Teoria

CEMARX

CEMARX: As recepções de Gramsci na América Latina e a retomada do debate estratégico

A mesa “”La cola del Diablo” revisitada: recepção, usos e circulação das ideias de Gramsci na América Latina” no IX Colóquio Marx e Engels trouxe uma discussão, sobretudo, quanto a recepção das ideias de Gramsci na América Latina.

segunda-feira 23 de julho| Edição do dia

As comunicações foram de Daniela Mussi quanto as interpretações do Brasil de 1960-2010, Camila Góes estudando os gramscianos brasileiros e argentinos nas revistas “Presença” e “Passado y presente”, Charles Quevedo apresentando a recepção de Gramsci no Paraguai e Rodrigo Santaella Gonçalves quanto aos trabalhos de René Zavaleta Mercado na Bolívia dando um panorama entre Brasil, Argentina, Bolívia e Paraguai nas recepções do italiano. Os comentários de Javier Balsa colocaram, de início, a necessidade de uma ligação política das pesquisas acadêmicas, sobretudo quanto ao estudo marxista.

A comunicação de Daniela Mussi apresentou um projeto de trabalho que busca interpretar como Gramsci foi utilizado nas interpretações do Brasil a partir da década de 60 mobilizando a hipótese de uma hegemonia comunista, canalizada pelo PCB inicialmente, das ideias iniciais do autor, avançando historicamente até 2010 nos estudos das recepções e usos dos conceitos. Camila Góes expos um trabalho que mobiliza, sobretudo, o conceito de tradução em Gramsci na discussão de pensar diferentes contextos nacionais, dando foco nas recepções a partir dessa chave em duas revistas. Charles Quevedo apresentando as recepções no Paraguai em relação à obra de Gramsci e Lenin e Rodrigo Santello que pontuou os usos de Gramsci na leitura de Zavaleta Mercado abrindo a discussão do aparecimento do indígena enquanto sujeito transformador.

É muito importante que o colóquio dê grande foco aos escritos de Gramsci, mas sua dedicação não pode estar desatrelada de um intenso debate político, programático e estratégico dos usos da teoria marxista como um todo. As contribuições de Gramsci são extremamente atuais, sobretudo quanto ao cenário latino americano, onde se instaura uma profunda crise orgânica não apenas na relação entre representantes e representados, mas também em novas expressões e formas de pensamento como expresso no Brasil nas jornadas de Junho de 2013 apontando para uma crise de Estado onde não há hegemonia instaurada o que pode ser visto nas atuais movimentações da burguesia rachando quanto à própria candidatura eleitoral ou na paralisação dos caminhoneiros, mas também que se expressa na intensa luta travada pela legalização do aborto na Argentina. Estes exemplos são base para reflexões diretas no léxico gramsciano da atual conjuntura num cenário de grande instabilidade política no qual a resposta dada à classe trabalhadora tem se concentrado nas eleições em outubro que retificam um regime falido no qual qualquer representante eleito terá de manter a agenda de aplicação de reformas o que não se apresenta como alternativa viável para a classe trabalhadora frente à um cenário de profunda crise.

A linha geral do colóquio como um todo, incluindo essa mesa redonda, expressa as questões mais latentes debatidas nesse contexto de crise orgânica, pensando “as alternativas” neoreformistas e como a apropriação desses intelectuais podem ter uma influência no curso de atuação da esquerda no Brasil e em certa medida no mundo. A necessidade de se retomar o debate de estratégia é urgente para pensar como deve ser a atuação dos revolucionários hoje, tomando como exemplo as experiências históricas da classe trabalhadora e toda tradição teórica que baseou a vitória bolchevique em 1917 e como analisar os principais entraves que levaram os seguintes processos ao fracasso com o papel decisivo da burocratização na URSS e no movimento operário do mundo todo.

Dialogando com um ponto chave da pesquisa de Daniela Mussi, a impossibilidade da hegemonia no Brasil – seja da burguesia seja dos “comunistas” – devido o lugar que ocuparam os sindicatos na política já com a circulação maior das ideias de Gramsci no país e como desde o varguismo o PCB nos sindicatos tinham uma política “transformista” que impossibilitava a revolução, os conceitos de frente única operária e da burocracia enquanto polícia política do Estado. Partindo da elaboração de Gramsci sobre Estado integral como a forma da burguesia estabelecer a hegemonia expandindo sua influência da “sociedade política” – o aparato do Estado propriamente dito com o parlamento, poder judiciário etc – para também a sociedade civil e suas instituições, incluindo os instrumentos de luta da classe trabalhadora e através da estatização e institucionalização de sindicatos com o fortalecimento das burocracias como correia de transmissão da hegemonia burguesa no seio do movimento operário, é preciso pensar como atuar desde uma perspectiva revolucionária para conquistar a maioria da classe trabalhadora e retomar esses instrumentos de luta para preparar as condições necessárias da tomada do poder, unificando a classe nas lutas parciais ou defensivas com os partidos reformistas e à colocando enquanto sujeito para avançar estrategicamente pelo acumulo de forças desde essas fortalezas até então burocratizadas.

A urgência da superação do projeto petista de conciliação de classes e como lutar pela independência política da classe trabalhadora aqui, superando o entrave que é a CUT, CTB e as demais centrais sindicais burocratizadas para a ativação dos trabalhadores na luta contra as políticas de ajustes aprofundadas pelo golpismo institucional deve ser pensada a partir dessa tradição teórica revolucionária.




Tópicos relacionados

IX Colóquio Marx Engels   /    Gramsci   /    Teoria

Comentários

Comentar