Gênero e sexualidade

Dia Latino-Americano e Caribenho pela legalização do aborto

Curetagem pós-abortamento é o segundo procedimento obstétrico mais realizado no SUS

Curetagem uterina é um procedimento cirúrgico que consiste na raspagem do útero por meio de uma cureta. No pós-abortamento esse procedimento é realizado para extrair os restos placentários que permanecem no útero, principalmente nos casos de abortos inseguros.

Natalha Roberto

estudante de Obstetrícia da USP - Leste

segunda-feira 28 de setembro de 2015| Edição do dia

De 2003 a 2007, somente na cidade de São Paulo foram realizadas quase 48 mil curetagens pós- abortamento em mulheres de 15 a 34 anos[1]. Grande parte dessas mulheres recorreram aos serviços públicos de saúde após realizarem abortos clandestinos de forma insegura, já que normalmente não é necessária a adoção desse procedimento em casos de aborto espontâneo, pois o útero expele todos os restos placentários naturalmente.

Esses dados sequer se aproximam do número exato de tentativas de aborto inseguro na cidade de São Paulo. Afinal, sabemos que pela criminalização, a maioria das mulheres não recorre aos serviços públicos de saúde por medo de represália. Sem a curetagem, os restos placentários apodrecem no útero da mulher, ocasionando infecções gravíssimas, a retirada do útero e até a morte.

Embora a curetagem, apesar de a maioria das mulheres desconhecer, não ser um procedimento inofensivo, ela é necessária em casos de abortos provocados. E tem seus riscos como qualquer outro procedimento cirúrgico. Nela é indispensável o uso de anestesia e com isso há risco de contrair infecções e hemorragias, além dos riscos que há no ato da raspagem uterina, como a perfuração do útero e a alteração das estruturas do endométrio, fazendo com que a mulher pare de menstruar definitivamente.

Portanto, abortar não é como ir ao parque de diversões, como Cunha, Feliciano, Malafaia e outros tentam colocar. É um ato invasivo ao corpo da mulher, que poderia ser minimizado se o Estado garantisse o acesso à saúde sexual e reprodutiva de forma integral, assim como educação sexual nas escolas. Como não temos nada disso, se faz necessário que o Estado garanta o direito ao aborto livre, legal, seguro e gratuito, a fim de acabar com as mortes por abortos clandestinos. Uma vez que milhares de mulheres seguem morrendo, o que mostra a ineficácia da política de criminalização do aborto, pois mesmo sendo proibido, as mulheres não deixam de abortar e, infelizmente, não deixam de morrer. Mortes que poderiam ser evitadas caso não houvesse esse total descaso com a saúde da mulher, que caracteriza uma política consciente do Estado brasileiro de lavar as mãos com o sangue das mulheres mortas por abortos clandestinos.

[1] http://indicadores.redciudades.net/br/SP/sao-paulo/curetagem-pos-aborto




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