Opinião

CORONAVÍRUS

Bolsonaro se esconde atrás de ministros em coletiva que não levou à sério o coronavírus

quarta-feira 18 de março| Edição do dia

Na tarde de hoje houve a esperada coletiva de imprensa de Jair Bolsonaro para tratar do coronavírus. Esta ocorreu com nada menos que 8 ministros, além do presidente Jair Bolsonaro e o presidente da Anvisa, todos com máscaras devido ao contato direto com mais dois ministros do governo que testaram positivo para o Covid-19 (Augusto Heleno do GSI e Bento Albuquerque de Minas e Energia). Uma cena que seria cômica, se não fosse trágico que o destino de milhões de trabalhadores estivesse na mão destes que são notórios inimigos do povo.

Bolsonaro chamou esta aglomeração de ministros para que seu projeto pudesse ainda ter algum respiro, pois este está especialmente "queimado" inclusive em setores que o elegeram, como mostraram os panelaços espontâneos que ocorreram em diversos bairros e em diversas capitais do país, antecipando o panelaço que deverá ocorrer no dia de hoje (18) às 20:30.

"Nosso time está ganhado de goleada. Duvido que quem vier me suceder um dia – acho muito difícil – consiga montar um equipe como eu montei. E tive a coragem de não aceitar pressões de quem quer que seja. Então, se o time está ganhando, vamos fazer justiça, vamos elogiar seu técnico, e o seu técnico chama-se Jair Bolsonaro” declarou o presidente Bolsonaro, mostrando que está acuado mas ainda não largou o osso.

Durante toda a coletiva, afirmou-se, por um lado, a mentira de que o governo estaria tomando medidas tratando o coronavírus como uma verdadeira pandemia, e, por outro lado, justificou-se todas ações do presidente, sua minimização da epidemia, todas as falas contra uma suposta "histeria" com o coronavírus e sua participação no ato do dia 15. Aliás, adiantamos um pouco a coletiva, pois pulamos toda a introdução na qual Jair Bolsonaro justifica todas ações anteriores, desde a manifestação do dia 15 até o atual momento, iniciando em uma divisão do para aonde seguir, de um lado o autoritarismo de Bolsonaro, de outro o do STF e do congresso nacional, até quando estoura a crise do coronavírus. Quem tem que justificar suas ações é porque está na defensiva.

O conjunto da coletiva é uma apresentação de cada um de seus ministros, excluindo-se aqueles mais ligados à ala ideológica bolsonarista. Mais militares, Guedes, e Mandetta. E Bolsonaro como o "capitão" do time. Ou seja, ainda não é o "dream team" de Rodrigo Maia, Alcolumbre, Witzel, Doria, e da Globo e da Folha, exceto pela participação de Paulo Guedes. Bolsonaro retrocede um pouco em sua retórica de minimizar o coronavírus, sem com isso se comprometer, por não reconhecer seus erros - coisa que nunca fará na vida - e, por outro lado, seus ministros ganham mais destaque. Melhor eles do que Maia, ou Witzel/Doria deve pensar Bolsonaro.

Medidas esdrúxulas

Com isso, soluções bizarras e esdrúxulas são colocadas na mesa. Moro fala de fechar fronteiras com a Venezuela (?!, papo de quem foi no ato do dia 15) - sendo que o covid-19 vem preferencialmente da Europa. Junto com isso, medidas para piorar as condições dos presidiários.

Guedes fala em ajuda aos trabalhadores... depois de ter dado trilhões para capitalistas, oferece uma miserável ajuda de R$ 200 reais para "proteger" os autônomos. 2 cestas básicas para quem for Rappi, Ifood, feirante, ambulante, camelô, etc.

Continue lendo: Paulo Guedes propõe que "ajuda" aos trabalhadores informais seja de apenas R$ 200 por mês

Centralização

Todos ministros, em especial o ministro da infraestrutura, intervieram pela "centralização" dos "esforços" (quais?) contra o coronavírus. Isto é um recado contra Witzel e Doria, mas em especial Witzel, que tem tomado protagonismo, com objetivos eleitorais, frente à questão do coronavírus, decretando medidas de quarentena que incluem a proibição de transportes públicos entre estados e entre municípios - fato que foi criticado pelo ministério da infraestrutura, com o ministro Tarcísio Freitas muito preocupado com a sobrevida das companhias aéreas, falando em "voluntarismo" nos casos de fechamento de aeroportos e rodoviárias.

Esta oposição entre governo federal e governos estaduais é, na realidade, expressão de diferenças que não alteram o fundamental. Ambos se igualam no fato de que nenhum dos governos está investindo diretamente no SUS como deveria, não garantindo testes do covid-19, nem criando leitos para conter os casos mais complicados.

Ministro da saúde filosofia e não diz nada

Mas o mais surreal foi mesmo o que é apresentado como mais "técnico", o ministro da Saúde Luiz Henrique Mandetta, pintando um mundo de sonhos no qual haveriam laboratórios sendo montados em todos os estados.

Mandetta falou em ações individuais de cada um para conter o covid-19, falando contra os fechamentos de portos, estradas etc. Reivindicando os outros ministros, quase como se ele próprio fosse Bolsonaro, Mandetta opôs medidas de contenção da circulação de pessoas contra o funcionamento normal da economia (preocupação de todo governo Bolsonaro).

Segue defendendo a centralização, afirmando ao mesmo tempo que o que é possível fazer é apenas mitigar efeitos de uma epidemia que está dada - e contra a qual não há nenhuma estrutura da saúde pública sendo montada para a contenção. Mandetta chamou como "parte da doença" as "notícias enviesadas", a "avidez pela manchete" etc. De que doença ele fala, do governo Bolsonaro ou do covid-19?

Curiosamente, depois de uma sessão de puxa-sacos, durante as perguntas dos jornalistas (das quais, de 8 houve 4 questionando se Bolsonaro estaria com o covid-19, por ter tido contato com Heleno e Bento Albuquerque) Mandetta afirmou que recomendou à todos ministros terem um n.º 1, n.º 2, n.º 3, etc... para que fosse substituído caso adoecesse.

A outra metade das perguntas foram sobre os panelaços, quando Bolsonaro respondeu afirmando que a imprensa deveria divulgar não só o amplo rechaço à presidência, como também um suposto panelaço chamado "espontaneamente" (pelo próprio Bolsonaro) em seu apoio. Claramente, uma tentativa bastante defensiva, de um presidente desgastado que ainda não decidiu dar o braço à torcer nos ataques aos trabalhadores e no plano de avançar no autoritarismo, no golpismo, nada fazendo frente à miserável situação os trabalhadores, exceto piorar situação destes frente à crise do coronavírus.

Continue lendo: Um plano de emergência dos trabalhadores para enfrentar a COVID-19 e o "vírus do capitalismo"




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