Gênero e sexualidade

8M - CAMPINAS (RESPOSTA AO CORREIO POPULAR)

Feminicídio: fruto da estrutura social machista do capitalismo

O Editorial do Correio Popular, jornal de Campinas, desta véspera do Dia Internacional de Luta das Mulheres tratou do tema do feminicídio, mas nada discutiu a respeito dessa realidade de assassinatos machistas em Campinas e tampouco mostrou a conivência dos governantes da cidade com a violência às mulheres.

terça-feira 6 de março| Edição do dia

É chamado “Feminicídio” o tipo de assassinatos de mulheres que são motivados por sua condição de mulher, ou seja, uma forma de opressão machista, que na maioria das vezes é realizada por homens do círculo familiar, como maridos, namorados, pais ou irmãos, mas que também tem larga expressão social. Os fundamentos dados a essa violência tão brutal contra as mulheres está além da intolerância e do desrespeito: trata-se de uma concepção de mundo na qual as mulheres são tratadas como propriedades dentro de suas famílias, no trabalho e em todas as esferas da vida. E tal opressão está, ainda, circunscrita numa sociedade que não é neutra, mas, sim, dividida em classes, onde uma minoria capitalista reforça e se utiliza da opressão machista para explorar mais o trabalho das mulheres.

Há cerca de uma semana mais um caso de feminicídio veio a público em Campinas, mas certamente diante da naturalização da violência doméstica muitos outros são mantidos em silêncio e viram fermento para novos casos. A cidade que chocou o país e o mundo no réveillon de 2017 com o caso de Isamara e outra nove mulheres de sua família, além do filho, teve somente em abril do ano passado o primeiro registro oficial de feminicídio. Se estatísticas tão parciais já nos colocam como o 5º país do mundo em feminicídios, a realidade é muito mais assombrosa e revoltante.

No Editorial do Correio Popular está a afirmação de que “as relações familiares e sociais têm hoje um novo código de conduta” e que isso porque está em curso a “desconstrução da cultura perversa e machista”. Ora, se, por um lado, é correta a identificação do editorial de que está em curso um “ativismo firme cujo objetivo é impedir a perpetuação dessa violência de gênero”, por outro lado, estamos cada caso de feminicídio grita que estamos ainda muito distantes de viver um novo código de conduta nas relações sociais e, principalmente, familiares. E isso justamente porque para que seja “desconstruída” a cultura machista que vivemos é necessário enfrentar suas bases materiais e políticas.

Não é por um acaso que Campinas foi holofote dos feminicídios ao mesmo tempo que o foi por conta de projetos e ações políticas da maioria dos seus vereadores que legitimam a imensa violência e desigualdade às mulheres. Uma lista que começa com a proibição do debate de gênero e sexualidade nas escolas, que chama o repúdio à violência machista e contra a comunidade LGBT de “ideologia de gênero”, passando pelo reacionário Escola Sem Partido e chegando ao cúmulo de questionar o uso de reconhecidas pensadoras que defendem as mulheres para despertar reflexões no ENEM. O Jonas é parte da conivência à situação de violência às mulheres, não só por se omitir em relação aos casos ocorridos, mas também por dirigir um projeto político que quer manter como está a situação.

E o crédito do prefeito alcança a responsabilidade pela dor e sofrimento cotidiano de centenas de milhares de mulheres que enfrentam o tarifaço imposto nos serviços básicos de moradia, energia e transporte e que precariza ainda mais a vida dos trabalhadores e população pobre. São as mães, companheiras e filhas que enfrentam as filas, a falta de remédios e de estrutura mínima nos hospitais e pronto socorros da cidade, enquanto segue abafado o escândalo de corrupção na área da saúde. São também as professoras e funcionárias da educação, bem como as mães, que veem a precariedade das escolas e até a falta de merenda e materiais para as crianças e adolescentes. E para as vítimas de violência doméstica as delegacias, mesmo, femininas, são uma segunda via de agressão, com a culpabilização das mulheres e a negligência, como mostrou o caso de Isamara. Uma cidade que é governada para que a violência dentro de casa continue e seja combinada à violência pública contra as mulheres.

Em um momento nacional de aprofundamento do golpe institucional o que vemos é que não só os governantes buscam aprofundar os ataques às vidas das mulheres e dos trabalhadores. A violência do Estado e retirada de direitos democráticos elementares, como está escancarada com as tropas da Intervenção no Rio de Janeiro, mostra que não serão os capitalistas e seus representantes políticos no governo quem trarão solução para a imensa violência e opressão que vivem as mulheres. Os mesmos que ampliaram o trabalho terceirizado, cuja precariedade tem rosto de mulher, que não se importam com a vida das mulheres grávidas ou que buscam retirar o direito ao aborto até nos casos de estupro trabalham para aumentar o machismo e a exploração, não estão com as mulheres. Por isso, para combater o feminicídio e defender a vida das mulheres é urgente que Campinas seja parte de um Plano Nacional de Emergência Contra a Violência às Mulheres, que trate de questões fundamentais para o total amparo às vítimas, prevenção e todo um projeto profundo para erradicar todas as formas de violência e opressão às mulheres, como veio sendo pautado pelo Grupo de Mulheres Pão e Rosas.




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