Cultura

TEATRO

Coriolano, da Cia. Ocamorana: a tirania de ontem fala à fome de hoje

Fernando Pardal

@fepardal

quinta-feira 7 de junho| Edição do dia

A Cia. Ocamorana é um desses preciosos grupos de teatro que há anos vem fazendo o “teatro a contrapelo” na cidade de São Paulo. Está por fora dos grandes circuitos, sem os patrocínios milionários das leis de “incentivo cultural” que são geridas pelas divisões de marketing das grandes empresas, que, com suas imensas renúncias fiscais tornam-se os responsáveis por decidir que “produto cultural” vai casar melhor com a imagem de sua empresa, transformando a arte em uma crua peça de propaganda empresarial.

Com os magros recursos das poucas leis de incentivo – arrancadas com muita luta, diga-se de passagem – que estão por fora dessa lógica (Lei de Fomento ao Teatro da Cidade de São Paulo e Prêmio Zé Renato), a Ocamorana traz ao público a peça Coriolano, obra de Shakespeare adaptada no século XX por Bertolt Brecht. Dirigida por Márcio Boaro, a montagem não se trata de “peça de museu”, de curiosidade histórica ou “distração”. A Ocamorana, como Brecht em seu tempo, quer falar às pessoas hoje sobre os problemas de hoje. O distanciamento histórico, ao tratar de um cenário da Roma antiga com a história de um general tirânico, faz parte do efeito épico, tal como formulado pela concepção teatral de Brecht. Serve para fazer os espectadores refletirem sobre suas próprias questões históricas, que, projetadas em um outro, melhor servem para mostrar-lhes seus próprios problemas.

O preço do pão: eis a questão que abre a peça, com a organização da plebe romana para exigir do Senado que possam comer, possam ter o alimento a preço justo. Em tempos de retorno ao cozimento à lenha por falta de dinheiro para pagar um botijão de gás, a luta por pão da plebe encontra seu eco nos brasileiros achincalhados pelo Senado e seu presidente golpista. Que dizer então de Marcio, general romano, patrício encarregado de combater a plebe, de afogar em sangue a revolta popular motivada pela fome. Ele, transformado em herói nacional por conduzir as campanhas militares contra os Volscos, é proposto para Cônsul da República e enfrenta a oposição dos Tribunos do Povo, que conseguem colocar o povo contra ele por sua arrogância ao se recusar a pedir os votos do povo.

As reflexões colocadas pela peça são profundas e múltiplas, ultrapassando a mera analogia das revoltas da plebe romana contra os patrícios e seus tiranos à luta dos explorados e oprimidos no Brasil contra os capitalistas e seus políticos golpistas. A complexa relação dos Tribunos do Povo, representantes eleitos pela plebe para o Senado, e seu jogo de instigar a revolta e contê-la a seu bel prazer é, por exemplo, mais um dos flancos que pode levar a refletir sobre a relação dos trabalhadores brasileiros com suas tradicionais lideranças – dos sindicalistas da CUT a Lula. Em tempos em que o regime político brasileiro ganha a cada dia traços mais agudos de autoritarismo bonapartista, com o exército sendo ativado para intervenções e contenção de conflitos, bem como o judiciário se atribuindo o papel de árbitro político, as reflexões sobre os caminhos do autoritarismo que propõe a peça são muito importantes. Mas, enfim, não pretendo aqui aprofundar as inúmeras discussões que a excelente montagem da Ocamorana incita, e meu objetivo é muito mais modesto: instigar o desejo ao público de ir ao Teatro Alfredo Mesquita para ver a montagem da Ocamorana, em cartaz até o começo de julho. (Veja teaser abaixo).

Mas não poderia deixar de comentar também um outro texto crítico que trata desse espetáculo. Marcelo Coelho, sociólogo do conselho editorial da Folha, publicou na Ilustrada – caderno cultural desse jornal paulistano de grande circulação – um texto abordando Coriolano e a peça “A noite de 16 de janeiro”, dirigida por Jô Soares. O artigo chama-se “Teatro sério, mas no fim do mundo”, e já por esse título mostra que Coelho simplesmente não entendeu nada. Uma das primeiras coisas que Coelho não entendeu é que, diferente de Jô Soares e sua “distinta” peça no TUCA (Teatro da PUC, em Perdizes, bairro “nobre” da cidade), a Cia. Ocamorana não faz seu teatro para os colunistas sociais, a “elegante” e “culta” classe média paulistana. O que é o “fim do mundo” para Coelho (o teatro Alfredo Mesquista fica na Avenida Santos Dumont 1770, a cerca de 10 minutos andando de duas estações de Metrô: Carandiru ou Tietê) – cujo referencial de vida deve oscilar entre a Vila Madalena, Jardins, Higienópolis e Perdizes – é ainda muito perto do centro em comparação com o público que a Ocamorana elegeu como seu preferencial: toda semana, ônibus de escolas vindos muitas vezes das regiões mais periféricas de São Paulo trazem dezenas de jovens espectadores para assistir Coriolano no que Marcelo Coelho chamou de “sarcófago” e “sepulcro”.

A precariedade que efetivamente existe é de responsabilidade do Estado, que não garante ao “teatro sério” da Ocamorana um milésimo dos recursos obtidos pela renúncia fiscal para toda a montanha de lixo enlatado que as empresas patrocinam com o não pagamento de impostos – que deixam de financiar as iniciativas independentes. Isso tudo pouco importa para o crítico da Folha, que tranquilamente paga os 120 reais do ingresso da peça de Jô Soares que cita em seu texto.

Esse é apenas o primeiro elemento de um texto bizarro que expressa de cabo à rabo a concepção de teatro dessa “cabeça pensante” da imprensa patronal, aquela mesma que faz parte da lógica onde quem manda na cultura, como na imprensa – e inclusive no Estado –, são os “donos da bola”, os capitalistas e seus “caprichos”. Coelho segue nessa linha criticando a “linhagem brechtiana” dos atores da Ocamorana que, longe de quererem encenar personagens “simpáticos e cativantes”, como sugere Coelho para “melhorar” a peça, se propõem a colocar questões e fazer seu público pensar, questionar, refletir. Sem entender nem remotamente qual o propósito e a intenção do teatro épico, o crítico da Folha caracteriza a “opção estética” (não passa pela sua cabeça que seja também uma opção política) do grupo como “de pouco risco”. Claro, muito mais “ousado” seria ter personagens “amáveis” e “comunicativos” para tornar o problema “ético” na peça “muito mais insuportável”. É nítido aqui que a leitura de Coelho é incapaz de ir além do “dilema individual” de personagens de uma antiguidade remota, colocando “problemas universais” de ordem “moral” mas que em nenhum momento teriam a ver com questões políticas, e que dirá com questões políticas atuais.

Lendo essa crítica, compreendemos uma vez mais porque não é à toa que o teatro épico só pode existir numa sociedade como a nossa se for em forma de caricatura, ou nos “sarcófagos” onde grupos como a Ocamorana conseguem resistir bravamente, como um teatro de guerrilha que, passando ao largo do entendimento dos “eruditos” críticos da Ilustrada, se comunica diretamente com os estudantes das escolas públicas, os filhos da classe trabalhadora, a quem os problemas expressos na dramaturgia épica interessam diretamente. É muito forte, porém não surpreendente, portanto, um relato do assistente de direção da peça, Eduardo Campos Lima, sobre uma jovem espectadora, estudante de uma escola de Heliópolis, que, fascinada pela peça, dedicou-se a pesquisar a peça, a história de Coriolano, e disse que ver a montagem foi a coisa "mais legal" que tinha feito em meses. Aparentemente, a “rigidez” do texto, a “falta de carisma” dos atores e a “diminuição” da “psicologia” e das “hesitações” do protagonistas que tanto incomodaram o exigente crítico acostumado aos “refinados” produtos culturais da burguesia, não foram um problema para a jovem adolescente que, graças ao embate da Ocamorana por seguir fazendo um teatro na contracorrente da história, pôde se encontrar com o Coriolano de Shakespeare e Brecht.

Serviço:
Coriolano - Cia. Ocamorana
Direção de Marcio Boaro
Teatro Alfredo Mesquisa - Avenida Santos Dumont, 1770 - Santana
De 01/06 a 01/07. Sextas e sábados às 20:30; Domingos às 19h.
R$ 20.




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