Sociedade

OLIMPÍADAS

Joanna Maranhão, um desabafo contra o estupro e o ódio da direita

quarta-feira 10 de agosto| Edição do dia

A nadadora pernambucana Joanna Maranhão fez um profundo desabafo logo após finalizar sua participação nos jogos olímpicos do Rio de Janeiro nadando os 200m Borboleta na tarde de ontem (09). Constantemente vítima de ataques virtuais de setores direitosos e reacionários, ela se disse chocada com o nível à que estes chegaram no último período.

"Todo mundo tem direito de discordar dos meus posicionamentos políticos, mas minha formação e minha história me fizeram que sentisse a necessidade de me posicionar politicamente. O que eu puder fazer para melhorar meu país eu vou fazer. Mas desejar que seja estuprada, que minha mãe morra, comemorar que não peguei uma semifinal, isso é covardia, falta de caráter e não se faz com ninguém", disse a nadadora, que acrescentou "Quando entrei na fan page não sabia que a coisa estava tão pesada assim, Não sou uma super mulher, e aquilo mexeu comigo. Demorei para dormir e acordei pensando nisso".

Disse ainda que mesmo chocada, os ataques não influenciaram nos seus resultados na competição e que seu objetivo é continuar focada em seus treinamentos e objetivos: "A gente dá duro todos os dias, mas o Brasil é um país homofóbico, xenofóbico, racista. Não estou generalizando, mas há pessoas que são assim e quando elas estão atrás de um computador elas se veem no direito de agir assim (...) Tem que haver mais empatia pelo ser humano, desejar que eu seja estuprada, falar que eu inventei a história da minha infância para estar na mídia, isso é muito pesado".

Os ataques contra a nadadora não foram aleatórios quando insistiam no desejo de que Joanna fosse estuprada, ela revelou ao mundo em 2008 que sofreu violência sexual de seu ex-treinador quando tinha apenas 9 anos de idade (ao contrário do que diz a reportagem da Folha de S. Paulo de ontem que trata o assunto como "tentativa de estupro",transparecendo o método machista corriqueiro na mídia burguesa de sempre minimizar a violência e duvidar das vítimas). Em entrevistas, Joanna chegou a dizer que os abusos duraram quase todo um semestre diariamente e deu detalhes sobre o comportamento do estuprador, que conquistou a confiança da família da jovem atleta e que costumava pedir para que ela sorrisse durante os abusos: "Ele pedia que eu sorrisse, falava que já estava acabando e pedia que eu não contasse à ninguém. Ele nunca me ameaçou, acredito que ele tinha um poder sobre mim e sabia que eu não iria contar".

A figura de inspiração no esporte se transformou no sujeito de um pesadelo que deixou profundas marcas em Joanna Maranhão que, como acontece em inúmeros casos de estupro, guardou suas angústias durante toda a sua juventude por medo de ser julgada e vergonha de ser exposta, chegando até a tentar suicídio algumas vezes, como também revelou.

Pra além de sua história pessoal, Joanna destoa da maioria dos atletas por seu engajamento político muitas vezes progressista, como quando se posicionou através de um vídeo em uma rede social contra a redução da maioridade penal. Postura que alimenta os constantes ataques à sua figura por parte dos fãs de Bolsonaro e afins.




Tópicos relacionados

Olimpíadas   /    Sociedade   /    Violência contra a Mulher   /    Gênero e sexualidade

Comentários

Comentar