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Casos de estupros e assédios no esporte são minimizados por mídia, federações e clubes

terça-feira 3 de outubro| Edição do dia

Rotineiramente escutamos casos de estupros, abusos sexuais e pedofilia em jornais e programas de televisão. É um mal que perturba a humanidade trazendo transtornos psicológicos e até mortes em todos os lados do planeta, infelizmente, como em todos os outros âmbitos do capitalismo, esse mal está intimamente inserido no ambiente esportivo, principalmente no esporte de base.

No final do mês de setembro a Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados promoveu uma audiência pública para debater sobre exploração sexual de crianças no futebol nacional. A audiência servia para cobrar da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) o cumprimento de um acordo firmado antes da Copa do Mundo do Brasil de 2014 através da CPI da Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes.

O acordo tratado como “LEGADO” da Copa, consistia em adotar 10 medidas para evitar abusos sexuais e tráfico de jovens jogadores em categorias de base e escolinhas de futebol, e mais uma vez a CBF não cumpriu o acordo e só efetivou duas medidas. A primeira foi de campanhas educativas e na criação de um grupo interno de trabalho. No entanto essas medidas não produziram nenhum resultado, e nem produziriam mesmo.

Para a deputada Erika Kokay (PT-DF), que presidiu a CPI, o não cumprimento das medidas incumbidas à CBF é um desrespeito às vítimas e ao congresso nacional. A CBF também não enviou nenhum representante e nem justificou ausência no encontro para debater o tema.

Diferentemente da entidade máxima do futebol nacional (CBF), o ex-goleiro da Portuguesa de Desportos de São Paulo, Alê Montrimas que ficou em evidencia este mês por ser “militante” contra essa cultura de abusos e estupros que se tornaram comum no cotidiano de base do esporte mundial, o ex-atleta, afirma que sofreu várias vezes com assédio de técnicos, preparadores e dirigentes. Alê conta que com 14 anos ele sofreu seu primeiro assédio e que teve sorte por contar com o apoio familiar, diferentemente de seus amigos.

O tema de abusos é de nosso combate diário em todos os âmbitos, e no esporte nos preocupa pois falamos técnicos, dirigentes, preparadores e profissionais considerados responsáveis por “cuidar” de filhos da classe trabalhadora que sonham com a chance de se tornarem atletas profissionais durante a prática esportiva. São profissionais que aproveitam da relação próxima para abusarem sexualmente dos atletas (crianças e adolescentes).

Alê foi responsável pela elaboração do livro “Futebol: Sonho ou Ilusão?” que dedica um capítulo inteiro ao tema. Ele afirma que decidiu falar sobre o tema pois precisava contribuir de alguma forma com o futebol. Ele acredita que a CBF precisa agir, afinal é órgão máximo do futebol brasileiro, e precisa viabilizar uma ação de combate ao abuso sexual no futebol brasileiro e parar de jogar a sujeira para debaixo do tapete.

A realidade se mostra comum em quase todos os países. Em novembro de 2016, o ex-atleta de futebol inglês Andy Woodward, assim como Alê, resolveu encerrar um silêncio de duas décadas para denunciar abuso sexual sofrido no início de sua carreira, onde o responsável daquele episódio teria sido o seu técnico. Curiosamente, quando foi questionado se alguém foi responsabilizado, se algo havia sido feito sobre o episódio ele também respondeu; “não houve nada, é como um lixo que é varrido para debaixo do tapete”.

Woodward trata o tema de assédio estupros e abusos sexuais no futebol como uma epidemia que ataca e não recebe punições, além de não ter espaço para discussões e combate efetivo. O ex-atleta é membro e parceiro da ONG Enough Abuse (Chega de Abuso, na tradução para o português) que tem como fundadora a mãe de três crianças abusadas na escola.

Segundo notícia divulgada no ano de 2016, ao menos 350 pessoas denunciam abusos sexuais apenas no futebol britânico e que esses números só apareceram graças a denúncia de Andy Woodward.

Existe no meio esportivo, no entanto, um descaso com o tema. Federações, clubes e órgãos responsáveis pelo esporte não abordam e não constrõem medidas de combatem ao abuso sexual.

Enquanto isso milhares e milhares de crianças, filhos e filhas da classe trabalhadora sofrem abusos nos ambientes em que deveriam ter segurança e oferecer um desenvolvimento esportivo-social. É necessário que a sujeira não seja mais jogada para debaixo do tapete.




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