Teoria

ANTONIO GRAMASCI

Otimismo da vontade, pessimismo da razão: a força revolucionária da classe trabalhadora

Gramsci certamente se faz presente na história mundial como um marxista revolucionário e homem de partido, um dirigente político que se destacava pela inteligência e vigor de suas convicções quanto à necessidade da razão concreta do processo revolucionário.

Kleiton Nogueira

Doutorando em Ciências Sociais (PPGCS-UFCG)

sábado 29 de agosto| Edição do dia

Gramsci certamente se faz presente na história mundial como um marxista revolucionário e homem de partido, um dirigente político que se destacava pela inteligência e vigor de suas convicções quanto à necessidade da razão concreta do processo revolucionário que levará a classe trabalhadora a tomada do poder e assim, implantação do comunismo, destruindo todos os germes da sociedade burguesa e da exploração. Tendo vivenciado os acontecimentos de ascensão do fascismo na Itália, e sendo até os últimos momentos um combatente dos elementos opressores do regime de Mussolini, esse revolucionário tem muito a nos ensinar, especialmente no tocante a táticas e estratégias revolucionárias.

Seu olhar singular acerca da sociedade civil, às funções dos intelectuais orgânicos e a retomada e aprofundamento da concepção de hegemonia leniniana, são mais do que atuais, servem como armas críticas para a ação daqueles que de fato possuem a noção de que o capitalismo precisa ser destruído, que o novo precisa nascer através das mãos parteiras do proletariado internacional. Apenas através desse processo de construção hegemônica de modo dinâmico e a partir de cada formação econômico-social em conjunto no marco de um processo internacional é que poderemos dar saltos qualitativos em táticas e estratégias para o enfrentamento da burguesia e suas diferentes frações, representadas por governos da esfinge de Bolsonaro no Brasil e Donaldo Trump nos Estados Unidos.

Tal reflexão se torna mais que oportuna em um período de crise orgânica, na qual exibe de forma escancarada a sanha burguesa em colocar os lucros em detrimento da vida de milhares de trabalhadoras e trabalhadores em todo mundo. Numa época marcada por guerras e conflitos, o avanço da opressão burguesa, e em especial da fração rentista, vem demonstrando a necessidade de a classe trabalhadora tomar as rédeas do curso histórico de modo ativo e com independência de classe, como a única classe que pode dar sentindo racional as relações sociais de produção. É nesse espírito que ao retomarmos Gramsci, fortalecemos através de sua concepção teórica, prática e revolucionária, nossa própria visão do período atual que vivenciamos.

Com a crise mundial de 2008 os capitalistas de todo o mundo colocam os prejuízos de tal descalabro nas costas do proletariado internacional. A cólera capitalista em gerar lucro através do processo de mais-valia, e a busca de valorização na esfera parasitária do sistema financeiro evidencia que esse sistema não tem nada a nos oferecer a não ser mais ataques e opressões. A pandemia de Covid-19 escancara essa realidade de forma dura, enquanto o mundo soma mais de 21 milhões de pessoas contaminadas e mais de 760 mil óbitos [1] o que o capitalismo oferece é mais degradação das condições de vida, ausência dos elementos mínimos como alimentação, moradia, e até mesmo os profissionais de saúde, que heroicamente estão nas linhas de frente, nem sequer estão seguros pela negligência de um Estado capitalista que não oferece a mínima segurança através de Equipamentos de Proteção Individual, enquanto milhares de empresas, como a Amazon, vem lucrando em cima da precarização do trabalho.

Contudo, não é apenas de ataques que a burguesia vem tentando manter sua posição no cenário da luta de classes, o caso recente do assassinato de George Floyd nos Estados Unidos e a onda de manifestações da população negra naquele país demonstra que juntos, temos mais força para golpear a burguesia e seus aparelhos de repressão como a polícia. De forma exemplar, milhares de manifestantes nos Estados Unidos inflamaram o mundo contra o racismo estrutural que está intimamente vinculado ao modo de produção capitalista [6]. A força da população negra é um exemplo para nós que almejamos um mundo livre da opressão de classe e da exploração que cada trabalhador vivencia no cotidiano.
No Brasil, esse cenário também se manifesta em meio à pandemia de Covid-19 e a uma crise política, milhares de manifestantes ousaram lutar, mostrar a força que a classe trabalhadora possui, exibindo que, se as burocracias sindicais da CUT e CTB estão inertes diante da luta de classes, agindo como arrefecedores da indignação das massas, a própria classe trabalhadora demonstra que não irá aceitar calada os ataques do governo Bolsonaro e as demonstrações fascistas de setores de sua base de apoio. O ódio das massas diante de anos de opressão, atentado à vida e casos de racismo estrutural demonstrados na morte de João Pedro no Rio de Janeiro [2] e do menino Miguel em Recife [3] expõem a necessidade de agirmos com o otimismo da vontade, mesmo diante de tantas injustiças.

Esse “otimismo da vontade” é conhecido como parte de uma sentença que Gramsci proferiu ao dialogar com setores anarquistas na década de 1920 na Itália. A celebre frase: pessimismo da razão e otimismo da vontade, que no Brasil ficou conhecida através da disseminação dos estudos de Gramsci a partir de Carlos Nelson Coutinho, tem origem em escritos políticos e mais especificamente num texto (Discorso agli Anarchici) não assinado do jornal L’Ordine Nuovo da edição semanal de 3 a 10 de Dezembro do ano de 1920 [4]. De acordo com os estudos realizados por Della Santa [5] Gramsci cita essa frase fazendo referência ao literato francês Romain Rolland da seguinte forma: “A concepção socialista do processo revolucionário se caracteriza por duas notas fundamentais que Romain Rolland resumiu desde a palavra de ordem — o ‘Pessimismo da Razão’ e o ‘Otimismo da Vontade’ - L’Ordine Nuovo” (N.º 43, p.487-492).
Gramsci endereçava tal assertiva aos anarquistas italianos, que estavam embebidos em um orgulho pitoresco e em concepções equivocadas diante dos avanços que a práxis revolucionária marxista obtinha no seio da classe trabalhadora italiana sob influência da revolução russa de Outubro de 1917. Nesse processo e crítica aos anarquistas, e em especial a certo voluntarismo e ausência de organização, Gramsci destacava a força do marxismo revolucionário como concepção que forneceria a classe trabalhadora o nível de consciência necessária para a sistematização de táticas e estratégias oriundas dos melhores elementos existentes na classe:

[...] os socialistas os contrastam com uma ação organizacional enérgica dos elementos melhores e mais conscientes da classe trabalhadora, os socialistas se esforçam de todas as maneiras para preparar, através desses elementos de vanguarda, as massas mais amplas para conquistar a liberdade e o poder capazes de garantir essa liberdade em si [4]

O revolucionário italiano também salientava que a consciência da classe trabalhadora, a necessidade de aglutinação em sindicatos e corporações não surgiu de um rompante impulsivo do espírito, pelo contrário, parte da análise concreta da situação concreta, e são oriundas daquilo que Marx já denominava da concepção histórica das relações sociais de produção, nas quais os homens herdam determinações objetivas e materiais para a transformação da realidade. Contudo, Gramsci não era um sectário, apesar das fortes críticas aos anarquistas, na mesma carta, fazia a observação da importância da colaboração destes para a materialização da revolução proletária, embora chamasse atenção ao fato de que os anarquistas deveriam submeter seus elementos táticos a revelia da autocrítica, da mesma forma como o Partido Socialista Italiano tinha feito, de modo a estarem em sintonia com as determinações espaciais e temporais de cada época, sendo por fim, livres espiritualmente das influências da cosmovisão burguesa.

Gramsci também entendia a necessidade desses elementos para a construção de uma hegemonia, de uma nova formatação de visão social do mundo, possível e necessária para a classe trabalhadora. E nesse sentido, a ideia de partido, tática e estratégias se tornam fundamentais, o próprio sentido de organização era mais que necessário para a práxis revolucionária fincada nos reais interesses de classe.

O otimismo da vontade nos mostra que, mesmo diante do péssimo da razão, a classe trabalhadora, historicamente é a única que apresenta os reais interesses revolucionários, de perceber que outro modo de socialidade é possível a partir da concretude das relações sociais de produção vigentes, e tal percepção não é construído em bases frágeis e emanado do “espírito” impulsivo, mas da concepção materialista da história, do entendimento do significado da luta de classes e do valor que o trabalhado possui para emanação de um mundo que é plenamente capaz de ser vivido de forma superior à miséria capitalista.

É mediante a análise concreta da situação concreta, e percebendo a força da classe trabalhadora que o otimismo da vontade enche os corações dos revolucionários, que nós do Esquerda Diário e do Movimento Revolucionário dos Trabalhadores (MRT) não nos furtamos de defender os interesses da classe trabalhadora com independência de classe. É através desse fôlego e dos exemplos concretos das lutas antirracistas, da luta dos profissionais de saúde, da opressão sofrida pelas mulheres que sofrem diariamente com o patriarcado cujo epicentro também é o capitalismo [7], constatamos a concepção revolucionária e com independência de classe é mais atual do que nunca, que é possível superarmos esse mundo de miséria que a burguesia tenta vender como a única opção possível de se viver em sociedade.

REFERÊNCIAS

*Crédito da imagem: www.igsitalia.org

[1] OMS. Situação do surto de Covid-19. 07 de Junho de 2020. Disponível em: https://www.who.int/emergencies/diseases/novel-coronavirus-2019?gclid=Cj0KCQjwoPL2BRDxARIsAEMm9y85wdULM6yYOZMdc-KYJjyq8w_JgSUk6W9A2-PUHGldIf6jx5otJ90aAoOfEALw_wcB. Acesso em: 07 Jun. 2020.

[2] Esquerda Diário. Escândalo: polícia racista assassina João Pedro. Disponível em: http://www.esquerdadiario.com.br/Escandalo-Policia-racista-assassina-Joao-Pedro-Apenas-14-anos-e-um-futuro-interrompido. Acesso em: 7 Jun. 2020.

[3] Esquerda Diário. O mesmo racismo que matou João Pedro, Miguel e George Floyd, é que mata por Covid-19. Disponível em: http://www.esquerdadiario.com.br/O-mesmo-racismo-que-matou-Joao-Pedro-Miguel-e-George-Floyd-e-o-que-mata-por-COVID-19. Acesso em: 7 Jun. 2020.

[4] GRAMSCI, Antonio. Discorso agli anarchici (L’Ordine Nuovo, 3-10 aprile 1920, I, n.43) (tratto da raccolta L’Ordine Nuovo 1919-1920, ed. Einaudi pag. 396-401). Disponível em: http://www.nuovopci.it/classic/gramsci/dianarc.htm. Acesso em: 02 Maio. 2020.

[5] DELLA SANTA, Roberto. Otimismo da vontade, pessimismo da razão: english marxism, Anderson translation & integral journalism of New Left Review (or an internationalist world-marxism in the street-fighting years of western europe) .Tese (Doutorado em Ciências Sociais) – Faculdade de Filosofia e Ciências, Universidade Estadual Paulista, 2016. Disponível em: https://www.marilia.unesp.br/Home/Pos-Graduacao/CienciasSociais/Dissertacoes/barros_rds_do.pdf. Acesos em 02 Maio. 2020.

[6] PABLITO, Marcello; ALFONSO, Daniel; PARKS, Letícia (orgs.). A revolução e o negro: textos do trotskismo sobre a questão negra. Ananindeua: Itacaiúnas, 2019.

[7] ENGELS, Friedrich. A origem da família, da propriedade privada e do Estado. Tradução de Leandro Konder, 3ª Ed. São Paulo: Expressão Popular, 2012.




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