Mundo Operário

CRÔNICA OPERÁRIA

"Fera, pra sobreviver aqui o cara tem que ter visão e criatividade!"

Toda vez que uma máquina para a relação tempo, salário, lucro começa a contar negativo nas planilhas da chefia, ou seja, se não tem nada saindo do outro lado da máquina significa que o patrão ta perdendo a batalha pelo tempo... e pode ter certeza, logo ele aparece.

quarta-feira 10 de agosto| Edição do dia

Dedicado á A. Souza, um grande operário e um grande ser humano apaixonado pelo que faz.

Os sábados são infinitos, onze horas de trabalho concentradas em um dia que deveria ser de folga. Você se engana alguns segundos quando o relógio chega no meio dia - horário que na semana significa que faltam só duas horas para a liberdade - mas logo já cai a ficha de que ainda faltam cinco horas...

As empresas chamam isso de escala espanhola, são as 44 horas semanais distribuídas em oito e vinte cinco nos dias de semana e sábados de onze horas alternados. Vimos que logo após o golpe institucional, que tirou a Dilma que já vinha atacando nossos direitos e colocou Michael Temer, a Confederação Nacional da Indústria disse que essas 44h ainda é pouco, fez uma comparação com a França, onde o governo tentar derrotar nossos irmãos de classe para impor 80h semanais. Depois da enchurrada de notícias a CNI desmentiu... E logo reafirmou, mas com número de 60 horas. De qualquer forma o que sabemos é que já querem passar essa ideia pra cá.

Além da jornada de trabalho, já interminável - um soco na boca do estomago de quem, na sexta feira, já estava cambaleando no ringue - os sábados também são os dias em que acontece todos os problemas imagináveis, tudo aquilo que você implora pra não acontecer.

Nesse sábado estávamos ajudando a desatolar a produção acumulada nas grampeadeiras, elas são máquinas grandes e bem rápidas, dependendo do serviço exigem mais de seis pessoas para o trabalho sair sem ninguém se matar. Mas é óbvio que não estávamos assim, estávamos em quatro; três auxiliares e um operador. Isso, na maioria dos casos, seria praticamente metade do número ideal por que, infelizmente, a maioria dos operadores caem nas conversas da empresa e acabam agindo como se fossem chefes, ou seja, mais mandam do que trabalham. Essa maneira de organizar o trabalho é outra artimanha dos patrões; colocam uma hierarquia entre os próprios operários, tentam influenciar e comprar alguns para que estes hajam como subcomandandes em um exército que, pela natureza dos antagonismos de classe, vira e mexe chega nos limiares da revolta.

Mas estávamos com sorte nesse dia. O operador era daqueles que não caem nesse papo, sabe seu papel, sabe que é peão assim como todos nós, coloca a máquina pra rodar e já corre pra nós ajudar no abastecimento da gavetas. Era um daqueles que sabe de qual lado deve que se manter.

Derrepente a máquina para, atola o papel... num primeiro instante você fica feliz, sente um alívio por parar a sequência de movimentos freneticamente repetidos. Mas logo recomeça a correria, desenrosca ali, aqui e liga de novo. Isso aconteceu mais 3 ou 4 vezes e a testa do operador já começou a sinalizar que a tensão estava aumentando.

Toda vez que uma máquina para a relação tempo, salario, lucro começa a contar negativo nas planilhas da chefia, ou seja, se não tem nada saindo do outro lado da máquina significa que o patrão ta perdendo a batalha pelo tempo... e pode ter certeza, logo ele aparece.

E chegou bufando, com o olhar alucinado caminhando diretamente para o operador, ouvimos um pouco a "conversa":

- E ai amigão, o que que está acontecendo aqui?

O operador estava agaixado, arrancando pedaços de papel das engrenagens e apertando algumas peças que desalinharam. Num primeiro momento ele ignorou a pergunta e esperou a repetição.

- Vocês estão com algum problema aqui?

Aí respondeu:

- Estamos com aquele mesmo problema que no mês passado chegou na sua mesa pela requisição da manutenção, quatro peças novas nos grampos e mais duas correias dos trilhos que estão gastas e já já vão arreben...

- Isso não tem por enquanto, você sabe - interrompe o chefe do acabamento.

- ... arrebentar na cara de alguém! - Completou o operador - sem trocar essas coisas e rodando na velocidade não tem muito jeito não, enroscar e parar é o mínimo.

- Grande, por enquanto não tem como, o diretor não liberou a compra. Ta todo mundo de mão amarrada, você sabe bem que por mim era peça nova todo dia pra vocês quebrarem. Mas... nessa crise não tem como. - e ameaçou uma saída que logo já virou de volta, abaixou e colocou a mão no ombro do operador - tenta dar um jeito aí, o pedido é pra segunda... - Aí falou mais baixo completando o efeito da frase com dois tapinhas nas costas - pra vocês não terem que vir no domingão.

Era nítida a raiva do operador, nítida também na velocidade dos seus movimentos para desenroscar a máquina. Alguns de nós corremos para ajuda-lo, assim como ele corria para nós ajudar quando as gavetas estavam pra secar enquanto nas nossas mãos, as dezenas de pequenos cortes de papel, ardiam.

Depois de insistir na raiva ele parou um pouco. Assim como alguém para diante de uma situação inesperada e parece gastar o tempo em outro lugar que não ali. Deu uma respirada funda, olhou para nós e demonstrou com um sorriso irônico a seguinte frase:

Sê eh loco moçada!

Aí mudou a tática, resolveu gastar os movimentos dos ponteiros do relógio de outra forma. Olhou pra máquina de vários ângulos, pediu para que eu girasse o motor em marcha lenta várias vezes - chamam isso de picote da máquina, ou também, e ironicamente cabível na situação tensa, de "tic tac" - para frente e para trás. Ele prestava atenção em cada movimento, cada ruído, como se agora gastar o tempo com tic tac da máquina contra o do relógio, tivesse outra qualidade.

Ai chegou a hora de agir e atacar o problema na raiz mesmo que as ferramentas para tal não fossem as ideais. Ele me chamou novamente; disse para pegar uma fita de emenda de bobina nas impressoras e já começou a cortar pedaços de papelão junto com os outros companheiros, fazendo alguns formatos diversos. Também amaçou e dobrou alguns dos papeis enroscados. Quando voltei tudo estava quase no jeito, ele pegou a fita já cortada da minha mão e foi me pedindo pedaços e ferramentas.

No final das contas o operador tinha feito, como pôde, as "peças" que havia requisitado para a chefia. Elas serviriam para segurar as abas das folha dos cadernos que estavam alçando verdadeiros vôos com a velocidade da máquina e assim batiam, dobravam e enroscavam nas chapas metálicas que movimentam as peças gastas da unidade de grampear. Ele também improvisou uma mangueira de ar comprimido que era espalhado por uma folha de papel aberta em cone em cima de toda a parafernália montada em no trilho do Grampo. Tudo para ajudar a segurar as folhas na "pista de decolagem". Quando terminou olhou para mim e disse:

"Fera, pra sobreviver aqui o cara tem que ter visão e criatividade!"

Ligou a máquina, até o final daquele sábado a gambiarra toda funcionou muito bem e ninguém precisou passar o domingo naquele lugar.

Imagino que sem saber exatamente a profundidade, esse jovem operador ensinou muito mais do que tinha intenção. Deu uma aula prática de dialética com a sua visão; analisando as diferenças de quantidade e qualidade nos mínimos detalhes da relação entre um pedaço de papel, a velocidade e a resistência do ar. Nos mostrou a dinâmica de pequenos conflitos que a luta de classes nos coloca todos os dias; um pequeno conflito entre a empresa que não quer ter subtraído do seu lucro valores para manutenção das máquinas e um grupo de operários que não quer pagar por isso com mais horas de trabalho. Também a criatividade em responder a situação com poucas e precárias ferramentas que temos nas mãos, algo como se na fábrica ainda resistisse os aspectos artístico e humano no trabalho, por mais alienado que as estruturas de organização da produção capitalista imponham que o trabalho seja os desafios cotidianos exigem respostas que tenham que extrapolar os procedimentos, para podermos, no mínimo, manter um ritmo de trabalho suportável. Além de tudo isso, o óbvio, que dava pra ver na dedicação e precisão de cada movimento feito, a paixão pelo que trabalho, não o alienado, mas aquele que resiste na experiência dos operários. Mas mais que isso, pois naquele momento, todo seu conhecimento acumulado durante anos serviria para salvar todos ali de passar mais um dia aprisionado naquele sacrifício.

Este jovem operador, e diversos outros operários e operarias; dia a dia mostram, que apesar de hoje ainda estarmos amarrados ás engrenagens do lucro, controlados pelas direções traidoras de nossos sindicatos mafiosos e burocráticos, apesar de terem corrompido, deformado e se apropriado das ferramentas de classe - sindicatos e partidos - que construímos ao longo da história; nossa existência e a manutenção de nossos interesses está sempre, mesmo que nos pequenos detalhes do dia a dia, em conflito com os patrões, os donos do poder e o sistema produtivo como um todo.

Por enquanto, a visão, a criatividade e toda essa paixão em produzir em benefício do próximo, ainda estão presos e esmagados nesses pequenos, mas fundamentais conflitos. Mas no futuro, fera! Serão elas que governarão os rumos da sociedade!




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