Sociedade

EM DEFESA DA SAÚDE PÚBLICA

Greve da USP fará ato contra o desmonte do Hospital Universitário

A proposta da reitoria e do governo de desvincular o Hospital Universitário (HU) da USP não é nova: ela já foi derrotada pela greve de 2014. Agora, o reitor Zago volta à ofensiva e enfrenta a resistência de estudantes e trabalhadores.

Fernando Pardal

@fepardal

segunda-feira 23 de maio de 2016| Edição do dia

Os médicos do HU, reunidos em assembleia, votaram pela realização de um ato em defesa do hospital nessa terça-feira, 24, com concentração a partir das 9h em frente ao edifício do HU. A partir dessa proposta, os estudantes dos cursos de saúde votaram a sua incorporação ao ato, realizando uma ação unificada de defesa dessa instituição essencial. A ideia é fazer um “abraçaço” ao redor do hospital, simbolizando a determinação de estudantes e trabalhadores em não permitir a desvinculação e o consequente desmonte da instituição.

HU: Uma conquista histórica e um papel social fundamental

A história do Hospital Universitário da USP é uma história de luta: sua existência foi uma conquista da mobilização da população da região do Butantã, Jaguaré, Rio Pequeno e demais bairros próximos à universidade. Foram muitos anos de luta para que conquistassem a construção do hospital, que passou a cumprir um papel de imensa importância para uma região que não conta com nenhum hospital de referência que possa cumprir o papel que hoje tem o HU.

Um dos argumentos utilizados pela reitoria para defender a desvinculação do hospital seria o de que ele não cumpre uma finalidade ligada ao propósito da universidade. Lembremo-nos, contudo, que – ao menos em teoria – a universidade pública é fundada no tripé de ensino, pesquisa e extensão. E o HU talvez seja uma das poucas unidades que é central em todos os três aspectos desse tripé: é um hospital escola onde os profissionais de todos os cursos de saúde da universidade podem aprender seus ofícios e realizar aulas práticas; é um ambiente privilegiado para o desenvolvimento de pesquisas na área de saúde; e cumpre um papel importantíssimo no auxílio à população, que na ausência do HU teria que se deslocar para regiões tão distantes como Heliópolis para conseguir um atendimento médico para além do básico fornecido pelas UBS e centros de saúde.

O desmonte não começa hoje


Foto tirada em maio de 2014 no HU da USP

A desvinculação do hospital seria um passo decisivo no desmonte do hospital, mas sem dúvida não é o primeiro. Recentemente, o Pronto Socorro infantil foi fechado no período noturno, deixando na mão todas as famílias que dependem desse serviço e não tem nenhuma outra opção quando seus filhos precisam com urgência de atendimento médico.

Marília Lacerda, trabalhadora do hospital, disse ao Esquerda Diário: “Foram fechados diveros leitos, o atendimento se precariza demais com falta de pessoal e os trabalhadores que estão lá se desgastam imensamente, o que lhes gera inúmeras doenças para que tentem conseguir fornecer o mínimo aos que precisam do hospital. Nós que estamos trabalhando aqui sentimos no dia a dia os ataques da reitoria e do governo, que vem cada vez mais acabando com esse hospital que é de grande importância para a população. Pacientes em macas se amontoam pelos corredores por falta de leitos, as esperas são imensas e os trabalhadores estão esgotados. Por isso nós aprovamos por unanimidade nossa greve, para lutar em defesa da saúde pública e impedir que esse hospital seja arrancado da população pelo interesse de empresários parasitas que lucram com a saúde pública. São os trabalhadores e a população os verdadeiros interessados em manter o hospital com qualidade, em sua expansão e contratação de funcionários para que todos tenham um bom atendimento. Por isso chamamos todos a comparecem ao ato.”

E não é só o HU que passa pelo desmonte. As unidades de atenção primária (postos de saúde, por exemplo) em toda a Zona Oeste da capital paulista estão passando por uma mudança em sua gestão. Hoje, as instituições públicas são geridas por empresas privadas, as OSS (Organizações Sociais de Saúde), que lucram com a desgraça da saúde pública. E a mudança da Fundação Faculdade de Medicina para a Associação Paulista para o Desenvolvimento da Medicina (SPDM) está levando a corte de gastos, com demissões e precarização generalizada.

Além disso, outras instituições ligadas à USP, como o HRAC USP (Hospital de Reabilitação de Anomalias Craniofaciais da USP), em Bauru, uma referência internacional no tratamento desses problemas, está também sendo desvinculado, outro ataque que só não ocorreu ainda pela resistência de estudantes e trabalhadores na greve de quatro meses de 2014.

No governo golpista de Temer, virão novos ataques à saúde pública

Vemos também como em âmbito nacional o governo golpista de Temer anuncia duros ataques à saúde, como já revelou o ministro da saúde, Ricardo Barros, que é ligado aos planos de saúde privados e já disse que seria bom se o maior número possível de pessoas tivesse plano de saúde e que o SUS é “muito grande”.

Bárbara Delatorre, funcionária do HU e estudante da Faculdade de Saúde Pública, explica: “A situação da saúde pública no país é uma calamidade. Em São Paulo vemos as OSS gerindo a saúde pública e lucrando milhões enquanto os pacientes não conseguem atendimento; no país, a situação é semelhante, com o governo petista tendo avançado na precarização e privatização dos hospitais universitários das federais através da EBSERH (Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares), que implementa a gestão privada e foi combatida por trabalhadores e estudantes. Aqui em São Paulo podemos ver diversas faces da destruição da saúde pública, como a crise da Santa Casa, com escandalos de corrupção que não são punidos, demissões, atraso de salários, fechamento de leitos e piora exponencial do atendimento aos pacientes. O governo golpista de Temer já assume anunciando, em sua primeira semana, novos ataques à saúde pública, querendo destruir as conquistas que ainda temos do SUS, que foram todas fruto de muita luta. Precisamos unificar as lutas e não apenas barrar os ataques, mas também avançar para uma solução para a situação lastimável da saúde pública. Para defender uma saúde 100% pública, gratuita, de qualidade e para todos, precisamos de uma assembleia constituinte imposta pela força de nossa luta, que possa avançar para estatizar o sistema de saúde por completo sob controle dos trabalhadores e usuários.”

Todos ao ato em defesa do Hospital Universitário da USP!

Por isso tudo, é fundamental que todos se somem à luta em defesa do HU e que possamos dar um exemplo para nacionalizar a luta em defesa da saúde pública e contra os ataques dos governos a partir da greve das estaduais paulistas. Todos ao ato! Terça-feira, 9h, em frente ao HU.




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