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FUVEST: o triste espetáculo da educação para poucos

Nesse domingo, 27, mais uma vez foi realizada a prova da primeira fase da FUVEST (Fundação Universitária para o Vestibular), que seleciona os ingressantes da USP e do curso de medicina da Santa Casa de São Paulo. Um filtro social que impede que milhares que se inscreveram possam adentrar os muros da universidade como alunos, e que desencoraja outros tantos a sequer se inscreverem, para tentarem seguir estudando após a conclusão do Ensino Médio.

segunda-feira 28 de novembro| Edição do dia

Foto: Flávio Moraes

Nessa edição, 136.736 candidatos se inscreveram para a FUVEST, disputando 8.734 vagas na USP (e 120 na Santa Casa). Desse total, pouco mais de 124 mil compareceram aos locais de prova na tarde de ontem. O exame da primeira fase é composto por uma prova com 90 questões de múltipla escolha, que aborda conteúdos de ciências humanas, exatas e biológicas previstos na Base Nacional Comum Curricular, além de conteúdos específicos de literatura contidos numa lista de livros indicados para a prova.

O curso mais concorrido é o de Medicina em Ribeirão Preto, com 6802 candidatos para 90 vagas (75,58 por vaga); em seguida vem Medicina na capital paulista, com 18.598 concorrentes para 295 vagas (63,04 por vaga); e depois Psicologia, com 2619 candidatos para apenas 49 lugares (53,45 por vaga).

Essa alta concorrência, também existente em diversos outros cursos, mostra a cara perversa da FUVEST, e das instâncias de poder da Universidade de São Paulo, que controlam a seleção e as vagas ofertadas. Um grande número de estudantes deseja entrar, enquanto poucas vagas são oferecidas. Como é resolvida atualmente essa diferença entre oferta e demanda? Com um processo seletivo elitista, que exclui de diversas maneiras. Começa pela taxa de inscrição, que nesse ano foi de R$160,00 (nem todos os que solicitam a isenção da taxa, mesmo comprovando baixa renda, a conseguem); segue com o pequeno número de lugares onde se aplica a prova (em alguns casos, os candidatos precisam se deslocar cerca de 200 km dentro do próprio estado de São Paulo para realizar os exames), e é coroado com uma prova desgastante e conteudista, que cobra assuntos que os concorrentes, notadamente os oriundos de escolas públicas, não dominam.

Recentemente, a USP passou também a adotar como método de seleção o ENEM/SISU. Em 2017, serão preenchidas por essa via 2338 vagas, com diferentes percentuais de cotas sociais e raciais em parte dos cursos. Porém, tal procedimento não representa maior abertura ou um processo seletivo “mais democrático”. Para a adoção do ENEM, a USP não aumentou suas vagas, apenas reservou uma parcela que anteriormente era preenchida pela FUVEST; ou seja, mudou o método de escolha, mas não a realidade de acesso para poucos. Além disso, nas discussões sobre o ENEM no Conselho Universitário da USP, o próprio reitor admitiu que a intenção com o novo método, que tem abrangência nacional, era selecionar os melhores do Brasil para entrar na universidade (e não democratizar o acesso).

Seja pelo ENEM, seja pela FUVEST, o acesso à USP é dificultado para os jovens oriundos da classe trabalhadora. Muitos que concluem o Ensino Médio no ensino público sequer ouviram falar sobre a USP e como fazer para nela ingressar. Os que tentam o vestibular se enfrentam com a realidade na maior parte das vezes precária de suas escolas, e com a constante falta de professores, especialmente de ciências exatas.

Parte dos jovens que tentam entrar na USP ou em outras instituições públicas, porém que não conseguem passar pelo filtro social do vestibular vão para universidades privadas. Lá, programas como FIES e PROUNI permitem o acesso, porém ao custo do endividamento dos estudantes e do reforço da lógica de mercado na educação. Essa lógica tem fortalecido grandes conglomerados empresariais do Ensino Superior, como o grupo Kroton-Anhanguera. Tal fortalecimento foi possível graças às políticas implantadas pelo PT no governo federal, que priorizavam o aumento do número de universitários através do financiamento do ensino privado ao invés de uma expansão com qualidade das universidades federais.

É impossível conciliar Ensino Superior privado e educação de qualidade. Cada vez mais as universidades particulares brasileiras estão se concentrando na mão de poucos grupos, com capital aberto em bolsas de valores, sendo a finalidade gerar lucros aos acionistas. Além disso, a cada mês, milhares de estudantes ficam receosos de serem barrados ao entrar nas aulas porque, em meio ao desemprego gerado por essa crise econômica, atrasaram o boleto da faculdade, ou porque o governo federal atrasou os repasses dos programas de financiamento.

Para acabar com essa lógica de educação como mercadoria, é preciso estatizar todo o sistema privado de ensino, sem indenização aos donos. Educação é direito e é para o desenvolvimento do conhecimento, não para formar profissionais que só sejam úteis ao mercado de trabalho. O atual sistema de ensino e de ingresso nas universidades só favorece a elite, que consegue pagar cursos e escolas voltados para a preparação para vestibulares, como a FUVEST. Enquanto isso, a maioria da classe trabalhadora não acessa o ensino superior, e, quando consegue, é majoritariamente em universidades particulares com currículos voltados para o mercado.

Pelo direito ao Ensino Superior para a classe trabalhadora, e para o que conhecimento produzido nas universidades sirva às necessidades dos trabalhadores e do povo pobre, e não ao mercado, a única saída é estatizar toda a educação. Apenas desse modo conseguiremos acabar com processos elitistas como a FUVEST, e com a atual desvinculação entre o ensino e pesquisa e as reais necessidades da sociedade.




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