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França: por um Novo Partido Anticapitalista (NPA) operário e revolucionário

Publicamos uma síntese da plataforma impulsionada pela Corrente Comunista Revolucionária junto com outros militantes, para o Congresso do Novo Partido Anticapitalista (NPA) da França, que será no primeiro fim de semana de fevereiro.

quinta-feira 11 de janeiro| Edição do dia

Foto: Philippe Poutou na campanha do NPA. / L Cagnoto

No mês de fevereiro se realizará o IV Congresso do Novo Partido Anticapitalista (NPA), em que se apresentam diferentes plataformas que são nomeadas com letras (Plataforma Z, Y, X, W, V, U, etc.).

A Plataforma Z é o resultado do agrupamento de militantes da Corrente Comunista Revolucionária (que impulsionam o site Révolution Permanente), parte da rede internacional do Esquerda Diário) junto com outras sensibilidades no NPA. Propõe agrupar os militantes do partido em torno de um projeto abertamente revolucionário e de luta de classes, continuando e aprofundando os elementos que se fortaleceu com a campanha do operário da empresa Ford, Philippe Poutou nas últimas eleições presidenciais.

Os temas do Congresso

Depois da experiência do governo de Tsipras na Grécia, o próximo congresso do NPA deveria aclarar a relação com os novos fenômenos reformistas que surgiram nos últimos anos e com os quais o NPA teve até agora uma atitude ambígua. Esta é uma condição indispensável para se orientar diante do surgimento da France Insoumise na França (plataforma de esquerda reformista que impulsionou a candidatura de Jean-Luc Mélenchon nas últimas presidenciais). Diante da emergência do Syriza e do Podemos, passando pelo Front de Gauche, o NPA se dividiu desde sua criação entre dois grandes projetos: o de um partido independente, anticapitalista e revolucionário e o de uma recomposição com parte da esquerda reformista. Esta tensão conduziu à ruptura de uma parte significativa da direção em 2012 para se unir a Ensemble.
Ainda que a fórmula atual para o segundo projeto é a de uma “nova representação dos explorados e oprimidos”, seu marco organizativo segue a ideia e o esquema do “partido amplo”, com o qual o NPA se alinhava desde sua fundação. Ainda que todas as experiências deste tipo conduziram ao fracasso ou a uma forte adaptação às instituições capitalistas em vários países, uma parte da direção do NPA se esforça em manter a ambiguidade sobre o que está no coração de qualquer projeto partidário, isto é, o projeto social que defende e os meios para consegui-lo.

Isto é tão grave quanto que, depois da Conferência Nacional de 2016, o partido se pronunciou a favor de um candidato independente para as eleições presidenciais, Philippe Poutou. A repercussão conseguida pela campanha demonstrou, em parte, que através de uma posição radical e com um forte caráter de classe, o NPA pode conseguir fazer sua voz ser escutada. A campanha também demonstrou que era possível superar as divisões e estabelecer uma verdadeira prática comum entre as diferentes sensibilidades do partido. Portanto, existia a possibilidade de traduzir o relativo êxito desta campanha em pontos de apoio para reviver o partido em torno a um perfil e projeto operário e revolucionário.

A maioria como fim em si mesmo

Entretanto, nos dirigimos a um congresso completamente diferente, com a constituição de uma plataforma (a plataforma U) reagrupando em torno a um texto ambíguo aos setores da direção que se reconhecem na maioria da IV Internacional (Secretariado Unificado), apesar de todos os desacordos estratégicos e de orientação que atravessaram e atravessam seus membros.

A justificação para a constituição deste bloco é relativamente simples: o NPA ficaria paralisado por suas divisões internas e só uma nova maioria poderia voltar a colocar em funcionamento o partido. A constituição desta nova maioria se converte assim em um objetivo em si mesmo, desconectado de toda orientação e projeto partidário, ainda que signifique se esconder atrás de frases cujo fim contradiz os verdadeiros desacordos que existem. Um exemplo é a ideia de um “partido revolucionário de massas” propugnado por alguns, frente a proposta de “novo espaço político de 99% da população” que outros reclamam.

Os membros da Plataforma U estão ou estiveram em desacordo com quase todas as questões políticas importantes que surgiram no NPA durante o último período: a postura do partido em relação ao Syriza e ao Podemos, a candidatura de Poutou, o fato de se apresentar e não chamar a votar por Lutte Ouvrière para as legislativas...
Obviamente, um bloco deste tipo não permitirá relançar o NPA e nem poderá se manter uma vez que nasça um processo de reagrupação por esquerda ou durante o próximo prazo eleitoral (europeias de 2019). Sobretudo, não permitirá que o NPA faça frente aos desafios que a situação política coloca.
As tarefas do NPA na situação atual

Ainda que a eleição de Macron e a derrota da luta contra os “decretaços da reforma trabalhista abram uma situação bastante reacionária, a profunda tensão entre o presidente dos ricos e o movimento operário que sempre o odiou, não terminou. Isto fica claro em uma série de duros conflitos locais que estão acontecendo atualmente, em particular contra a introdução de novos convênios de empresa (mais favoráveis para os empresários que o convênio do ramo, tal como se prevê no novo Código Trabalhista reformado por Hollande e Macron).

Entre os conflitos, a greve vitoriosa dos operários que limpam as estações ferroviárias de Île-de-France contra o gigante subcontratista Onet e a empresa de trens francesa SNCF é representativa das contradições da situação política e das possibilidades de intervenção do NPA.
Essa luta reflete uma nova determinação que está madurando nos níveis mais precários de nossa classe e que deveria nos interessar. Mas também é o resultado de uma intervenção decisiva de camaradas do NPA que mostra o partido que queremos: um partido revolucionário que toma cada luta como uma “escola” de combate e busca ser uma ferramenta para levar os trabalhadores à vitória.

45 dias de greve com um seguimento majoritário e sustentada com piquetes nas 24 horas do dia, em base a assembleias geral diárias em um setor de trabalhadores imigrantes ultra-explorados, permitiram aos grevistas não só frear os ataques, mas também obter novas conquistas. A alta visibilidade adquirida por esta luta local e uma vasta rede de apoio permitiram dar moral aos grevistas com numerosas ações solidárias e recolher um fundo de greve de mais de 100 mil euros. Estes elementos também são cruciais para o resultado do conflito.

O êxito desta luta foi também o resultado dos vínculos forjados entre as diferentes lutas. Desde as feministas do movimento #MeToo até os grevistas do Holiday Inn, que levam dois meses em greve, passando pelos membros do Comitê de Justiça por Adama (um jovem assassinado pela polícia por racismo e que se transformou em um caso de violência institucional na França). Assa Traoré, irmã de Adama, se apresentou no piquete sendo filha de um dos trabalhadores que tinha iniciado a greve e expressou quão estreitamente ligado está este setor da classe operária à juventude dos bairros.

Mais além dos limites do caso, muito pequeno, pensamos que é um exemplo do que deveria fazer o NPA no período que se abre: tentar se fundir com os processos de resistência dentro de nossa classe para fazer pequenas experiências que ajudem a reconstruir a confiança e provem a utilidade de nosso partido.

A médio prazo, priorizar a implementação e intervenção na classe operária, não desde um ponto de vista economicista ou obrerista, mas sim ao contrário, desde uma concepção segundo a qual a centralidade da classe operária, em uma perspectiva revolucionária, só pode se realizar se é vinculada a todas as lutas dos explorados e oprimidos.

Neste sentido, nossas prioridades de construção e intervenção são inseparáveis de nosso projeto de derrocar o estado capitalista e a luta pelo poder operário que é resultado da mobilização na perspectiva de uma sociedade sem classes e sem estado, o comunismo. Mas também é a melhor maneira de nos prepararmos para poder cumprir um papel nos grandes enfrentamentos de classe que possam surgir, a diferença dos movimentos contra a Lei de Pensões (2010) e a Reforma Trabalhista (2016), os quais o partido cumpriu um papel muito limitado.

Se reagrupar pela esquerda

Um grande setor de ativistas do NPA compartilha a perspectiva de um partido mais abertamente revolucionário com um centro de gravidade na intervenção na luta de classes. Desafortunadamente, as diferentes sensibilidades políticas da anterior Plataforma A da última Conferência Nacional (plataforma que agrupou a maioria da esquerda do partido) se apresentam sob seis plataformas distintas e, portanto, não oferecem uma alternativa real à Plataforma U.

Este é um cenário que lamentamos. Como membros da Plataforma Z, tratamos de evita-lo, impulsionando o agrupamento mais amplo possível da esquerda do partido, sobretudo porque ainda que existam diferenças sobre a orientação (sobre questões programáticas, sobre Catalunha, sobre a Frente Social), não justificam a existência de seis plataformas separadas. Estamos convencidos de que não é demasiado tarde e que poderiam se produzir convergências no próprio processo do Congresso, especialmente em torno a uma declaração conjunta.

Reunir a todos os militantes do partido que se neguem a relançar a maquinaria das amalgamas das maiorias (que mantiveram o partido em ponto morto durante anos) e que desejam que o NPA avance, sobre a base de sua própria experiência, na clarificação de seu projeto e prioridades, este é o objetivo a serviço do qual se cria a plataforma Z.

A plataforma Z completa pode ser lida em francês aqui




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