Política

Instituto Alemão afirma que ’Brasil se encontra num beco sem saída, com ou sem Temer’

Diretor da Fundação Konrad Adenauer no Brasil afirma que país está num beco sem saída. "Com esse vácuo de poder político, há o risco de que algum populista ou extremista se aproveite da situação na próxima eleição", diz.

sexta-feira 23 de junho| Edição do dia

Em entrevista à Deutsche Welle, Jan Woischnik, diretor da Fundação Konrad Adenauer no Brasil, afirma que país está num beco sem saída. "Com esse vácuo de poder político, há o risco de que algum populista ou extremista se aproveite da situação na próxima eleição", e que não vê nenhum nome que poderia substituir Temer.

"O país está parado, como num bloqueio imposto a si mesmo. Os poderes Executivo e Legislativo se preocupam somente com si mesmos e em limitar os danos até agora sofridos pela Operação Lava Jato, enquanto o Judiciário se politiza – e esse círculo vicioso causa um prejuízo duradouro para a democracia brasileira. Está tudo parado por conta da grande crise que foi gerada com o início da Lava Jato."

Com as crescentes rusgas entre Estados Unidos e Alemanha durante a administração Obama (com a crise geopolítica na Ucrânia) e após a entrada de Donald Trump (ameaça de sanções econômicas às empresas europeias que facilitem a construção de novos oleodutos russos), aos alemães não parece agradar uma operação como a Lava Jato que tem mil e um laços com o Departamento de Estado norteamericano. Berlim quer ajustes contra os trabalhadores brasileiros, mas para incrementar seu espaço de influência, e não o de Washington.

A chanceler alemã Angela Merkel, em seu recente giro pela América Latina, passou pelo México e pela Argentina, mas não veio ao Brasil.

Woischnik afirma que mesmo sem Temer a crise continuaria, especialmente se a queda do presidente golpista resultasse em eleições indiretas, que seriam realizadas pelo Congresso carregado de condenações judiciais.

"[...] Isso tudo mostra que a posição do presidente está muito instável e frágil, mas ninguém consegue dizer até quando ele ficará no poder. Ao mesmo tempo, não há uma solução à vista para a crise – com ou sem Temer".

"Não vejo nenhum nome que poderia substituí-lo. Simplesmente não vejo alguém que poderia entrar na Presidência e fazer o país sair da crise. Em eleições indiretas, os deputados e senadores poderiam acabar escolhendo um parlamentar num Congresso em que grande parte de seus membros é acusada de corrupção. Estamos num beco sem saída e, com esse vácuo de poder político, há o risco de que algum populista ou extremista se aproveite da situação na próxima eleição."

Em relação às "novas cabeças" da direita tradicional, como João Dória, o alemão se mostra igualmente descrente. "Mesmo as gerações mais novas de políticos dependem dos caciques dos partidos – e, assim, não há como sair desse círculo vicioso e se oferecer como líder para a renovação. Por isso, não há uma solução à vista para a crise."

As relações entre Brasil e Alemanha, que vinham florescendo com os acordos de entrega nacional assinados por Dilma Rousseff (como o acordo de entrega à Alemanha das estratégicas "terras raras" - conjunto de 17 elementos químicos metálicos usados como matérias-primas estratégicas na indústria de alta tecnologia, como na produção de smartphones, supercondutores, catalisadores, painéis solares e super-imãs), esfriaram relativamente após o golpe institucional de 2016. Merkel e Temer não têm iniciativas diplomáticas mútuas. Nem mesmo a importação das medidas tomadas pela reforma trabalhista alemã para explorar os trabalhadores brasileiros foi suficiente para reatar os laços Berlim-Brasília.




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