Opinião

ANÁLISE DATAFOLHA

Datafolha: nas eleições manipuladas, desenha-se um segundo turno Bolsonaro vs. Haddad

Em eleições manipuladas, em que o autoritarismo judiciário com apoio das Forças Armadas já impediu a população de votar em quem quisesse (ao vetar a candidatura de Lula), Bolsonaro estende a liderança de 24% para 26%, Haddad dá novo salto em menos de uma semana que foi oficializado candidato oficial do PT, toma parte do espaço de Ciro.

Ítalo Gimenes

Campinas

domingo 16 de setembro| Edição do dia

A polarização entre os "extremos permitidos pelo regime" segue em curso, e a disputa que se desenha no segundo turno é entre Bolsonaro e Haddad, que no último dia 11/9 foi "ungido" por Lula como candidato oficial do PT.

Esta pesquisa Datafolha é a primeira depois da transmissão da candidatura de Lula para Haddad, que como dissemos aqui pode unificar no imediato o PT para as eleições, ainda que mantenha as tensões subterrâneas acerca de como Haddad lidará com a dependência de Lula se for ao segundo turno, e especialmente se triunfa nas eleições.

Partimos do pressuposto, vale frisar, de que nestas eleições manipuladas é possível que o golpismo lance mão de variadas fraudes para impedir um governo indesejado. Isso fica evidente com as inúmeras manobras do autoritarismo judicial, e as manifestações do Alto Comando das Forças Armadas, todos a serviço da continuidade do golpe institucional e da tutela das eleições.

Por isso, tudo é tendencial.

Bolsonaro segue se beneficiando da comoção gerada pelo atentado de Juiz de Fora, ainda que seu crescimento esteja longe de ser suficiente para que vença no primeiro turno, como diziam seus apoiadores. O reacionário candidato do PSL subiu 2% frente à última pesquisa, mas manteve estável sua rejeição (passou de 43% para 44%).

Na pesquisa anterior do Datafolha apontávamos uma tendência de crescimento das intenções de voto de Haddad nas pesquisas, na medida em que vinha sendo entendido não só como candidato apoiado, mas como porta-voz do ex-presidente Lula da cadeia.

Cresceu 5 pontos a 9% dos votos antes mesmo do dia 11 de setembro, quando Lula foi impelido a invocar um substituto frente a arbitraria campanha da alta corte do judiciário contra a capacidade da população escolher em quem quer votar.

Há menos de uma semana dessa troca, Haddad chegou a 13%, demonstrando que os efeitos de transferência de votos do ex-presidente aceleraram o crescimento de sua candidatura. Ciro Gomes se manteve com os mesmos 13% da última pesquisa.

Agora o petista é conhecido por uma parte maior do eleitorado, passando de 59% a 71%. Se em agosto apenas 17% dos eleitores acharam que Lula apoiaria Haddad, agora esse número é de 52%, o que certifica há nesse momento uma identificação bastante relevante entre esses nomes.

A estratégia de Lula de ter como candidato do PT alguém com a menor autonomia possível, unificando o partido em torno de si, tem mostrado sua força e tende a colocá-lo no segundo turno com votos que são do líder petista.

Onde Haddad tem ganhado novas camadas de votantes tem sido no reduto do coronel cearense Ciro Gomes (PDT): o Nordeste. Ciro também está com 13% pontos, tal como nas últimas pesquisas, mas perdendo votos no Nordeste. Se em agosto Haddad tinha 5% dos votos dos nordestinos, hoje tem 20%, passando Ciro que caiu de 21% para 18%. Apesar de seguir sendo um candidato forte na disputa, Ciro está nessa briga com Haddad com a desvantagem de não ter um cabo eleitoral com peso de massas, ainda mais na região nordeste, como Lula.

Marina Silva (Rede) também confirma sua tendência a sair da disputa, praticamente abandonada pelos golpistas que apoiou, não acha espaço nessa polarização do regime, perdendo muitos votos em especial de feminino.

Outro elemento distintivo é o cada vez mais certo fracasso da aposta dos mercados que foi Geraldo Alckmin (PSDB), que a no vai e vem das pesquisas, segue conservado dentro da sua própria margem de erro, dessa vez caindo para 9%. A pecha antipetista dos tucanos tem novo nome, e é do proto-fascismo de Bolsonaro (PSL). Mas outro beneficiário dos votos de Alckmin vem sendo João Amoedo, banqueiro milionário do Partido Novo.

A divisão nesse setor de classe entre Amoedo e Bolsonaro-Guedes mostra que o programa para eles é um só e claríssimo, uma adesão total ao ultraliberalismo: privatização de tudo e mais um pouco, fim dos direitos e da própria Justiça trabalhista, entrega das riquezas nacionais, rebaixamento geral dos salários e, superexploração, etc. Nesse setor de classe, a dúvida atual é apenas sobre o grau de violência física necessário para impô-lo.

Cresce inclusive nas nações-império das finanças uma aproximação com o ex-militar frente a incapacidade de ter o seu candidato “de centro” no segundo turno, como uma aposta no “mal menor” que pode fazer frente ao PT. Haddad, entretanto, é o candidato mais tucano dentro do PT, e o mais indicado para mostrar governabilidade aos mercados. É o candidato mais suscetível a passar "de malas e bagagens" aos interesses do “mercado” e dos golpistas, o que resultaria em um choque com as ilusões reformistas que estão sendo alentadas pela campanha eleitoral do PT.

Bolsonaro é o candidato que quer terminar de escravizar os trabalhadores, humilhar as mulheres, assassinar negros e indígenas, perseguir a esquerda como fizeram com Marielle há 6 meses dessa pesquisa.

Mas voto no PT ou em Ciro como o “mal menor” para vencer Bolsonaro nas urnas não conseguirá impedir que as bases reais da extrema direita cresçam. O PT já provou que seguirá governando para os capitalistas, dos quais assimilou os métodos de corrupção. Ao governar com a direita, abriu caminho ao golpe institucional. Numa situação econômica internacional que não permite as concessões da década de 2000, a revitalização senil do PT nos levaria ao mesmo buraco em que chegamos: Haddad já promete ajustes e um novo pacto com os "mercados".

Mais que nunca é necessário o fortalecimento de uma esquerda que aposta na luta de classes dos trabalhadores, das mulheres e da juventude, com um programa de independência de classe dos trabalhadores que supere a conciliação petista.

Para esses objetivos lançamos as candidaturas anticapitalistas do MRT, enfrentando o autoritarismo judiciário que impediu o direito do povo decidir em quem votar, a extrema direita, para construir uma alternativa que supere o PT pela esquerda.




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