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Bombardeiros russos na Venezuela, o que busca Maduro e qual é o objetivo de Putin?

Com os aviões militares chegou uma centena de tropas russas, que serão encarregadas de completar as supostas missões e “exercícios militares” no país. O que significa estes movimentos por parte de Maduro, mas sobretudo por parte da Rússia?

sexta-feira 14 de dezembro de 2018| Edição do dia

Foto: Reuters

Muito ruído foi provocado pela chegada ao país de uma esquadrilha militar composta por bombardeiros estratégicos Tu-160 russos com capacidade de transportar armas nucleares, além de um aparato de transporte militar An-14 e um avião de passageiros Il-62, na última segunda, 10 de dezembro, e que recorrem mais de 10.000 Km.

A chegada deste tipo de bombardeiros à Venezuela não é nova. Há dez anos, dois Tu-160 aterrissaram também no território nacional com o fim de efetuar vôos de prova em águas internacionais, um anos após os aviões estratégicos russos retomarem os vôos à zonas patrulhadas pelos Estados Unidos e a OTAN, que haviam sido suspensos desde 1992. O Tu-160 (“Black Jack”, segundo a OTAN) é capaz de carregar doze foguetes de cruzeiro com ogivas nucleares ou convencionais e 40 toneladas de bombas, e é o maior avião de guerra da história.

De acordo com declarações do governo Maduro, os aviões russos seriam para a realização de exercícios militares conjuntos entre a Rússia e a Venezuela.

A chegada da esquadrilha se realiza depois da semana passada, quando Maduro fez uma nova visita à Rússia, na qual havia fechado “acordos de inversão” por mais de 6.000 milhões de dólares, além de um contrato para a manutenção e a reparação de armamento. Se trata de uma quantia que só foi afirmada por maduro, mas que não existe confirmação desde o Kremlin. Em tal reunião foi acordada a presença da esquadrilha russa no país.

O Ministro da Defesa, Vladimir Padrino López, declarou, em função da presença dos bombardeiros, que: “Estamos nos preparando para defender a Venezuela até o último palmo quando seja necessário, e isso vamos fazer com nossos amigos, porque temos amigos no mundo”. Muito recentemente e quase simultaneamente, chegaram em Caracas representantes de alto nível, além da Rússia, de países como China, Coreia do Norte e Turquia, países em clara tensão com Estados Unidos.

Nem há preparativos de guerra defensiva, como quer mostrar Padrino López, como tampouco há ameaças maiores entre a Rússia e os Estados Unidos em função da Venezuela. Não há interesse entre as potências de um enfrentamento bélico pela Venezuela. Se trata de movimentos políticos, mas sobre os quais tira proveito a Rússia. Exercícios militares deste tipo já houveram no ano de 2008, no governo de Hugo Chávez e depois em 2013, na chegada de Maduro ao poder.

Do lado interno, Maduro está para assumir um novo mandato presidencial, a partir de 10 de janeiro, depois de ter antecipado as eleições presidenciais no passado 20 de maio, eleições que um amplo espectro desconheceu, e busca dar uma mensagem interna de que, ao contrário de estar debilitado, conta com importantes aliados internacionais, que é uma mensagem também aos países da região.

Da parte da Rússia os interesses apontam em outro sentido e é claro que se trata de um aproveitamento da situação venezuelana. Moscou está buscando áreas de influência em seu processo de negociação mais ampla com Washington, enquanto os Estados Unidos está considerando abandonar o Tratado de Forças Nucleares de Alcance Intermediário e ampliar as sanções contra a Rússia.

É por isso que, mais que apoiar decididamente à gestão de Maduro, como o governo quer que seja visto, Putin usa a Venezuela para aproveitar sua posição geográfica e desde o ponto de vista geopolítico. E ninguém esconde que para a Rússia, a transcendência política da Venezuela é sua localização próxima aos Estados Unidos, seus recursos naturais e a oportunidades de obter lucros em negócios realizados no país, como vem fazendo no setor petroleiro.

Isto é o que explica que a Rússia tenha dito aos Estados Unidos nesta mesma quarta que dois de seus bombardeiros estratégicos, com capacidade para transportar armas nucleares, abandonarão a Venezuela na sexta, anunciou à Casa Branca, com o que colocou fim a uma medida que havia incomodado Washington. Isto afirmou a Casa Branca, de acordo com a agência Reuters, que recebeu um e-mail diretamente da secretária de imprensa, Sarah Sanders. O que terão acordado para que seja o próprio governo de Putin quem informe diretamente Washington? Não se sabe ainda no hermético mundo do tabuleiro internacional.

  • Por isso é que não deixou de qualificar-se como retórica o intercâmbio entre Washington e Moscou, mais que tensões que pressagiam conflitos maiores. O secretário de Estado estadunidense, mike Pompeo, declarou que o envio dos bombardeiros estratégicos russos à Venezuela é desperdício de dinheiros público por “dois governos corruptos”. Ao que o porta-voz da presidência russa, Dmitri Peskov, respondeu que “Quanto ao desperdício de dinheiros público, não estamos de acordo com isso. Além disso, não tem cabimento que um país que com a metade do que gasta em defesa pode alimentar toda a África faça essas declarações”.

De sua parte, Jorge Arreaza, vice presidente do país, declarou que “A reação de @SecPompeo contra a cooperação militar entre a Rússia e a Venezuela, não é só desrespeitosa, é cínica: EUA possui ao menos 800 bases militares (conhecidas) em 70 países. Hoje 75 dos 107 programas dos EUA para cooperação em segurança operam na América Latina”. Mas Caracas estaria cumprindo o papel de tonto útil no tabuleiro internacional, uma situação a qual é levada a cumprir por uma burocracia corrupta.

Em certa consonância com Estados Unidos, o presidente da Colômbia (um aliado estrangeiro de Washington e “sócio global” da Aliança Atlântica OTAN), Iván Duque, assegurou que o continente deve “estar alerta” frente aos exercícios militares de defesa entre Venezuela e Rússia, aos que qualifica de “hostil”. Como mandado a declarar, Duque sustentou que “O continente deve estar alerta, este não é somente um ato hostil com a Colômbia, senão um ato hostil frente a um continente, frente a uma região”. Chegou inclusive a mencionar ao TIAR [Tratado Interamericano de Assistência Recíproca], assinalando que a região “tem claro” que existe o Tratado de Assistência Recíproca, que estabelece que se há uma agressão “todos os países devem proteger ao país agredido”. Mas o presidente colombiano não menciona a quantidade de bases militares estadunidense que estão assentadas no país neogranadino.

Maduro, o mais dependente dos militares e o mais abaixo da dependência externa da China e Rússia

Assim como temos visto que diante de sua debilidade Maduro para se sustentar avançou a um bonapartismo reacionário cada vez mais repressivo e ligado internamente às Forças Armadas, que lhe deram um poder inusitado, a impossibilidade de frear a catástrofe econômica e social que açoita ao país o tem levado a ser também cada vez mais dependente da China, de quem depende de empréstimos em troca de petróleo e com quem tem comprometido empresas básicas de Guayana, sendo que a Venezuela é hoje o país de maior penetração na China, e se aproxima bastante à situação de vários países africanos que estão praticamente semi-colonizados pela China.

Mas também dependente da Rússia, buscando mostrar que conta com um aliado político de peso internacional, mas que Putin o usa para melhorar sua posição geopolítica em sua disputa com os EUA. Ao passo disto, Maduro avança em toda uma depredação do Arco Mineiro do Orinoco, realizando um verdadeiro ecossídio para poder extrair ouro através de grandes transnacionais e negociando o mesmo via Turquia, em um caminho depredatório como nunca foi visto no país.

Mas todos estes acordos para tentar frear a espiral da crise não só não fortalecem a Maduro senão que o tornam cada vez mais dependente dos militares no plano interno, da China (no econômico externo) e da Rússia (no político externo). Este é o caminho que transita Maduro, a frente de um governo em franca decomposição política e submerso nas piores catástrofes de sua história recente. E isto é o que explica também toda uma série de novas alianças internacionais que busca articular tudo com o objetivo de buscar uma sobrevida.




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