Gênero e sexualidade

CONTAGEM REGRESSIVA 8 DE MARÇO

Angélica Mendoza e a greve das professoras mendocinas

Uma breve retrospectiva pela sua militância política e sindical.

domingo 12 de fevereiro de 2017| Edição do dia

Encarnava uma personalidade desafiante. Era trabalhadora e intelectual em tempos onde se considerava que a mulher deveria permanecer reclusa em seu lar. Que inclusive se fizera comunista em um lugar com Mendoza era um outro elemento disruptivo. E que logo encabeçara uma ruptura dentro do partido comunista com um grupo denominado "os esquerdistas", merce que pelo menos, aproximemos a lupa para ver esta mulher e através dela, a experiência da classe trabalhadora da época.
Mendoza daqueles anos se polarizava entre uma oligarquia de poucos personagens de distintos apelidos, os chamados "governos de família", que rodavam entre os postos de governo e uma classe operária que protagonizava as primeiras greves e começava a organizar seus sindicatos.

O contexto mundial emergia convulsionado: a revolução mexicana de 1910, a primeira guerra mundial, a Revolução Russa de 1917 e na América, o movimento d Reforma universitária de 1918. O comunismo se fortaleceu em quase todo o mundo. Começava a dominar o século XX, Lênin e a III Internacional o chamariam "o século de crises, guerras e revoluções".

Indisciplina e Insubordinação

"A negra", como chamavam seus amigos mais próximos, nasceu em Mendoza, onde se tornou professou, participou da atividade sindical e conheceu o Partido Comunista Obrero (PCO) e dirigiu seu órgão de propaganda, a Chispa. A professora que começou a lutar pelo seu salário abraçou a causa da revolução, consciente de que a resolução das dificuldades dos trabalhadores não podia se resolver limitando sua luta somente ao âmbito sindical.

Em 1928, foi candidata a presidência pelo PCO. Recordemos que por esses anos as mulheres não teriam direitos políticos como votar e ser votadas, tão pouco direitos civis elementares. Com a recente reforma do código civil, em 1926, lhes reconheceu as mulheres casadas o direito de obter e administrar bens próprios com os frutos de seu trabalho.

Logo depois do golpe de Uriburu em 1930 foi detida, experiência que passou na prisão feminina. A propósito de minha passagem pelo Buen Pastor(1), em que relatou as penúrias das mulheres condenadas por exercer uma atividade política opositora ao regime como em seu caso, ou por exercer a prostituição, como era o caso de muitas outras.

A greve docente de 1919

O setor educativo em que trabalhava Angélica estava conformado majoritariamente por mulheres. Sem embargo, os postos hierárquicos eram, e também são hoje, reservados para os homens: desde 1856 até a atualidade somente duas mulheres ocuparam o cargo de ministra de Educação da Nação.

Esta lógica patriarcal do sistema educativo se reproduziu também com os baixos salários que percebiam as professoras, ou com absoluta falta de pagamento, como foi no caso mendozino pois se considerava seu ingresso como um "complemento" ao salário do marido.

Mendoza não era a exceção. Em 1881, enquanto Sarmiento era superintendente diretos geral das escolas, foram as professoras de uma escola de San Luis as quais protagonizaram a primeira greve porque tinham 8 meses sem receber. A profissão docente era entendida como uma extensão do papel materno, assumindo como natural o papel de cuidadora de outros, quem não escutou falar da professora como uma "segunda mãe"? Esta ideia se impôs com o objetivo de não reconhecer o trabalho educativo como uma verdadeira profissão e portanto, baixar seu "custo", pagando salários de miséria (2).

Talvez esta experiência tenha marcado a marca feminista que Angélica Mendoza desenvolveu posteriormente. Não somente denunciava a exploração que sofriam os trabalhadores e pobres, senão também a opressão que sofriam as mulheres refletindo esta perspectiva nas páginas da Chispa em escritos posteriores e como secretária internacional da comissão Interamericana de Mulheres com sede em Buenos Aires.

Como os abusos e atropelos as trabalhadoras da educação eram moeda corrente, as professoras se organizaram e se declararam em greve, por quase um ano inteiro.
Naquele momento Mendoza era governada pelo caudilho radical Néstor Lencinas, entre 1918 e 190. Ainda que mantenhe algumas diferenças, se alinhava com a política do presidente Hipólito Yrigoyen (1916-1922) ao aplicar reformas para alguns setores sociais, como regimentar a jornada de oito horas e estabelecer um salário mínimo (ainda que não garantia que se cumprisse realmente) enquanto reprimia duramente a greve de professoras igual ao que Yrigoyen faria na Semana Trágica em 1919 e na Patagonia em 1921.

Lencinas não aderiu as reclamações dos professores. Pelo contrário, o então diretos geral das escolas, separou de seu cargo Florencia Fossatti, uma das dirigente do setor que contava com grande prestígio entre as professoras.
Neste momento se publicava o boletim de ideias, dirigido por Rosario Sansano, funcionando como órgão de agitação e difusão dos conflitos no magistério, e como ferramenta de organização dos trabalhadores e trabalhadoras do setor.

Florencia Fosatti (esq.), María Elena Champeau e Rosario Vera Peñaloza

Lencinas suspendeu de seus cargos as fundadoras do grupo Idea acusadas de "indisciplina, insubordinação e anarquia". As professoras se reuniram para dar uma resposta a esta censura e fundaram "Maestros Unidos", seu gremio. O governo respondeu com novas suspensões e as professoras, junto com seus alunos e a comunidade, saíram para se manifestar nas ruas.

Yrigoyen interviu na província e propôs como solução a reincorporação dos cesantes e a separação do cargo de diretor geral de escolas, odiado pelas grevistas. Uma tradição de funcionários autoritários que continua até a atualidade.

Sem embargo, ao terminar a intervenção, o governo o restituiu no cargo, provocando que as professoras se lançassem novemtne a greve e se aderiram a Federação Operária Provincial. Lavaram a cabo assembleias e organizara, a primeira greve geral na província. Durante 8 dias se paralizou o comercio, o transporte, a indústria e o trabalho agrícola. A polícia novamente reprimiu com dureza.

Culminando na greve, as professoras não voltaram as salas, se encontraram com o presidente Yrigoyen, as centrais operárias e os círculos universitários e culturais, conseguindo que a liga nacional de professores enviasse uma delegação a Mendoza e a Federação Universitária de Buenos Aires declararam greve por 24 horas.
Ao não destravar o conflito se convocou a segunda greve geral na que o governo reprimiu brutalmente, sequestrando os dirigentes operários e abandonando-os em zonas desérticas como mulas amarradas.

As professoras fazendo escola na greve geral

A igreja católica fez campanha contra a greve argumentando que a atitude militante das maestras e seu vínculo com os operários afetavam "o decoro e a moral". Recordamos que ainda em 1923 (na província de Buenos Aires porém podia tomar como exemplo da regulação absurda que deviam suportar), as professoras eram proibidas de casar-se, usar vestidos acima do joelho, fumar ou tomar cerveja, passear em companhia de homens que não eram seu pai ou seu rmão, maquiar-se ou pintar as unhas e até tomar um sorvete no centro da cidade (3). Deviam ser uma sorte de imaculadas, pessoas assexuadas, sem direito a eleger sequer como vestir e com quem estar. E a igreja católica fazia o sujo desprestigiando as grevistas.

Estas professoras rompiam o molde lutando e jogando um papel crucial como direção do movimento. Além de Angélica Mendoza como secretária geral dos Maestros Unidos e Florencia Fossatti como presidente, podemos mencionar Tarsilia Arias, Elena Champeau, María Gómez, Amelia Blanco, Luisa Cabrera e María del Rosário Sansano. A valentia destas mulheres desafiaram Mendoza conservadora e clerical que se impunha desde o poder e que condenava as professoras a exercerem sem pagamento sua profissão com um verdadeiro "apostolo".

A luta foi exemplar ainda que os resultados não foram os ótimos: tiveram alianças com o operários, com intelectuais, com estudantes, com os quais compartilhavam jornadas de luta, mobilização, atos e reuniões. A unidade da classe operária se apresentava como uma necessidade impiedosa diante de um governo tão duro de ceder.

Durante esta experiência sindical cumpriu um papel destacado que a levou a militância política por alguns anos, durante os quais se vinculou referentes que logo seriam os percusores do trotskismo na Argentina. Ainda que seu percurso para leva-la a acomoda-se nas fileiras comunistas, sua experiência marcou uma parte na história da classe operária argentina.

Notas:

1. Mendoza, Angélica. Cárcel de mujeres. A propósito de mi paso por el Buen Pastor. Editorial Claridad 1933.
2. Menéndez, María Guerrero. Las docentes no somos santas, ni vírgenes, ni segundas madres de nadie, Economía Femisista, www.economiafeminista.com.
3. Ibid.




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