Educação

CIÊNCIA

Cortes em todos os níveis da educação, vacinas não fabricadas e o incêndio do Museu Nacional são 3 faces da mesma tragédia

Desde ontem, estamos vendo, revoltados e com grande tristeza, um patrimônio inestimável ser consumido pelas chamas que tomaram o prédio do Museu Nacional no Rio de Janeiro.

Maíra Machado

Professora da rede estadual em Santo André e militante do MRT

segunda-feira 3 de setembro| Edição do dia

Maíra Machado, autora deste artigo, é professora da rede estadual do estado de São Paulo e candidata a Deputada Estadual pelo MRT em São Paulo através de filiação democrática pelo PSOL. Acesse aqui a sua página no Facebook.

Trata-se da mais antiga instituição de ciências do Brasil. Ficava no Palácio de São Cristóvão, em um parque, o Quinta da Boa Vista. Desde 1938, é tombado pelo Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, o IPHAN. O tamanho real do estrago ainda não é possível avaliar. Mas, diante das imagens que nos chocaram a todos, sabemos desde já que o dano é irreparável. Entre os 20 milhões de itens que resgatavam parte da memória brasileira nos campos das ciências naturais e antropológicas, entre peças provenientes de diversas partes do mundo, estavam o crânio de Luiza, esqueletos de dinossauros, plantas fossilizadas, entre outras peças tidas como as mais relevantes da memória brasileira. Recuperar tudo isso, sabemos desde já, é impossível. Não importa o que digam os políticos com suas lágrimas de crocodilo em seus discursos hipócritas.

As manifestações nas redes sociais no momento em que o incêndio transformava em cinzas peças que são importantes não apenas para nós, brasileiros, mas para a humanidade, iam desde a mais genuína revolta até a mais inconsolável tristeza. Todos sentiam, especialmente os moradores desse estado já tão castigado. Desde o escândalo das obras faraônicas para as Olimpíadas até a intervenção federal, passando pela crise nas universidades estaduais e federais, o que vemos é uma verdadeira tragédia, à qual agora soma-se a do Museu Nacional.

O Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa ensina aquilo que os governos brasileiros parecem nunca ter aprendido: um “museu” é uma “instituição dedicada a buscar, conservar, estudar e expor objetos de interesse duradouro ou de valor artístico, histórico, etc.”. E o que precisa um museu para cumprir sua mais básica tarefa? Para responder a essa pergunta, é importante olhar a questão de conjunto, o quadro completo.

O Museu Nacional pertence à Universidade Federal do Rio de Janeiro. Como sabemos, o sistema universitário está em colapso, agravado ainda mais pela PEC 55, a atinga PEC 241. Em outubro do ano passado, ou seja, há pouco menos de 1 ano, a UFRJ não tinha meios para pagar a conta de energia elétrica. Lembremos dos banquetes promovidos por Michel Temer para que seus amigos golpistas votassem a favor da PEC do Fim do Mundo, tudo isso com dinheiro público e para aprovar o congelamento em investimentos… públicos, como em saúde e educação.

Os efeitos não tardaram. Desde de dezembro de 2016, quando a PEC foi aprovada em sessão relâmpago e extraordinária, foram golpes atrás de golpes deferidos contra os trabalhadores, as mulheres, a juventude, o povo negro, a população pobre de todo o país. Mas não tenhamos ilusões de que antes vivíamos num país de maravilhas. Antes da PEC do Fim do Mundo, no que diz respeito especificamente à área da Educação, o Ministro da Fazenda de Dilma Rousseff já tinha proposto o “Plano de auxílio aos Estados, Municípios e Distrito Federal”, que consistia em renegociar as dívidas congelando gastos em serviços públicos e com servidores.

No último 2 de agosto, tivemos a farsa do Dia D, imposto pelo Conselho Nacional de Secretários da Educação (Consed) e o MEC para levar a cabo um dos mais duros ataques à educação dos últimos anos. Além disso, em um momento em que vemos o judiciário agindo de forma cada vez mais arbitrária, interferindo nas eleições para eleger o candidato escolhido a dedo pelo mercado e impedindo a população de votar em quem quiser, é preciso lembrar que a presidente do STF, Cármen Lúcia, em maio deste ano, suspendeu um aumento de 10,5% aos professores do Estado de São Paulo. O argumento dessa exímia defensora do golpe foi de que nossos salários representam um “grave risco à economia pública”. Mas, ao mesmo tempo, a mulher que preside o Supremo não teve nenhuma vergonha de junto com seus comparsas aumentar os salários dos membros de sua casta. Para isso serviu o golpe, regido por esses senhores de toga que nos conduzem a tragédias como a do Museu Nacional.

Outra tragédia exaustivamente anunciada, também resultado da PEC do Fim do Mundo, é na área da saúde. Vamos lembrar do caos que vivemos o ano passado, com surtos de febre amarela pelo país inteiro, falta de vacinas generalizada, especialmente para recém-nascidos, como em Campinas, as enormes filas em São Paulo e morte de crianças em Pernambuco.

Mas a falta de vacinas não é apenas resultado direto dos cortes em saúde pública, ela resulta, ainda, do corte das verbas destinadas à ciência, à pesquisa e à educação. Mais uma face cruel dessa lei que se constitui no carro chefe dos golpistas. Ao limitar o teto de gastos, nome oficial da lei, os capitalistas descarregam a crise nas costas dos trabalhadores e transferem aos ricos bilhões da ilegal, ilegítima e fraudulenta dívida pública. Sofrem todos os setores. E isso tudo é parte do projeto golpista de país, do qual o exemplo mais recente são as mudanças no orçamentos que decorreria no corte de 93 mil bolsas de pesquisa financiadas pela Comissão de Aperfeiçoamento de Pessoa de Nível Superior (Capes).

Assim, se insisto em relembrar o apelido “fim do mundo” pelo qual ficou popularmente conhecida a PEC 55, é por que é a isto que querem nos conduzir: ao fim do mundo. Por isso é fundamental denunciar com todas as forças o aprofundamento do golpe institucional em todas as suas formas, da prisão arbitrária de Lula a cada ataque que promove o governo golpista de Temer, de braços dados com o judiciário arbitrário. Denunciar essas eleições manipuladas e a ganância dos golpistas que transformam nossa vida num inferno, que querem nos fazer trabalhar até morrer e que até lá trabalhemos até morrer de exaustão. A reforma trabalhista já promove suas tragédias. Ou não é uma tragédia o caso da Latam, a exemplo do que já ocorre em centenas de fábricas pelo Brasil?

Se insisto no termo “fim do mundo”, é por que muitas vezes podemos pensar que já estamos vivendo essa época. Algo que favorece esse sentimento advém também da paralisia dos setores majoritários da esquerda, seja por parte do PT e do PC do B na maneira conciliatória com que buscam enfrentar os ataques da burguesia e da direita, mantendo a paralisia dos sindicados que controla, seja pelo PSOL, que deveria colocar suas forças na denúncia da prisão arbitrária de Lula e dessas eleições manipuladas.

Se insisto, ainda mais uma vez, no termo “fim do mundo”, é por que, no que diz respeito aos meus alunos, e a todos os alunos do Brasil e de outros países, pois entendo que um acervo como o de que dispunha o Museu Nacional pertence e deve estar a serviço da juventude e da classe trabalhadora, esse conhecimento foi definitivamente negado. Como professora da rede estadual de São Paulo, não tenho ilusões de que estivesse ao alcance dos meus alunos. Mas, como militante revolucionária, conheço a diferença entre interdição e destruição. O que estava interdito poderia pela força da nossa luta, na qual tenho confiança inquebrantável, tornar-se acessível. Como sabemos, como, aliás, procuro discutir com meus alunos em nossas aulas de história, uma antiga prática de governos arbitrários é matar a história comum para depois dominar o futuro.

Por isso, por fim, pelos meus alunos e por nossa memória, diante da tragédia que vivemos e também porque as chamas do Museu Nacional jamais irão parar de arder em nossos olhos, se insisto no termo “fim do mundo”, é para negá-lo.




Tópicos relacionados

Incêndio   /    Eleições 2018   /    Ciência e Tecnologia   /    Educação   /    Saúde

Comentários

Comentar