Sociedade

#FORÇACHAPE

Crônica das emocionantes homenagens das torcidas de Liverpool e Atl. Nacional às vítimas da Chapecoense

O esporte move paixões nas massas com sentimentos profundos e verdadeiros. Além de outras belíssimas homenagens, a #ForçaChape foi a hashtag mais compartilhada do mundo nos últimos dias e refletimos sobre o significado dos exemplos mais tocantes.

Raphael Mouro

@mouro_77

quinta-feira 1º de dezembro| Edição do dia

“Walk on, with a hope in your heart...And you’ll never walk alone”
(Caminhe com esperança em seu coração...e você nunca caminhará só”)

Há uma verdadeira identidade com essa homenagem do Liverpool e de sua torcida com o trágico acidente com o time da Chapecoense:

Apesar desta mítica canção ter sido usada inicialmente nos anos 60 como canto das arquibancadas populares do Liverpool, foi em 1989 que se tornou parte protagonista de momentos particularmente intensos, como as evocações da tragédia de Hillsborough naquele ano, quando 96 torcedores dos ‘reds’ morreram esmagados contra as grades do estádio de Sheffield principalmente por responsabilidade da polícia.


Imagem da conhecida tragédia de Hillsborough

Desde então, tornou parte de um grito de protesto de várias torcidas organizadas (como a do Celtics de Glasgow) e de grupos ligados à contracultura, ao anticapitalismo e próximos da esquerda.

Ainda que este significado histórico hoje esteja mais diluído do que em outros tempos, o próprio conteúdo da letra da canção, por si só, já é demasiado intenso e carregado do espírito de solidariedade. Por isso, uma das mais lindas homenagens que culmina com o ‘ensurdecedor’ minuto de silencio na última partida do Liverpool:

A mítica canção ‘Walkon’ da torcida do Liverpool pouco antes do minuto de silêncio seguida pelo minuto de silêncio da torcida

’’Que lo escuchen en todo el continente siempre recordaremos campeon al Chapecoense"


Imagens das manifestações na Colômbia em memória e solidariedade às vítimas – Os milhares que não conseguiram entrar no estádio, se concentraram nas mediações.

De todas as homenagens, sem dúvidas, as da torcida e do clube Atlético Nacional – exatamente o ‘rival’ da grande final – foram as que mais emocionaram e encheram de lágrimas especialmente os brasileiros tão acostumados com a desproporção na rivalidade e muitas vezes com o ódio injustificado aos concorrentes por cada título que nossos clubes disputam.

Difícil imaginartamanha solidariedade a ponto do clube Atl. Nacional solicitara Conmebol que o título seja concedido simbolicamente e oficialmente à Chapecoense.

Como discutimos aqui, os mais céticos podem desconfiar de uma ação de marketing. Ainda que a desconfiança não seja ilegítima devido o meio que estamos discutindo, é importante levar em conta um fato conhecido, principalmente para os que já puderam visitar a Colômbia e assistir a um jogo: a gigantesca admiração do povo colombiano aos brasileiros – sobretudo ao nosso futebol e aos grandes jogadores e seleções que tivemos – como forma de compreender a espontaneidade das homenagens que vêm de lá.


Faixa no estádio do Atl. Nacional :“O futebol não tem fronteiras – Força família, torcida e povo chapecoense”

Um rápido exemplo pessoal: não esqueço do dia 2 de fevereiro de 2011, quando então o Corinthians foi eliminado pelo Tolima de Ibagué, cidade que para chegar a seu estádio, é necessário atravessar por horas o interior da Colômbia.

Fomos esperando uma guerra e hostilidade típica da Libertadores porém ao contrário, encontramos uma torcida adversária que quebrou o protocolo rompendo pacificamente as barreiras policiais para poder tirar fotos com a torcida brasileira e pedir a troca de camisas.

A única hostilidade que se viu naquela noite foi por parte da nossa própria torcida contra o elenco do Corinthians,desclassificado, que não lutou como esperávamos. Já a torcida do Tolima não conseguia entender porque xingávamos ‘lendas’ como o atacante Ronaldo e o lateral Roberto Carlos, campeões com a seleção.

Muitas vezes os colombianos sem condições de ver sua seleção se classificar para as Copas do Mundo, escolhia o Brasil (e ainda pode escolher, sem crises) como primeiro time. Sem marketing, apenas com um certo sentimento de irmandade que nós latinos temos à flor da pele.

Assim, ainda que conceda o título simbolicamente a Chapecoense, o Atl Nacional e sua torcida também são campeões pela atitude, que embora pareça simples e óbvia para alguns, demonstra no fundo um ato de peso que faz novamente as pessoas entenderem o significado do esporte em meio a tantos exemplos injustificados da rivalidade nada sadia que não nos interessa: o machismo, a xenofobia, homofobia, levando até a mortes, muitas vezes pelas próprias mãos de irmãos de classe.

O ‘amor em tempos de cólera’, a atitude que sintoniza a todos na lógica de que o título de campeão é um detalhe dentro da onda de humanidade real que se pode alcançar no futebol e não se pode comprar. Assim como diz a linda música ‘Latinoamérica’ do grupo Calle 13, que apesar das inúmeras tentativas e artífices das crias do capitalismo: ‘no puedes comprar mi alegria... no puedes comprar mis dolores’.

’’Que lo escuchen
en todo el continente
siempre recordaremos
campeon al Chapecoense"

Torcida do Nacional unida com torcidas do Santa Fé, Millionários e América de Cali.

Homenagem da torcida do Atl. Nacional no estádio cantando “Vamo,Vamo, Chape” no dia que deveria ser a final




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