras-chave” para um computador. O grupo é um dos maiores monopólios educacionais do mundo, com 200 mil alunos em 11 instituições no país, entre elas FMU | FIAM-FAAM, Anhembi Morumbi, UNIFACS, UniRitter, FADERGS, UnP, UniFG, IBMR e FPB. Se esse projeto for aprovado, não apenas será instituído para essas centenas de milhares de alunos, mas se transformará em um novo padrão de lucratividade, pois sem dúvida será o motivador para demissões em massa dos professores que serão substituídos pela bizarra correção por computador. As competidoras logo procurarão seus próprios sistemas computacionais para fazer o mesmo.

Isso é totalmente condizente com o projeto do governo Bolsonaro, que não para de avançar mesmo em meio à pandemia, com medidas como o corte de bolsas de iniciação científica para as ciências humanas.

É escandaloso, digno de uma ficção científica distópica pretender que estudantes tenham redações e questões dissertativas lidas e avaliadas por robôs. Em nome dos seus lucros, os capitalistas querem fazer de qualquer possibilidade de uma educação crítica e reflexiva uma ficção, transformando definitivamente as instituições privadas de ensino em mercados de diplomas.




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