Sociedade

DECLARAÇÃO DO NOSSA CLASSE EDUCAÇÃO

Já passou da hora! Que a Apeoesp lute contra a BNCC e os ataques do próximo ano

Na próxima sexta-feira nós, professores estaduais, temos marcada uma paralisação da categoria, que pode ser uma grande chance de mandar um forte recado para o atual governo de Márcio França (PSB), que é claramente uma continuidade do governo tucano, para o governo golpista de Temer e para os próximos a assumirem depois das eleições que se aproximam, que seguirão tentando fazer com que sejam os trabalhadores que paguem pela crise política e economia que eles mesmos criaram.

Maíra Machado

Professora da rede estadual em Santo André e militante do MRT

terça-feira 18 de setembro| Edição do dia

O golpe institucional segue se fortalecendo pelas mãos do judiciário arbitrário, que cerceou um dos poucos direitos que ainda temos nessa democracia degradada, o voto, quando manipulou essas eleições, junto com a tutela das Forças Armadas, impedindo que a população pudesse votar em quem queria, proibindo a candidatura de Lula. Um punhado de juízes com altos salários e diversos privilégios, junto a generais do exército que são expressão do que tem de mais atrasado no país, querem decidir eles mesmos quem será o novo presidente para seguir a agenda de ataques contra a vida da população. Não defendemos o voto PT, que tem uma grande parcela de responsabilidade por termos chegado até aqui, por governar durante anos de mãos dadas com estes mesmos golpistas, com a direita e os empresários, abrindo caminho inclusive para a extrema direita que agora coloca as mangas de fora para vociferar seu machismo, racismo e homofobia. Apesar disso, fomos intransigentes na defesa do direito do povo decidir em quem votar e seguimos batalhando para construir uma força independente do PT, que derrote os golpistas e a extrema direita.

Na educação, ano após ano enfrentamos situações absurdas no cotidiano das nossas escolas públicas. Falta tudo, desde material pedagogico à merenda e até produtos básicos para a limpeza minima das escolas. Nossos salários, há anos sem aumento, perde cada vez o poder de compra e para sustentar nossas famílias somos obrigados a assumir até três jornadas de trabalho, em redes e às vezes em até 4 ou 5 escolas diferentes. Para nós mulheres, maioria na categoria, ainda cumprimos a quarta jornada, em casa para fazer a manutenção das nossas vidas e no dia seguinte começar tudo novamente.

Reivindicamos também a muito tempo a diminuição de alunos por sala de aula e a contratação de novos professores e a resposta do governo de Geraldo Alckmin (PSDB) em São Paulo foi fechar 9.300 salas de aula entre 2015 e 2018, o que significa sete salas a menos por dia. Além disso, só no final de 2017, mais de 30 mil professores contratados foram demitidos, muitos, sem receber até hoje, as férias a que têm direito.

A lista de mazelas nas escolas é longa e poderiamos passar páginas e páginas elencando cada um deles, como o MMR - Método de Melhoria de Resultados - mais um método para culpar alunos e professores pelos péssimos indíces da educação pública, as avaliações diagnósticas mal organizadas, que se tornam cargas pesadas para os professores de português e matemática e um longo etcétera.

Este cenário não é especifico de São Paulo, já que sabemos que em todos os estados e municípios brasileiros os professores sofrem com vários desses problemas, mas os ataques a educação básica pública não se limitam aos âmbitos municipais e estaduais. Os governos federais também vieram deixando seu rastro de destruição. Só nos governos federais do PT foram mais de 16 mil escolas fechadas em todo Brasil, além de um grande avanço dos tubarões do ensino superior, que se sentiram a vontade para começarem a colocar as suas garras no ensino básico também. Para coroar a destruição do ensino público, agora, o governo golpista de Temer, que veio justamente para aprofundar esses ataques, aprovou uma escandalosa Reforma do Ensino Médio, e quer passar na marra a nova Base Nacional Comum Curricular, ambas com o objetivo de privatizar, esvaziar e deformar as escolas, impondo o ensino à distancia, a retirada de disciplinas fundamentais da grade curricular e passando 40% da carga horária dos alunos para fora das instituições de ensino públicas. E os mesmos que promovem essas medidas estão junto com a extrema direita reacionária, que quer calar professores e alunos com o Escola Sem Partido. Fazem isso pelo medo do que a união entre professores e alunos pode significar na luta. Fazem isso porque querem o fim das escolas públicas.

Mas nós, professoras e professores, já mostramos que somos "duros na queda", fomos a ponta de lance em vários estados do país nas mobilizações que derrotaram a Reforma da Previdência, fizemos greves históricas de norte à sul do país por mais qualidade no ensino, e em São Paulo colocamos o playboy Doria (PSDB) para chorar, derrotando seu grande projeto pessoal para se lançar como candidato a presidência se credenciando com a aprovação do Sampaprev, a reforma da previdência municipal. Eram milhares de professores, com as mulheres à frente, derrubando o Sampaprev com as próprias mãos. Somos quase 200 mil professores no estado de São Paulo e com esses exemplos, além dos exemplos internacionais de professores lutando na Argentina, Estados Unidos e Chile, somos uma grande ameaça ao planos de qualquer governo, que certamente virá para seguir atacando os trabalhadores e professores.

Essa força dos professores deve ser organizada por um plano de luta concreto, impulsionado pelos sindicatos, como a Apeoesp, e as entidades do ensino e estudantis, com debates e discussões no chão de cada escola, bairro e região, com assembléias, panfletagens e reuniões com a população para esclarecer o que realmente significa a Reforma do Ensino Médio e a BNCC, e assim preparar a categoria para barrar os planos dos governos de tentar aplicar já no próximo ano esses dois grandes ataques.

Passando por cima também da paralisia das direções do sindicato...

A direção majoritária da Apeoesp, PT e PCdoB, apesar de ter chamado essa paralisação por algumas das pautas totalmente legitimas da categoria que citamos acima, até agora segue totalmente dedicada aos seus objetivos eleitorais para eleger Haddad/Manuela e Maria Izabel Noronha, a conhecida (Fora) Bebel, que esta concorrendo a deputada estadual.

Na última sexta-feira dia 14, não deu importância nenhum para barrar a última audiência pública organizada pelo Conselho Nacional de Educação (CNE), um organismo do MEC e do governo, para debater a BNCC e a Reforma do Ensino Médio. A Apeoesp ciente de que essas audiências públicas são uma farsa, já que mesmo com rechaço expresso pelos professores de todo país, seguem com o processo para aprovar esses ataques, não levou nem ao menos um ônibus cheio para Brasília para marcar a posição dos professores em relação a BNCC. O Nossa Classe Educação atuou para desmascarar a falsa democracia do processo da construção da BNCC.

Os professores de São Paulo no dia 2 de agosto deixou claro que esta disposta a lutar contra o governo, a BNCC e para revogar a reforma do ensino médio, quando boicotou bravamente o tal "Dia D" de debate do MEC nas escolas públicas. Foram centenas de cartaz, abaixo-assinados, fotos, cartazes e vídeos dizendo NÃO À BNCC E A REFORMA DO ENSINO MÉDIO!

A Apeoesp deve fazer um grande chamado a todos os sindicatos da educação, como por exemplo o Sinpeem, que com a força das professoras municipais derrotou o Doria, apesar da atuação do presidente Cláudio Fonseca do PPS. Não pode ser que nosso sindicato organize mais uma mobilização farsesca, para depois sair esbravejando que "são de luta". Uma forte mobilização em São Paulo poderia impor que a luta chegue em outros estados, exigindo também a atuação da Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação (CNTE) para revogar a Reforma do Ensino Médio e a BNCC, unificando os professores e trabalhadores de educação de todo país.

Qual a desculpa da direção majoritária do nosso sindicato para não organizar em cada escola uma forte paralisação e uma grande movimentação de toda a comunidade escolar e colocar nas ruas nossas vozes?

Não fazem porque estão dedicados exclusivamente nas eleições e não fazem porque, assim como as demais direções sindicais da CUT e CTB, morrem de medo dos professores organizados e decididos a lutar e que pode se voltar também contra esses encastelados no nosso sindicato, que atuam como freio das conquistas dos professores. Não fazem por medo que surja uma real mobilização independente do PT, que coloque de pé uma verdadeira alternativa de esquerda, que eles tanto atuam para barrar.

Infelizmente a oposição dentro do sindicato segue sem dar batalhas decisivas contra essa direção traidora, já que acabam de adaptando a não luta e aos blefes que Bebel e cia fazem. A oposição segue perdendo a oportunidade de se mostrar como uma alternativa para os professores, não chamando reuniões e plenárias para organizar a luta também dentro do sindicato e quando não faz forte propaganda pela paralisação e denunciando a burocracia do sindicato. O mesmo chamado que fazemos aos professores temos que fazer também as correntes de oposição dentro do sindicato, que não pode também ficar esperando o fim do calendário eleitoral para pensar a luta dos professores.

Precisamos aproveitar o forte rechaço a BNCC e a Reforma do Ensino Médio, se inflamar com os milhões de mulheres querendo lutar contra Bolsonaro e seu bando de extrema direita e mostrar que a nossa politização e luta não pode ficar somente no campo eleitoral, temos que nos organizar já, para os embates que teremos no próximo período.

Em todo mundo as mulheres estão mostrando que a nossa força não está no voto, mas sim na força imparável que se expressa nas ruas, na luta pelas demandas mais sentidas pela classe trabalhadora, como foi com a maré verde na Argentina e com a primavera docente nos Estados Unidos. Nós, professores, não podemos deixar que nossa indignação com o golpismo e a extrema-direita e com os ataques e mais ataques à educação, se transforme na miséria do possível de escolher o “menos pior” em uma eleição manipulada e tutelada pelas forças armadas.

Vamos às ruas sexta-feira também retomar nossa ferramenta de luta, o sindicato, para ser uma peça chave para derrotar os planos dos golpistas, da extrema direita e dos próximos governos, que não terminam com o golpe institucional. Precisamos parar nossas escolas e ir ao vão livre do Masp para participar da nossa assembleia, impondo que a direção vote um plano de luta e que mobilize a categoria.




Tópicos relacionados

Base Nacional Comum Curricular (BNCC)   /    Nossa Classe Educação   /    Apeoesp   /    Professores São Paulo   /    Reforma do Ensino Médio   /    Educação   /    Sociedade   /    Educação   /    Professores

Comentários

Comentar