Política

ATO DO CIRCO VOADOR

Discursos não bastam: por um plano de lutas já contra os golpistas e seus ataques

Ameaça de prisão do Lula e atentado a tiros na sua caravana. Judiciário golpista em movimento. Generais dando declarações abertamente golpistas. Assassinato da Marielle que segue sem culpados. Nada disso pode ser combatido com discursos e um ato, como o do Circo Voador, onde hegemonizou a política petista, enquanto seguimos sem nenhum chamado a ações práticas com os métodos da luta de classes, que é o que pode enfrentar os golpistas e seus ataques. As ruas ontem e hoje deveriam estar tomadas contra a condenação do Lula e não entregues pra direita.

Marcelo Tupinambá

São Paulo

quarta-feira 4 de abril| Edição do dia

Foto: Midia Ninja

Hoje é o julgamento de Lula no STF, o que em si mesmo exigiria que as ruas estivessem não com atos como os de ontem da direita, que se engajou o máximo que pode, mas por dezenas ou centenas de milhares que deveriam ter sido chamados às ruas em todo o país pelas centrais sindicais, entidades estudantis, movimentos sociais, parlamentares, pré-candidatos eleitorais e o amplo arco político do país que vê que a ofensiva contra Lula é uma continuidade do golpe institucional. Se antes do atentado contra a caravana do Lula, essa mobilização de massa já era indispensável, depois disso, era mais que uma obrigação.

A movimentação estridente de setores golpistas do judiciário que está a pleno vapor em defesa da condenação e prisão do Lula, é mais uma mostra que não se deve deixar a cargo dos “excelentíssimos” a defesa do direito do povo decidir em quem votar e o destino de se Lula vai ou não para a prisão, ainda mais em tempos de todo tipo de pressão sob o judiciário.

Mas a estratégia petista segue sendo evitar qualquer movimentação no terreno da luta de classes, apostando nos pactos, negociações palacianas e recursos jurídicos, enquanto transforma sua perseguição em campanha eleitoral petista.

A declaração do general de exército da reserva Luiz Gonzaga Schroeder Lessa de “Se acontecer tanta rasteira e mudança da lei, aí eu não tenho dúvida de que só resta o recurso à reação armada. Aí é dever da Força Armada restaurar a ordem. Mas não creio que chegaremos lá”, e a do General Villas Boas "contra a impunidade" e que “se mantém atento às suas missões”, são novos episódios que mostram a radicalização de setores da direita, que exigiria uma resposta ainda mais radical pela esquerda.

Mas o PT, mostra uma vez mais que não é capaz nem de defender a si mesmo, prefere soltar uma nota vergonhosa dizendo que quem incita o golpismo é a Globo, como se não fosse o próprio Villas Boas, e clama pela compreensão dos militares em relação às benesses petistas "Nos governos do PT, prestigiamos as Forças Armadas como nenhum outro desde a redemocratização do País. Em nossos governos, não faltou fardamento nem rancho para os recrutas. Investimos na defesa das fronteiras terrestres, das águas territoriais e do espaço aéreo, devolvendo a dignidade aos militares. E assim como defendeu o general Villas Boas nas redes sociais, nós do PT sempre combatemos a impunidade e respeitamos a Constituição, inclusive no que tange ao papel das Forças Armadas definido na Constituição democrática de 1988.". Não é de se surpreender, sendo o partido que abriu espaço para a militarização no Rio com as UPP e chamando atuações do exército.

Já se vão 3 semanas sem resposta de quem matou Marielle, e a mando de quem. Cada dia que passa a investigação em curso mostra que não vai ser efetiva sem a força das ruas para que o Estado investigue verdadeiramente e puna. Até mesmo testemunhas oculares foram ignoradas pelas investigações. A potencialidade de mobilização de rua que se mostrou nos primeiros atos espontâneos e no ato organizado pela mafiosa Força Sindical em SP. Essas mobilizações é o que poderiam colocar em xeque a intervenção federal, impedir a manobra canalha da Globo e do Temer de se apoiar no assassinato da Marielle para fortalecer a intervenção e garantir uma investigação independente que seja parte da política de obrigar a que o Estado investigue e puna os responsáveis.


Foto de Pablo Vergara

Por que o ato do Circo Voador não é uma resposta a nada disso?

As ruas vazias hoje e ontem, enquanto a direita está em meio a uma enorme ofensiva para condenar Lula, já respondem em si mesmo essa pergunta, pois mostram que a estratégia petista não é mobilizar nada, mesmo quando Lula está ameaçado de prisão.

Não se pode acreditar seriamente que um ato como o do Circo Voador que reuniu menos de 2 mil pessoas, essencialmente a militância dura petista do Rio e alguns militantes dos outros vários partidos e movimentos que compuseram o ato pode ser um fator que pese na relação de forças de alguma forma. Alguém acha que o ato de ontem intimida os que atacaram a tiros a caravana? Os que atiraram em Marielle? Bolsonaro? Os golpistas do STF? É claro que não. E nem era este o objetivo do PT.

Estava tudo organizado para ser um ato de lançamento da pré-candidatura de Lula, Celso Amorim para governador e Lindberg Farias para senador, sem colocar nenhum peso para mobilização de rua, para não “incomodar” os mestres do STF que julgariam Lula 2 dias depois. O PT agora sequer fala mal do STF porque é a estratégia do novo advogado de Lula que, ainda mais que do anterior, orienta as negociações palacianas ainda mais que o anterior, pois o balanço do PT foi que aquele era “demasiado enfrentado”. O PT foi perspicaz em alterar o rótulo do ato no Circo Voador como algo mais amplo, “em defesa da democracia”, mas mantendo todos seus objetivos. Basta ver o discurso de Lula, que encerrou o ato, para ver que longe de uma “frente anti-fascista”, ali estava domesticando a esquerda sob o manto da política do PT.

Mas o problema vai além. O ato também contou com o PDT e o PSB, com Carlos Minc (PSB, ex-ministro de Lula) e Chico D’Angelo (PDT, ex-PT), que passam longe de partidos que querem organizar a luta contra os ataques que o ato do Circo Voador se declarava contra.


Carlos Minc no ato

O PDT foi a favor da intervenção federal no Rio. Tem como pré-candidata a governadora do Estado ninguém menos que a Delegada Martha Rocha, fanática do militarismo no estado e que qualificou a intervenção federal como "bala de prata". Ciro Gomes e o PDT seguem querendo disputar a base eleitoral do Bolsonaro pelo país e em especial no Rio, por isso Ciro não vai em nenhum palanque com Lula.

O PSB é o partido que tem ninguém menos que o vice de Alckmin, Márcio França, que agora governa o estado de São Paulo. O PSB articula a candidatura de Joaquim Barbosa, juiz contra Lula no “mensalão”, isso depois do suposto “giro à esquerda” do seu ultimo congresso (para não falar dos podres históricos desse partido burguês, ao ponto de abrigar alguns do quilate de um Paulo Skaf da FIESP, e que já é o partido que governa mais habitantes no país).

O pior é que há setores do PSOL que alimentam uma política de conciliação de classes com estes partidos, elaborando uma plataforma programática para o país que não tem nenhum resquício de esquerda.

O PT sabe muito bem que longe de um ato “histórico” que seria um avanço da luta contra os golpistas e seus ataques, como tentou embelezar Valério Arcary com sua fala no Circo Voador, serviu somente aos interesses petistas. Que o discurso do Valério tenha sido seguido de uma grande cantoria em defesa do Lula, foi só uma expressão secundária do nível de adaptação do MAIS, sua corrente no PSOL. A principal foi o discurso do próprio Lula, que deixou claro que o ato não era para fundar nenhuma “muralha” anti-fascista, preocupação que ele não tem, apesar da vontade do Valério expressa no seu discurso, mas para reivindicar o legado lulista e se colocar como meras vitimas do golpismo. Que nem o representante da “esquerda revolucionária” no ato, onde todos falavam que era “maduro em lidar com as críticas”, faça sequer uma crítica ao PT, sequer em forma de exigência, mostra como o PT e Lula seguem tendo grande capacidade de domesticar a esquerda.

Unidade de ação para vencer os ataques da direita

Todos os que dividiram aquele palanque sabem muito bem que o que coloca medo nos golpistas é a força do movimento operário. Foi este ator que, apesar de todo o ceticismo das direções, acabou de dar mais uma enorme demonstração disso na vitoriosa greve dos servidores municipais de SP que barraram a reforma da previdência de Doria, dificultando inclusive seus planos eleitorais.

É nessa estratégia que, uma vez mais, queremos insistir, pois neste ato do Circo Voador não teve lugar sequer a uma menção tamanha luta operária vitoriosa. Também não foram citadas por nenhum dos discursos a CUT e CTB, que os que estavam ali dirigem, e que seguem impondo enorme paralisia no movimento operário. Falar de “frente única” sem as organizações do movimento operário, sem os sindicatos, sem ações concretas, sem as lutas em curso, sem chamar “plano de luta”, sem chamar um ato de massa sequer, uma assembléia, é uma vergonha que quem se reivindica de esquerda não deveria aceitar.

Para que exista qualquer frente única efetiva, ou uma unidade de ação contra os golpistas e seus ataques, não vai contribuir alimentar a política petista subindo nos seus palcos e clamar pela "unidade da esquerda", vai ser necessário uma luta mortal contra a burocracia sindical, que no ato do Circo Voador, até para a “esquerda revolucionária”, pareceu não existir.

Ao invés de servir de cobrir pela esquerda a política petista, que esvaziou as ruas ontem e hoje e as entregou pra direita, a esquerda deveria impulsionar uma política independente.

Mesmo a luta contra a condenação arbitrária do Lula, o PT já mostrou que não vai levar à frente com os métodos da luta de classes, assim como não fez contra o golpe institucional.

Lulajá perdoou os golpistas e não vai ser com palanques que vai ter combate sério contra os ataques da direita.

Ao mesmo tempo, devemos condenar a política de setores que se reivindicam da esquerda e alimentaram o golpe institucional e agora querem a prisão do Lula. Centram sua crítica em estar com o PT em atos, mas definitivamente não é este o problema, mas sim se os atos servem para a luta de classes, como seria encher as ruas ontem e hoje, ou para a política do PT como o do Circo Voador.

É urgente que a esquerda se coloque a tarefa de superar o PT pela esquerda. Para isso, é fundamental a unidade para dar exemplos no terreno da luta de classes por parte da esquerda que foi contra o golpe, que é contra a condenação arbitrária do Lula e pelo direito do povo decidir em quem votar, e que quer justiça por Marielle e a punição dos que atacaram a tiros a caravana do Lula, que é contra os ataques dos golpistas. Organizemos assembléias nos locais de trabalho e estudo, e ações parciais de combate, exigindo fortemente que as centrais sindicais, em primeiro lugar a CUT e CTB, rompam com a paralisia e convoquem ações contundentes.

O peso parlamentar do PSOL poderia cumprir um grande papel em amplificar pequenos exemplos e exigir das burocracias sindicais um plano de luta coordenado. Consideramos que a direção do PSOL, que está no centro da situação após o assassinato de Marielle, vem perdendo a oportunidade de ter uma política decidida para colocar de pé uma real unidade de ação em exigência as centrais sindicais.




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