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FBI diz “corrupção da Odebrecht é a maior do mundo”. Conheça 5 fatos escondidos no episódio

Leandro Lanfredi

Rio de Janeiro | @leandrolanfrdi

sexta-feira 23 de dezembro de 2016| Edição do dia

Em coletiva de imprensa realizada há poucos dias o Departamento de Justiça norte-americano detalhou os aspectos internacionais dos esquemas de corrupção da Odebrecht, envolvendo 11 países além do Brasil. Agradeceram efusivamente a colaboração do Brasil e da Suíça e já prometeram que seus “braços alcançaram” pessoas fora das fronteiras de seu país. Com toda cara de pau do mundo chamaram o esquema do “maior do mundo”. O que esse episódio revela das conexões e interesses americanos na Lava Jato? Oferecemos cinco ideias, não tão ocultas, que esse episódio revela.

1. Novidades da Lava Jato são informadas à imprensa em Nova Iorque, não em Curitiba

Em primeiro lugar chama a atenção que uma operação, supostamente conduzida de forma independente em Curitiba, tenha seus laços internacionais revelados em Nova Iorque e não no local onde supostamente foram conduzidas as tratativas para as delações (pessoas físicas) e a bilionária leniência (pessoa jurídica). O esquema é elogiado pelo Departamento de Justiça americano dizendo que foi intensa a cooperação, a produção de documentos enviadas pela força tarefa brasileira, e que essa cooperação era exemplo para outras operações no mundo.

Porque a Lava Jato permite que sejam os EUA quem divulgue os laços corruptos de uma empresa brasileira? É porque os braços dos EUA podem alcançar os agentes corruptos na Venezuela, Argentina, Angola e outros países citados e o Brasil não? Ou porque os EUA tem a ganhar com isso?

Já divulgamos como os EUA realizaram cursos com agentes do judiciário brasileiro, em especial Sérgio Moro, também mostramos como há afinidades ideológicas do juiz brasileiro com interesses americanos, esse tipo de suspeita começa a se avolumar e até mesmo um importante articulista da grande mídia, Merval Pereira, do O Globo dedica sua coluna de hoje para tentar falar que pouco importa os cursos nos EUA. Pode até ser que pouco importe mas seria só uma estranha coincidência que a “novidade” seja anunciada lá e não aqui?

2. Maior caso de corrupção do mundo? Ou maior pagamento de leniência da história?

Com essa pompa foi anunciado o acordo nos EUA. Seria o esquema da Odebrecht maior que o da DaimlerChrysler de 2010 que envolveu uma confissão de suborno em 22 países e teve que pagar uma multa de somente US$ 195milhões? Se levarmos em consideração o número de países a empresa alemã sai ganhando em relação a construtora brasileira, mas ela não foi punida com a mesma “convicção”.

E os numerosos casos da Siemens e Alstom que envolvem inclusive esquemas de corrupção no metrô paulista? Somente em esquemas de corrupção na Argentina e envolvendo o sistema financeiro americano a Siemens teve que desembolsar US$ 1,5 bilhão em leniência.

Seria o esquema da Odebrecht maior que o da SBM holandesa de navios-sonda que incluiu propinas em vários países, somente no Brasil de mais de R$ 100milhões? Ou seria maior que a somatória de esquemas da Halliburton na Nigéria e muitos países?

A diferença reside na pena aplicada a Odebrecht/Braskem, a maioria da história isso sim. 3,5 bilhões de dólares. Deste total quase 15% serão abocanhados pelos EUA (sendo 10% no valor da Odebrecht e 15% no valor da Braskem).

Essa novidade no valor da multa e os países citados na delação dão uma outra pista, não tão oculta do episódio.

3. A Odebrecht como um entrave para as empreiteiras americanas na América Latina

Segundo um anuário estatístico das empresas que participam do bilionário mercado global de “contratos públicos”, a Odebrecht seria a 13ª maior empresa em valores de contratos no ano de 2015. Dos EUA, acima dela somente a californiana Bechtel e a texana Fluor.
Onde se concentram os contratos globais da Odebrecht? Principalmente nos outros onze países citados pelos EUA: Angola, Argentina, Colômbia, Equador, Guatemala, México, Moçambique, Panamá, Peru, República Dominicana e Venezuela.

Em alguns desses países, como a Venezuela, a Odebrecht conduz obras gigantescas, como a nova linha do metrô de Caracas, objeto de interesse, sobretudo em uma Venezuela pós-Maduro.

A relocalização dos EUA e suas empresas no seu histórico “pátio traseiro” passa não somente pela mudança geopolítica, mudança de governos para que tenham maiores alinhamentos, mas também pela “revisão de contratos”. Uma multa bilionária, fora do padrão “leniente” e guardar informação para poder minar essas operações são funcionais para que Bechtel, Fluor e outras possam substituir os esquemas de corrupção com cara brasileira pelos velhos esquemas yankees.

4. O olhar atento a Odebrecht e os olhos fechados para as empreiteiras estrangeiras

Nos primeiros meses da operação escrevemos artigo mostrando alguns interesses de “donos do mundo” na operação. Como a implosão da “SETE Brasil” permitia a Haliburton e outras detentoras do monopólio de navios-sonda seguirem seu esquema cartelizado. Naquele artigo mostrávamos, como a delação de Cerveró citava empreiteiras estrangeiras que participavam no cartel da Petrobras, os delatores diziam isso explicitamente, citaram propinas da sueca Skanska (8ª do mundo segundo o ranking já citado) e da francesa Technip (6ª no mesmo ranking). Curiosamente nem os EUA nem a Lava Jato deram a menor atenção a participação dessas empresas. Seria porque devem ficar a salvo para poderem concorrer em licitações aqui?

Retirando ou dificultando a Odebrecht e outras empresas brasileiras pode-se abrir não somente o mercado brasileiro como da Venezuela e outros países para a concorrência estrangeira. Pode-se ajudar a substituir um esquema de corrupção por outros.

5. “Vamos fazer um acordo, aí você retorna para sua mansão e para seus negócios”.

Essa frase poderia ser dita em Nova Iorque ou Curitiba. Mas ela não precisa ser dita, é assim que a operação funciona. Quem punir, quem não. Odebrecht sim, Technip não... O fato de novidades dessa monta serem apresentadas nos EUA mostram como o combate ao chamado “maior esquema de corrupção da história” é uma farsa. Dos EUA e seus golpes de estado e guerras em diversos países do mundo para promover os seus interesses estratégicos (e pecuniários) não se poderia esperar outra coisa. Paga a leniência, feita as delações, tudo pode voltar ao normal. Os delatores voltam para suas mansões, seus negócios continuam. Pode ser que seus negócios passem por reestruturações, como o caso Odebrecht indica, perdendo provavelmente seus laços internacionais e tendo que se “contentar” com disputar o Brasil e não mais a América Latina. Rearranjos, mas segue a “boa vida” tendo pago o tributo imperial.

Os novos episódios mostram como não será das mãos da Lava Jato e do FBI que se conhecerá a verdade, muito menos que se dará um verdadeiro combate à corrupção. Isso passa pelo julgamento não por Sérgio Moro, mas por júri popular de todos casos de corrupção, confisco dos bens de corruptos e corruptores e estatização das empreiteiras sob controle dos trabalhadores, para garantir que não sejam nem os Odebrecht nem os imperialistas a lucrar com as obras públicas.




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