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IX COLÓQUIO MARX ENGELS

CEMARX: Auditório lotado na mesa "Arte da Estratégia e Revolução Socialista no Século XXI", na Unicamp

No dia 20/7, durante o IX Colóquio Marx Engels da Unicamp, realizou-se a Mesa-Redonda: "Arte da Estratégia e Revolução Socialista no Século XXI", com Matías Maiello do Instituto do Pensamento Socialista (IPS) Argentina e da Universidade de Buenos Aires (UBA), Simone Ishibashi, doutoranda em Economia Internacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e Iuri Tonelo, doutorando em Sociologia pela Unicamp. Gonzalo Adrian Rojas, professor da Universidade Federal de Campina Grande (UFCG) mediou o debate que lotou o Auditorio II do IFCH-Unicamp.

sábado 21 de julho| Edição do dia

O auditório ficou lotado para a apresentação que debateu alguns aspectos chave do marxismo revolucionário em nosso tempo, à luz dos balanços de distintas problemáticas que atravessaram alguns dos principais debates de estratégia marxista do século XX. Estas problemáticas estão desenvolvidas amplamente na obra "Estratégia Socialista e Arte Militar", de autoria de Matias Maiello e Emilio Albamonte, dirigentes do Partido dos Trabalhadores Socialistas (PTS), organização irmã do MRT na Argentina. Obra esta que estará em breve disponibilizada em português para o público brasileiro.



Iuri iniciou a apresentação pontuando que, se por um lado não assistimos fenômenos catastróficos como os que se deram pós-crise de 1929, também não assistimos nenhuma solução sustentável para o capitalismo nesses últimos dez anos. Ou seja, mesmo sem uma “catástrofe” econômica ou irrupção de processos de revolução e contrarrevolução como nos anos 1930, a crise gerou primeiros e importantes fenômenos de luta de classes, transformações os sistemas políticos e novas disputas geopolíticas (internacionais) que, tomadas em seu conjunto, anunciam uma nova etapa do sistema capitalista em âmbito internacional.


Diante da crise, programas neokeynesianos não fizeram mais de descarregar ajustes sobre as costas dos trabalhadores, e os fenômenos neorreformistas europeus rapidamente mostraram sua integração ao regime capitalista que ataca os trabalhadores: o Syriza passou da retórica "antineoliberal" para ser o aplicador direto dos ajustes exigidos pela Alemanha e a Troika, enquanto o Podemos (que inspira no Brasil partidos como o PSOL) governa Barcelona e Madri perseguindo os trabalhadores, e sustenta junto à direita - e a monarquia - uma luta contra o direito de autodeterminação do povo catalão. Frente a estes programas que buscam administrar o sistema capitalista nos limites permitidos pela burguesia, definiu que o debate de estratégia reinvade o tabuleiro político internacional, com debates teóricos e políticos, e as experiências da esquerda cada vez mais ligados aos processos da realidade precisam tirar lições para construir uma estratégia para vencer.



Simone tratou dos organismos de auto-organização de massas e sua necessária relação estratégica com a existência de um partido revolucionário dos trabalhadores para poder derrotar a burguesia. O exemplo mais avançado desta auto-organização foram os soviets (conselhos operários, camponeses e de soldados) na Revolução Russa de 1917. Ao contrário daqueles que abandonam a defesa de organismos de tipo soviéticos, trata-se de impulsionar seu desenvolvimento e batalhar no interior deles para que a maioria dos trabalhadores adote uma orientação revolucionária. Segundo Trotski, os soviets se tratavam de verdadeiros organismos da insurreição, que articulavam os volumes de força necessários para o choque armado sem o qual nenhuma revolução se dá. Para o revolucionário russo, eram “organismos das massas para a insurreição, da insurreição e depois da vitória os organismos de poder”.

Concluiu dizendo que a relação entre partidos e sovietes expressa a fina estratégia para a conquista de hegemonia da classe trabalhadora sobre todos os setores oprimidos e explorados, e dessa maneira levar adiante a concretização de que a emancipação da classe trabalhadora só pode ser obra dos próprios trabalhadores, que passam a ser dotados de uma estratégia, que prepare a arte da insurreição. Tal lição é tão urgente de ser retomada, como é ainda hoje pouco debatida. Mais que nunca, em tempos de grandes cataclismos e em que a esquerda muitas vezes se contenta em manter posições em sindicatos, ou se restringe a buscar postos eleitorais, a tradição expressa na relação entre a autodeterminação das massas e o partido revolucionário deve ser revivida.

Matías Maiello, cuja intervenção reproduzimos abaixo na íntegra, tratou de sintetizar alguns dos principais debates de estratégia que atravessaram o marxismo no século XX, como a discussão entre Rosa Luxemburgo e Karl Kautsky acerca da "estratégia de desgaste e estratégia de aniquilamento", entre outros, colocando que, também no século XXI, tem grande valia a concepção de Trotski segundo a qual "a vitória não fruto maduro da maturidade do proletariado, mas é uma tarefa da estratégia": retomar a relação dialética entre classe, partido e direção, a interação entre defesa e ataque e o enfrentamento estratégico contra as burocracias operárias (política e sindicais) como agentes da ação ampliada do Estado burguês no movimento operário, são questões fundamentais num momento em que a classe trabalhadora tem um enorme peso social para poder vencer.


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"A necessidade imperiosa da estratégia", intervenção de Matías Maiello no IX Colóquio Marx Engels

Com o auge de formações políticas como o Podemos no Estado espanhol, ou o auge que tiveram governos como o do chavismo na Venezuela, ou o kirchnerismo na Argentina, ou aqui no Brasil o petismo, ganharam especial popularidade os desenvolvimentos de Ernesto Laclau.

Partindo da impossibilidade da revolução, Laclau defende uma estratégia, reformista certamente, passando por alto as bases econômicas da sociedade capitalista, as classes sociais e as relações de força, para situar o problema no terreno da articulação do discurso.

No livro “Estratégia socialista e arte militar”, que escrevi com Emilio Albamonte, propomos um enfoque oposto. Pensar a estratégia dando conta das forças materiais que atravessam a sociedade capitalista atual. E nesse sentido, abrir caminho à articulação de volumes de força material para o combate.

A etapa atual não resultou ainda em revoluções, mas forneceu importantes processos de luta de classes, dos quais não pode ficar alheia a reflexão estratégica. Entre eles, o importante processo na Grécia, que depois de 2010 foi atravessada por mais de 30 greves gerais que, não obstante, não puderam derrotar os planos da Troika, dando lugar à ascensão do Syriza com o qual muitos se iludiram e que hoje é o aplicador daqueles mesmos planos de ajuste que dizia que combateria.

Dito isto, para começar me pareceu oportuno colocar uma citação do dirigente do Podemos, Pablo Iglesias, que me parece ilustrativo para introduzir a discussão de estratégia. Como sabem, em 2015 chegou ao governo na Grécia a coalizão Syriza, que se apresentava como um partido de reformas do capitalismo que se opunha aos planos de ajuste da Troika. No entanto, quando chegou ao poder se transformou em aplicador desses mesmos ajustes que dizia rechaçar.

Perguntaram para Pablo Iglesias se o Syriza teria que ter tomado medidas “duras” contra a Troika, ao invés de terminar aplicando o ajuste que em teoria diziam combater. A isto, Pablo Iglesias respondeu o seguinte, cito literalmente:
O problema que se deve verificar é se alguém a partir de um Estado pode se colocar semelhante desafio (…) se nós estamos governando e vamos fazer algo duro, de repente temos boa parte do exército, do aparato da polícia, todos os meios de comunicação e tudo contra você, absolutamente tudo.”

É interessante essa reflexão porque marca claramente dois caminhos entre os quais a estratégia deve escolher.

Essa é a primeira pregunta estratégica que temos que responder.

Pode escolher um primeiro caminho que consiste em se ater aos marcos do que está instituído e atuar dentro dos limites impostos pelo capitalismo, combinando-o, isso sim, com um discurso “de esquerda”. Ou um segundo caminho: ir além dos limites das instituições, atacar os interesses capitalistas e enfrentar o Estado burguês, para o qual, efetivamente, tenho que me preparar para enfrentar toda uma série de forças materiais que vão se colocar para enfrentar essa perspectiva.

No primeiro caso, quando escolhemos respeitar os limites impostos pelo regime político e pelo capitalismo poderíamos dizer que, em um sentido forte, não há estratégia, se a entendemos como a entendia Clausewitz. Ou seja, não há estratégia do ponto de vista da utilização dos combates táticos parciais com o fim de dobrar a vontade do inimigo, ou, como dizia Trotski, como “a arte de se colocar no comando”.

O que temos em seu lugar é a administração, com um discurso “de esquerda”, dos interesses dos capitalistas.

Isso termina como o Syriza, aplicando o ajuste, apesar de ter feito um referendo onde 60% votou por enfrentar a Troika e rechaçar o ajuste. Syriza tinha um programa mais de esquerda do que o que finalmente fez, contudo, a crise capitalista limita as opções reformistas. A alternativa é: ou enfrentar ou se submeter aos ditames do capital, há cada vez menos espaço para alternativas intermediárias.

Hoje na América Latina, nos últimos anos temos muitos exemplos do que estou assinalando. Sem ir muito longe, aqui no Brasil Dilma ganhou as eleições de 2014 dizendo que não ia ajustar e terminou ajustando. Algo semelhante ocorreu no Equador, ou atualmente na Nicarágua. Em todos esses casos, o resultado político é que os governos pós-neoliberais terminam fortalecendo as alternativas de direita e o próprio imperialismo.

Então, se tomamos o caminho de aceitar o enfrentamento com os capitalistas, é evidente que para fazê-lo é necessário uma força material (e “moral”, diríamos com Clausewitz). Então chegamos a uma segunda pergunta estratégica fundamental: Que tipo de força social e política é necessário articular? Tenho que construir uma força capaz de encarar esses enfrentamentos. Trata-se de um trabalho estratégico que, obviamente, não posso começar no dia do “assalto ao Palácio de Inverno”, no dia da revolução.

Para abordar este problema é fundamental ter uma aproximação realista da estratégia. Clausewitz tinha uma frase muito ilustrativa a respeito disso, dizia que “na estratégia tudo é simples, mas nem tudo é fácil”. Que queria dizer? Que uma vez definido o curso estratégico que vou seguir, depois tenho que fazê-lo efetivamente. Quando passo da “guerra no papel” para a realidade aparecem os problemas. Aparece a fricção, como a chamava Clausewitz, porque o terreno da ação é o terreno da incerteza, do acaso, do medo.

Então, diretamente ligada à anterior, se coloca uma terceira pregunta estratégica fundamental: como formar uma força revolucionária nas condições que acabamos de descrever? Essa é uma pregunta que atravessou a história do marxismo.
Por exemplo, vários de vocês conhecem da discussão em torno das categorias de “guerra de posição” e “guerra de manobra” que se toma a partir da obra do revolucionário italiano Antonio Gramsci. Muitas vezes essa discussão se vulgariza, por exemplo, quando se afirma que a “guerra de posições” consiste em conquistar determinados dentro do Estado capitalista para a partir daí motorizar reformas. Esse não é de forma alguma o pensamento de Gramsci. Em “Estratégia socialista e arte militar” abordamos extensamente estes debates em contraponto com o acadêmico marxista Peter Thomas.

Mas aqui quero me referir a um antecedente fundamental do debate entre “guerra de posição” e “guerra de manobra”. Me refiro à discussão da segunda década do século vinte sobre a “estratégia de desgaste” e a “estratégia de abatimento”.
Quem introduz esses termos no debate é Karl Kautsky, que era o referencial teórico da Segunda Internacional. Os toma de um historiador militar chamado Hans Delbrück. Delbrück, a partir de uma série de observações deixadas por Clausewitz para revisar sua obra, elabora uma concepção onde há dois pólos da arte da estratégia: por um lado, a “estratégia de desgaste”, quando o objetivo são conquistas limitadas nas fronteiras, e, por outro lado, a “estratégia de abatimento”, quando o objetivo é diretamente abater o inimigo.

Para que Kautsky retoma isso? Para discutir contra Rosa Luxemburgo. A discussão é a seguinte. Em 1910, em uma situação marcada pelas lutas operárias e mobilizações democráticas de massas, Rosa afirmava que se devia fazer agitação sobre a necessidade de uma greve geral política. Kautsky se opõe, dizendo que não era correto arriscar a organização socialdemocrata nessas batalhas e que a chave passava por obter uma grande votação nas próximas eleições.

Então o que estava colocado para Kautsky era uma “estratégia de desgaste”. A que se referia? Kautsky explicava da seguinte forma, cito textualmente: “A ciência moderna da guerra diferencia dois tipos de estratégia, a estratégia do abatimento e a estratégia de desgaste. A primeira reúne suas forças de combate rapidamente, para ir ao encontro do inimigo e lhe infligir golpes decisivos (…) Na estratégia de desgaste, pelo contrário, seu chefe evita todo combate decisivo: busca manter o exército inimigo em constante alerta por meio de manobras de todo tipo, sem lhe dar oportunidade de estimular suas tropas através de triunfos”.

Rosa Luxemburgo lhe responde que toda sua elaboração sobre a “estrategia de desgaste” era o fundamento para uma orientação que consistia em “nada mais que parlamentarismo”. Ainda que depois se demonstrou que estava certo isso que Rosa dizia, nesse momento ainda não era exatamente assim, pelo menos em relação ao que Kautsky efetivamente dizia. Kautsky continuava afirmando que no momento indicado era necessário passar para uma “estratégia de abatimento”. Já Rosa Luxemburgo, obviamente, não era antiparlamentarista, não estava aí o problema.

A diferença era que Rosa sustentava que a socialdemocracia devia cumprir um papel de vanguarda no desenvolvimento das tendências mais avançadas da luta de classes nesse momento, e não simplesmente esperar as eleições.

O que Rosa Luxemburgo está discutindo é algo que em que incorre até os dias de hoje grande parte da esquerda, inclusive a que se reivindica socialista, de entender a política somente como intervenção eleitoral uma vez a cada dois anos, e a luta exclusivamente como luta sindical. Rosa, sem negar a intervenção nas eleições, não separa a intervenção política da intervenção na luta de classes. O que para Kautsky são duas estratégias supostamente complementares, para Rosa são duas estratégias alternativas que se opõem entre si.

Bem, aqui chegamos a um dos problemas fundamentais do esquema de Kautsky das duas estratégias. Para compreendê-lo, é interessante a explicação que Lars Lih, um acadêmico marxista norte-americano, apresenta da visão de Kautsky.

Segundo Lih: “Kautsky explicava que a estratégia de ‘desgaste’ (a habitual prática do Partido Socialdemocrata da Alemanha de enérgica educação socialista e organização) era apropriada para uma situação normal, não revolucionária, enquanto que a de [estrategia de] ‘abatimento’ (greves políticas de massas e outros meios não parlamentares de pressão) era conveniente para uma situação verdadeiramente revolucionária.

Mas, é possível durante toda a etapa prévia eludir as principais batalhas seguindo a rotina sindical e eleitoral, como dizia Kautsky, e, de repente, quando a situação se torna revolucionária combater decididamente? Não, não é possível. Trata-se de uma ideia inaplicável na realidade, e, não por acaso, para Kautsky nunca chegou a hora da “estratégia de abatimento”.

Por que? Porque a realidade é muito mais complexa. Em primeiro lugar porque não podemos reduzir a realidade somente à existência de situações claramente “não revolucionárias” ou claramente “revolucionárias”. Não apenas porque além disso há situações contrarrevolucionárias ou reacionárias mas porque a realidade está cheia de situações transitórias, de um degradê de situações intermediárias, híbridas, que não estão claramente definidas. E é justamente nesses momentos “transitórios” em que a atividade do partido revolucionário é fundamental.

Clausewitz se enfrentou com um problema parecido no terreno da teoria militar. Ele dizia que a guerra era um camaleão, que sob o mesmo fenômeno guerreiro estavam compreendidas desde as guerras napoleônicas, que Clausewitz tendia a assimilar à categoria de “guerra absoluta”, até guerras onde praticamente não se disparava um tiro, nas quais não se passava da “observação armada”. Se existe toda essa gama de guerras, ¿como abordá-las então em sua complexidade? Essa é a pregunta que se faz Clausewitz.

Clausewitz responde que se é verdade que a guerra é um camaleão, por trás dessa heterogeneidade sempre há três elementos que estão presentes, que chamou de “estranha trindade”. Essa estava composta por: o impulso elementar ou ódio que atribuía ao povo, o cálculo de probabilidades que atribuía aos generais e ao exército, e a política que atribuía ao governo. Em toda guerra estão presentes estes três elementos em uma determinada relação.

Do ponto de vista do marxismo se pode estabelecer um tipo de analogia muito produtiva com aquela “trindade”, com muitas diferenças importantes. Não vou desenvolver as diferenças aqui por uma questão de tempo, mas os convido a lê-las no livro. A analogia que pode se estabelecer é entre aquela “trindade” e a interação que existe entre classe, partido e direção no marxismo revolucionário.

Ou seja, toda situação se caracteriza, do ponto de vista subjetivo, por uma determinada relação entre classe, partido e direção. É desde esse ponto de vista que é possível nos orientarmos em uma situação concreta.

Por exemplo na Argentina, depois da importante ação de luta de setores de massas em dezembro do ano passado, com enfrentamentos com a polícia na Praça do Congresso, muitos se perguntavam como é possível que depois de uma importante ação como essa, que parecia abrir uma situação pré-revolucionária, não tenha acontecido nada. Para entender o que ocorre temos que ver, por exemplo, a importante ação da burocracia sindical para frear toda luta séria do movimento operário, e a ação do kirchnerismo para evitar a luta com o argumento de esperar as eleições de 2019.

Seguramente vocês podem ver o mesmo aqui no Brasil. Como aconteceu, por exemplo, depois da histórica paralisação geral de vinte e oito de abril de 2017, que depois não teve continuidade. Ou no papel da direção de Lula e do PT em diluir a resistência ao golpe de Temer, e inclusive sua passividade diante da própria prisão de Lula. Também poderia se pensar algo semelhante para explicar o avanço de direitistas como Bolsonaro ou a simpatia que despertaram os caminhoneiros que pediam a intervenção militar. Tudo isso parece muito difícil de explicar sem levar em consideração o papel totalmente passivizante da direção do PT e da CUT, e de grande parte da esquerda que se adapta a eles.

O que se complementa extraordinariamente com aqueles setores que se dizem de esquerda e se dedicaram a apoiar os golpistas, à Justiça da Lava Jato e as mobilizações de direita.

A conclusão é clara: a passividade não surge do nada, há muitos atores que contribuem de diferentes formas para construí-la.

Contudo, depois, quando a direita avança, não faltam pessoas de pseudo-esquerda que dizem “o problema é que os trabalhadores não querem lutar”, “A correlação de forças não permite” e coisas do tipo, abstraindo a atitude de suas direções. Mas para entender o que acontece temos que ver o quadro de conjunto. O movimento de massas, a classe, seus partidos e suas direções, como cada um atua.

Com isso quero dizer que, longe de qualquer automatismo ou fatalismo, a ação ou inação das forças políticas existentes é parte determinante da evolução da situação.

Nesse ponto encontramos uma grande coincidência entre Lênin e Rosa Luxemburgo. Que dizia Rosa frente a Kautsky em 1910? Que o partido socialdemocrata devia agitar a questão da greve geral e buscar desenvolver os elementos mais progressivos da luta de classes e não se limitar a esperar as eleições. Entre ambas atitudes havia uma grande diferença. Porque a própria situação de conjunto mudava se a socialdemocracia alemã, que era um partido muito grande, impulsionava o processo de lutas buscando ligar as lutas operárias com o movimento político que questionava o regime.

Diante da colocação de Kautsky de que não se deveria agitar a greve geral porque não havia situação revolucionária, ¿que responde Luxemburgo? Que essa resposta é abstrata, porque não se pode pensar se avançam os elementos pré-revolucionários da situação por fora da ação da própria socialdemocracia. E efetivamente tinha razão. As eleições finalmente chegaram em 1912 e a socialdemocracia teve um desempenho espetacular, foi o partido mais votado com mais do dobro de votos que o segundo, e ganhou 110 cadeiras. Mas, pouco tempo depois estourou a Primeira Guerra Mundial, então toda essa enorme força que a socialdemocracia havia conquistado no parlamento não serviu de nada para as massas. O partido havia tirado o centro de gravidade da luta de classes, já não era uma organização preparada para o combate na luta de classes.

Em 1914, a direção socialdemocrata traiu e votou no parlamento os créditos para que o imperialismo alemão encarasse a guerra, mas, além disso o partido estava desarmado politicamente para enfrentar na luta de classes uma situação catastrófica como a guerra. Esse foi o resultado, como afirmava Rosa Luxemburgo, de seu desenvolvimento por fora dos principais combates que colocava a luta de classes. Demonstrou, por sua vez, a impossibilidade daquela passagem repentina da “estratégia de desgaste” à “estratégia de abatimento” que Kautsky sugeriu anos antes.

Então, havia uma enorme distancia entre a luta política que se desenvolvia na socialdemocracia naquele momento e outras discussões fundamentais que atravessaram o movimento revolucionário previamente, por exemplo, a que ocorreu na Primeira Internacional entre Marx e Engels com Bakunin e os anarquistas. A discussão entre Marx e Bakunin era uma luta político-ideológica, essencialmente.
Mas a luta política que se expressava no debate Kautsky-Luxemburgo não era simplesmente uma luta político-ideológica, mas havia surgido uma força material enorme: as burocracias política e sindical no movimento de massas – que daí em diante se transformam em um elemento com muito peso na história do movimento operário. Ou seja, não era apenas uma luta político-ideológica, mas também um enfrentamento entre forças materiais.

A relação é explícita, Kautsky se opunha a Luxemburgo porque não queria se indispor com a burocracia sindical socialdemocrata. Por que? Porque a partir de 1906 (no Congresso de Mannheim) a burocracia sindical havia imposto ao partido a proibição de agitar a greve geral sem seu consentimento. Não estamos falando de uma proibição por parte do Estado, mas sim diretamente vindas dos próprios dirigentes sindicais. Dessa forma, a posição de Luxemburgo de agitar a greve geral se chocava diretamente contra a burocracia. A isto se deve acrescentar que, junto com a burocracia sindical, havia se desenvolvido no partido socialdemocrata também uma burocracia política à qual não convinha o desenvolvimento da luta de classes porque afetava a “unidade da oposição”, ou seja, as boas relações com a oposição liberal-burguesa e uma possível colaboração parlamentar com ela.

E aqui chegamos à diferença entre Lênin e Rosa Luxemburgo. Nesse ponto, Lênin fará uma inovação fundamental. Rosa e Lênin estavam de acordo em que a chave de um partido revolucionário passava por desenvolver os elementos mais avançados que oferecia a luta de classes em um determinado momento, mas a isso Lênin agregava uma questão fundamental: assinala que para isso são necessárias correntes revolucionárias no interior das organizações de massas. Lênin se dá conta de que é indispensável uma força material de combate que possa enfrentar não só ao Estado, mas também a burocracia no interior das organizações de massas (sindicais, políticas, sociais) como condição para poder desenvolver efetivamente as tendencias mais avançadas da situação.

Esse era um elemento central para a definição do partido revolucionário como “partido de vanguarda” e como “partido de combate”. Na concepção de Lênin o partido revolucionário devia organizar correntes próprias no interior das organizações de massas junto com os setores mais conscientes. Devia fazê-lo para enfrentar com êxito a força material das burocracias sindicais para contribuir para desenvolver os elementos mais avançados que oferece uma situação determinada da luta de classes.

Como conclusão dessa discussão das estratégias de desgaste e abatimento podemos dizer que não são duas estratégias complementares, para alternar quando a situação se torna revolucionária. Ou seja, não é que em situações que não são revolucionárias possa me dedicar exclusivamente a concorrer às eleições e participar das campanhas salariais uma vez por ano, e depois quando a situação se torna revolucionária ser o mais combativo de todos.

Quando falamos de estratégia de desgaste e estratégia de aniquilamento, estamos falando de duas estratégias que são alternativas, que inclusive tendem ao enfrentamento frontal entre si, à medida em que se desenvolve a luta de classes.

Analisamos o exemplo da socialdemocracia porque não é um exemplo isolado, é a história de todos os partidos que terminam sendo partidos de reformas. O governo do Syriza não é mais do que um novo capítulo ilustrativo sobre aonde levam as opções estratégicas de reformar o capitalismo em momentos de crise.

Depois dessas derrotas, a explicação, sempre é a mesma: que “as massas não lutaram”, que “não resistiram”, que “a correlação de forças não permitia”, quando na verdade as situações não vão se formando somente através da ação das massas, mas também através da luta de programas e estratégias, da ação de seus partidos e direções, que à medida que as situações se tornam mais agudas, são cada vez mais determinantes.

Os momentos catastróficos, de crises, de guerras, são uma marca distintiva do capitalismo, que cedo ou tarde eclodem. Hoje vivemos em um mundo cada vez mais convulsivo. Temos que nos preparar para maiores enfrentamentos entre potências, que cedo ou tarde colocarão um horizonte de novas guerras em grande escala, as causas estruturais que levaram à crise capitalista de 2008 estão longe de terem se apagado, pelo contrário.

Nossa região não é alheia a isso. Nossos países tampouco, nem a situação do Brasil nem a da Argentina estão alheias a este mundo convulsionado. As situações mudam e em determinado momento se agudizam e chegam aos enfrentamentos fundamentais entre as classes. Isso é uma constante na história. Como vimos aqui no Brasil ou finais dos 70, ou na Argentina em meados dos 70, ou mesmo na Argentina em 2001. A questão é se naqueles momentos foi possível articular uma força capaz de dar uma saída revolucionária à situação. E isso se decide, em boa medida, muito antes.

Desde já, os elementos que desenvolvi, são apenas algumas questões que debe encarar o trabalho da estratégia, a maioria referidas ao que desenvolvemos no primeiro capítulo de “Estratégia Socialista e Arte Militar”. Em um sentido, aqui apenas começam muitas problemáticas. A questão chave de como conquistar a grande maioria da classe operária e o movimento de massas para a revolução, com a frente única como tática para a unidade na luta da classe operária contra o capital, e ao mesmo tempo para ganhar a maioria dos trabalhadores para a revolução sobre a base da experiencia com as direções tradicionais. O problema dos aliados e da hegemonia, a questão fundamental da auto-organização e dos Soviets os problemas da insurreição, a relação entre defesa e ataque, a “grande estratégia” para a revolução internacional à qual está dedicada boa parte do livro, entre outros.

Hoje a classe trabalhadora tem um enorme peso social para poder vencer, mas, mais do que nunca é essencial o trabalho da estratégia. Hoje a classe trabalhadora a nível mundial se ampliou como nunca antes na história. Longe do mito do fim do trabalho, nas últimas décadas centenas e centenas de milhares de pessoas em todo o mundo se proletarizaram nos serviços, na industria, no transporte e em múltiplas atividades que hoje são assalariadas e antes não eram.

No entanto, a pesar da classe trabalhadora ter adquirido esse enorme peso social a nível global, que nem o próprio Marx teria imaginado, a classe trabalhadora também se encontra enormemente fragmentada. Fragmentada como nunca antes em sua história, entre trabalhadores precários, “informais”, desempregados, subempregados, etc. Por sua vez, o capitalismo se vale de todas as formas de opressão racial, de gênero, de nacionalidade, para fortalecer a exploração dos trabalhadores e trabalhadoras.

As burocracias não só a dos sindicatos como também as burocracias ou semi-burocracias dos chamados “movimentos” cumprem a função de garantir aquela divisão, onde cada um deve se limitar a lutar por um interesse fragmentado. E este ponto é a grande ausência na maioria das análises sobre os “movimentos”.

Ora, hoje também contamos com renovadas forças que podem passar por cima dessas burocracias e revitalizar o movimento operário.

Em primeiro lugar o enorme movimento de mulheres que vem se desenvolvendo nos últimos anos em nível internacional. Na Argentina, por exemplo, está protagonizando a luta pelo aborto legal, seguro e gratuito. Dezenas de milhares de mulheres tomaram as ruas por seus direitos. Então nos perguntamos: um movimento assim com a força que tem, não pode ir muito além da luta pelo aborto e que as mulheres sejam as protagonistas também da luta contra o saque que quer impor a burguesia argentina sobre as massas?

Hoje as mulheres constituem a metade da classe trabalhadora, e na Argentina a enorme maioria em muitos sindicatos, como da Educação, Saúde e nos serviços, etc. Não podem essas mulheres trabalhadoras ser a vanguarda para por em pé um novo movimento operário que lute por terminar com a exploração e a opressão? Cremos que sim, que depende justamente da luta de estratégias e de programas. Hipóteses estratégicas como essa tem que ser pensadas em cada país, segundo suas condições e particularidades, e desde já os trabalhadores e trabalhadoras negras têm grande peso aqui, ou na Europa também os trabalhadores imigrantes.
Longe de liquidar a ideia de classe trabalhadora como dizem muitos pósmodernos, a ampliação da classe trabalhadora e sua maior heterogeneidade a fizeram potencialmente muitíssimo mais forte. Mas, como dizíamos, depende da possibilidade de adotar uma estratégia e um programa socialista revolucionário.

A importância da discussão estratégica se reduz justamente a colocar as lutas cotidianas em função de construir uma força revolucionária capaz de, nos momentos críticos, tomar o poder, derrotar os capitalistas e abrir um horizonte superior para a humanidade. Isso, obviamente, implica ir além de somente participar nas eleições, da rotina sindical, ou das lutas parciais tal qual são. Como dizia Trotski, “Entendemos por tática na política – por analogia com a ciência bélica – a arte de conduzir as operações isoladas [ou seja, eleições, lutas parciais, etc.]; por estratégia, a arte de vencer, ou seja, de se tomar o poder.” Para isso a estratégia é útil, não apenas para lutar, não apenas para resistir, mas, sobretudo, para nos propormos vencer.

***

Distintas intervenções do plenário dialogaram com a necessidade de retomar em todos os âmbitos - inclusive na academia - as discussões do marxismo vinculados a qual estratégia para vencer no século XXI, superando a separação taxativa de o chamado "academicismo" opera entre a teoria e a práxis.






Veja na íntegra o vídeo da atividade:




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